Tanto
O CAVALO INCANTADO Seu Américo Gonçalves, de Turmalina |
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Um rapaz chegô nüa casa que morava mais o pai, né ?
Um dia, o pai falô assim :
- Meu fio, cê pricisa caçá um oto incosto quarqué, eu tô veio.
Pricisa saí . Cê incontra üa isposa boa.
Dispois o pai falô assim :
- Eu tenho um cavalo muito bom aí e ocê vai nele, viaja.
Dispois o rapaz pegô o cavalo do pai e arriô e saiu. O pai rumô a
matula pra ele cumê na istrada , ele rumô a maleta e ele dispidiu do pai, o pai
abençuô ele e siguiu.
Chegô nüa istrada. O sol tava muito quente. Aí tinha üa arvre muito
grande, muita sombra. Aí ele chegô e disarriô o cavalo, sortô o cavalo, ficô chorano
ali e foi cumê a matula. Imbaixo da sombra tinha üa água passano. Quando ele
sentô e tava cumenô, veio um passarim e cantô muito bunito e sentô na arvre do pau e
foi ... pegô cantano, cantano, ele foi, incantô cum passarim e falô assim :
- Mais que pássaro mais bunito aquele! Que coisa! Que buniteza!
Aí o passarim foi cantanô e pegô a dispená, né?, coçano. Naquilo soltô
üa pena e ês passao vuô. Ele foi no sintido da pena e a pena vuô assim e
caiu pertto dele. Aí ele pegô a pena, e, nele pegá a pena, o cavalo falô cum
elassim :
-Num panha essa pena, que tudo pena será pena.
Ele sustô de vê o cavalo cunversá, né?
-Cavalo cunversano!... Ma eu num vô jogá essa pena fora, não!
E guardô a pena. Nisso ele pegô o cavalo, arriô e saiu. Chegô nüa
artura, vei um minino cum pexe na mão, um pexe vivo.
-Me compra esse pexe?
- Minino, eu num tô carregano, num tenho cuzinha. Pra que esse pexe? Que que eu
vô fazê cum pexe?
O cavalo falô cuele assim :
-Compra o pexe.
Daí o cavalo levantô, né? Ele comprô o pexe do minino e saiu.
Chegô diante, tinha üa água , um riacho assim. O cavalo falô cuele :
-Solta o pexe aí!
Ele soltô o pexe. O pexe saiu pa dento dágua e voltô travez e
falô :
-Ô, moço! Quandocê tivé no maió aperto, cê grita po rei dos pexe que
cê tem valida.
Ele sustô :
-Pexe cunversá!... Que que será que vai cuntecê cumigo na frente, né?
Siguiu. Chegô diante, ele vê um minino cüm gaiola e cüm passarim
nela,dentro.
-Me compra esse passarim, me compra?
-Pra quê? Tô viajano, num priciso de carregá passarim.
O cavalo:
-Compra o passarim do minino!
Ele comprô, comprô cum a gaiola. Chegô diante, o cavalo falô assim
:
-Solta o passarim!
Ele abriu a tampa da gaiola, o passarim foimbora, vuô. Vuô por
cima da cabeça dele, falô :
-Ô, moço, quandocê tivé no maió aperto, ocê grita pelo rei dos pássaro
que cê tem valida.
Ele pensô : Virge, que vai tê, cuntece cumigo? Tanta coisa na
istrada!
Dispois ele siguiu. Chegô nüa cidade, cidade grande, né? Ele foi
prum hotel, né? Pôs o cavalo lá na cochera. Dispois iscreveu üa carta pro pai, com a
dita pena do pássaro, né? Quando tava iscreveno, vei um rapaz, chegô e falô sim
:
- Ô, moço, me vende essa pena? Me vende? Me vende?
-Essa pena num é de negoço!
-Me vende essa pena?!
Pegô cum ele e ele té infezô e deu um impurrão no rapaz pra lá.
Rapaz sacudidão, dotô! E o rapaz erum prínspe da cidade, fio do rei, né? Ele num
sabia.
-Cê me paga!
Saiu. E o rei era paxonado cum a rainha do vizim, do oto país, sá?
Ele topavo nome da princesa, ele paxonô por ela, mas num tinha lá quem
buscasse, quem ia lá, né? Era difícil. Aí o rapaz chegô lá e falô :
-Meu pai, ali no hotel tem um rapaz que falô que dá conta da princesa pro
siô casa cum ela, da princesa fulana de tal.
E o rei mandô intimá ele, o rapaz, uai!
Cum aquilo o cavalo rinchô lá.
- Eu vô vê que que o cavalo tem ali.
Quando chegô lá, o cavalo falô cuele assim :
-Num falei cocê que num panhasse a pena, que tudo cum pena será pena? Ocê
da conta da princesa que mora num país muito longe e é difícil trazê
ela. Mas cê fala que vai, mais ocê pede, cê pede um navio, o mió navio da cidade,
muito bunito e a mió banda de música.
Ele é paxonado da princesa, ele dá tudo. Segue a viage.
Assim ele fez. Chegô lá, o rei falô cum ele :
-Ocê falô que dá conta de trazê a princesa?
-Não, eu num falei isso, mais se é pra i, eu priciso dum navio, o mió da cidade,
bem feito, de incanto, e a mió banda de música.
O rei disse, e tudo que o rei qué tá na mão dele, né? Ele voltô tavez
pra prepará o navio e a banda de música. Dipois ele pegô a viagem, pôs o cavalo dento
e foi, tocô. Foi toda vida! Viajano, viajano, viajano no mar até que chegô pa cidade.
Quando chegô na cidade,quincostô o navio e o navio era munto
dincanto, bunito, né?, todo mudo da cidade veio visitá o navio, sabe? Visitaro o
navio e num ficô nimguém sem vê, só ficô a princesa sem vê. E eles tava isperano po
cavalo, um cavalo de sela. O povo num quiria vê o navio mais. Siguiu. E a princesa falô:
-Meu pai, dexa eu vê o navio, tá todo mundo incantado por aí!
-Pra quê?
-Vai...
Só tinha ela, né? Ela saiu mais a criada. Saíro. Chegô lá e
entrô.
Quando ela foi entrano e incantô cum navio, o cavalo falô assim :
-Essa qué a moça!
Aí o rapaz mandô retirá o navio. Divagá , como se diz, né? E
a bandinha cumeçô a tocá um dobrado bunito e ela incantô oiano as parede do navio. E o
navio tá navegano, né? Quando foi lá no arto do mar diante, ela falô cum a criada :
-Vão bora!
Que chegô na porta, só via água. Aí ela disatinô, né? Xingô
disisperada da vida. Dispois tirô o anel do dedo e jogô dendo mar.
Siguiu, foi mbora. Foi viajano, viajano. Quando... O povo tava isperano, né? Quando
o navio portô...
-Será qué ele que veio?
-Deve sê ele, né?
Quando o navio chegô, tirô a moça e intregô pro rei.
-É essa que é a rainha.
E ele voltô po hotel, né? Cum poco a moça infezada cum o rapaz, mas
já tava até gostano do rapaz, né? Rapaz muito importante, muito bunito, né? Aí o
rapaz chegô, passô a moça e falô sim :
-Rei, magistado, o bandido sem-vergonha que me troxe da minha terra, eu quero
que me dá conta dum anel queu joguei no fundo mar.
O rei falô :
-Ô chente, mas essa rapaz me deu conta dessa princesa e eu agora vô té
matá ele? Ondé quele vai achá esse anel no arto do mar, né?
Daí o cavalo... Aí mandô intimá o rapaz travez. Quando veio a
intimação, o cavalo vei junto. Aí o cavalo falô cuele... Aí o cavalo falô cum
elassim ;
-Óia, eu num falei cocê que num panhasse aquela pena, que tudo cum
pena será pena? Ocê dá conta daquelanel qua princesa jugô no fundo
mar. Ocê fala que vai.
O navio tava po conta dele, né? E a banda de musga. Mas o cavalo vei,
né? O cavalo levô ele... E ele tava isperano só po cavalo, né?
Foi viajano, viajano... Ele num pudia vê mais a cidade. Quando chegô
no arto mar, ontava o anel:
-Aqui que tá o anel.
Ele mandô pará o navio e gritô po rei dos pexe. Aí vei um pexe
dipressa.
-Que que deseja?
-Eu desejo o anel da princesa fulana de tal que jogô nesse meio
aqui.
-Ispera um poco.
Sumiu esse pexe. Passô um mucado, ele veioi cum pexim na boca. O
rapaz passô a mão no pexim, abriu, e o anel tava na barriga do pexe. Aí ele voltô o
navio pa trás, sabe? Quando chegô, o navio pontô, falô :
-Virge! E o rapaz evém! Será que vem trazeno o anel? Num é
pussive1...
-É pussive, ele deu conta da moça aqui, que é difícil...
Quando ele chegô e tirô o anel, falô ca moça :
-É esse o anel?
A moça :
-É esse mesmo.
Ele pegô, pôs o anel no dedo e a moça ficô incantada cum rapaz, viu? Num tava
quereno o rei. O rapaz voltô po hotel, daí um mucado, noto dia, mais ô meno, a
princesa:
-Rei magistado, o bandido... xingano, po rei num discunfiá,
né?-sem-vergonha que me toxi da minha terra ... eu quero que me dá conta dum
vidrim de chero que tá dendo meu quarto, dibaxo de minha cabicera.
Isso qué difícil, né? Ele num pudia i lá mais. O povo tava doido,
quando o navio chegava, o povo ia lá pa vê que navio é, pá matá aquele rapaz, né? O
pai da moça tava disatinado. Ah! A puliça sempre tavali. Ele num pudia i lá na
cidade mais. Aí o cavalo falô cum ele :
-Ma... cê fala que vai, né?
Aí foi, chegô. Viajano, levô a bandinha de musga. Foimbora, viajano,
viajano, viajano. Quando elinxergô, quinxergô a cidade longe, ele mandô
pará o navio e gritô po rei dos passo, gritô po rei dos passarim... Aí vei dipressa :
-Que que deseja?
-Eu desejo o anel da princesa que tá dibaxo do travissero no quarto dela. O vido
de cherô, né?
O passarim:
-Ispera . O passarim foimbora. Foi toda vida, a cidade tava longe. Ele num
pudia chegá lá cum navio mais, né? Aí chegô lá, o passarim foi rodano, rodano, até
que achô um buraco e entrô. Entrô, foi no quarto da princesa e achô um vidro de chero.
Infiô o pezim no lacim de fita que tava no piscucim da coisa e infiô cum jeitim, né?
Até eu vi isso! Vei cum jeitim toda vida pa num caí. Aí subiu e vei vuano. Chegô e
intregô o rapaz o vido de chero. Ele pegô o vido de chero e voltô. Nissele foi
viajano.
Ês tava tudo lá na bera do mar, isperano a hora que o navio voltasse, né?
Quando navio foi chegano. Aí chegô e incostô. A moça...
-É esse que é o vido de chero?
-É esse mesmo!
Mas a moça tava incantada cum rapaz, o rapaz que dá conta de tudo, né?
Mais sempre distinada cum aquele... coisa, né? Quando foi noto dia :
-Rei , magistado, o bandido sem-vergonha que troxe de minha terra, eu quero que ele
salta treis fuguera que nimguém de pé, de longe, num pode, num agüenta, fica
longe. E ele tem de pulá dento da fuguera.
O rei:
-Ô, chenti, mais matá um rei, rapaz que deu conta de tudo! Isso num pode!
Mas é palavra de rei. É isso mesmo.
Mandô chamá, intimá o rapaz e falô cum el. Aí o cavalo rinchô,
uai. Aí o cavalo falô cum ele :
-Uai! Eu num falei que num panhasse aquela pena, que tudo cum pena será
pena? Intão ocê dá conta de pulá treis fuguera. Mas é a última coisa que eu vô
sirvi ocê. Cê compra treis peça de pano e bate no meu lombo até moiá as treis
peça de pano de suor. Cê inrola nüa e pula denda fuguera. Quando acabá aquela,
põe até na tercera. Mas é a última coisa que posso fazê procê.
E dispidiu dele. Ele ficô sintido, purquê ia ficá sem o cavalo, né? Aí o rei
mandô prepará as fuguera, né? E ele foi pra lá cum as tries peça de pano. O povo da
cidade tava tudo ali. Até eu tava, né? Tava a princesa e o rei. O rei sentado, né?,
isperano, ispiano a multidão do povo, aquela cena que ia fazê, né? Aí o rapaz chegô
cum as treis peça de pano e cumeço a batê no cavalo e inrolô nüa; pulô na
fuguera. Na ota, tercera, ele pulô na tercera fuguera, na sigunda. Aí foi pulano,
pulano, té que quemô o pano todo. Ele pulô lá no limpo. Intão inrolô na
tercera e pulô na tercera. E o povo lá, batendo palma, né? Aquela cena o rapaz tava
fazeno, né?, bunita! E a moça tava ciosa oiano, né? Perdo rei.
Quando ele pulô lá, tava vistido de rei. Quando ele pulô a ota fuguera,
tava todo vistido de rei. A moça priguntô e deu o braço ele e voltô pra lá e mandô
castigá o rei. Casô ca princesa e ficaro morano, até agora tá morano cum ela.
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