POEMAS

Carlos Alberto de Almeida Dias 

Julio Saens

I -

Amo por detrás das montanhas
A mulher que existe e que vai chegar
E que se unirá à mulher que habita em mim
E seremos duas lésbicas apaixonadas
Rolando e nos estendendo pelas montanhas de Minas

(BH, 1983 - 86)

II -

falocrático


E vejo o colo
o calo que
me persegue

Calo então o colo
que me
abriga

Colo gestos
e
falas

Calo e sinto
a falta
do colo

Lugar onde
não
me abrigo

 

Exposto
falo do falo, calo do colo,
num falar tão belo

Falo
e não calo
que se faz meu falo

(BH, 1986 - 2.004)

III -

Questões de articulação

Aos colegas de Português Histórico

Crisálidas cálidas
Infestam
Meu caldo frio

Se éramos ditongo
Agora, anárquico, monotonguei-me.

Apareço às vezes até como hiato!
Perco-me na promiscuidade silábica;
Consoantes arrastam-me em composições,
E até tritongos já fiz...

Mas permaneço e reivindico
Minha soberania sonora:
Sôo.

Estou pronto a epênteses,
Conforme for,
Existem mesmo oclusões possíveis.

Afinal, nestas questões diacrônicas,
Palatalizaríamo-nos
Ao infinito.

E, digraforizados,
Subverteríamos
O próprio princípio abissal:
O Verbo, em suas flexões metafônicas, sonorizantes
e etc's.

(BH, 13/10/89)

IV -

Alvo-re-seres

a nova casa
renovada
melhor seria que caiada

muito espaço
poucos móveis
pra gestos largos

janelões
se abrindo pra infinitos
de céus e mares

trepadeiras
percorrendo paredes
insinuosas

jardins de alá
em entre-faces
com os da Babilônia

 

suspensos
num tempo
de quimeras

em que Íbis
não mais se confunda
com Esfinges

(B.H., 20/10/02)

 

V -

 

Eu em descartes

Choro,
existo, logo, choro

E minhas lágrimas
se confundem
com a chuva, lá fora

Choro,
existo, logo, choro

Observo
o flamboyant florido
em meio à avenida
no entardecer
e carros
trespassantes

Observo mesmo
minhas veias
em fuligens
chamando de cór
meu coração

Choro,
existo, logo, choro

Lá,
aos longes,
um ipê todo roxo
em meio a prédios
insistente
- natural das
camadas e do

ozônio,
elo perdido
da natureza

Choro,
existo, logo, choro
Nos prédios
tantos,
solidões,
solidões compartilhadas
e ninguém,
no vazio

Choro,
existo, logo, choro

A noite me
cobre
com seu véu
de verdade:

Eu, meu copo e meu cigarro.

Minha música
minhas contas
meus papéis
minhas cartas
- que dizia
não esperar resposta
e meus gestos
transviados
no olhar alheio
Existo, logo.

Minhas lágrimas
dissolvem-se
por dentro
confundidas
nas veias
com a fuligem

Existo logus,
logo,
Bem locus.
Locus moralis minimus.

Locus ethos,
logo,
ethos sum.

Ergo...

(BH, 18/11/02)

 

BIOGRAFIA:

Carlos Alberto de Almeida Dias, pelos seus próprios cálculos, foi concebido durante o Golpe Militar de 1964. Depois de algum incentivo, de muito hesitar, achou por bem deixar sair alguns de seus textos engasgados nas gavetas, e fazer o seu debut, publicando pela primeira vez alguma coisa, neste ano de 2.004 na Tanto. Graduado em Letras pela FALE/UFMG, é atualmente Professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Redação na Prefeitura de Belo Horizonte. Fez Especialização em "Arte e Cultura" na Escola Guignard de MG e Especialização em "Comunicação e Semiótica" no PREPES/PUC/MG. Atualmente faz Especialização em "Temas Filosóficos" no Departamento de Filosofia da FAFICH/UFMG. Possui um Mestrado interrompido em "Estudos Literários (Teoria da Literatura)" na FALE/UFMG.

e-mail: caadias@uol.com.br

 

VOLTAR