Escutei, escuto e escutarei - de tempos em tempos - a mesma bobagem:
a poesia está morta. O mais recente legista literário foi o escritor Martin Amis, que,
durante o festival de Hay-on-Wye, despachou novo atestado de óbito. (Parênteses
explicativos: o que é o festival de Hay-on-Wye? Resposta: é aquele onde escritores
brasileiros não têm vez, porque mal são traduzidos. E o que é a Festa Literária
Internacional de Paraty (FLIP)? Reposta: é aquela, inspirada em Hay-on-Wye, onde
escritores estrangeiros, incluindo Martin Amis, fazem a festa com seus livros traduzidos
para o
Português). Mas o que disse o romancista de A Seta do Tempo (1991) ao público?
Transcrevo: "Vocês podem ter notado que a poesia está morta. O obituário já foi
escrito (...). Quer dizer, a poesia continua, e sua estranha, fantasmagórica existência
póstuma se dá na forma de excursões e leituras e concursos poéticose tudo o mais,
porém não muitas pessoas agora se aconchegam à noite com um livro de poesia..."
Para o escritor, a causa mortis da poesia foi a aceleração da História, que
contaminou os indivíduos com o desejo de velocidade e de seguir adiante. A poesia,
infelizmente, seria o oposto a toda essa correria - pois pára o relógio e exige que se
olhe para o momento, para a pequena e súbita epifania que está à espera de exame. A
jornalista Tishani Doshi, num artigo publicado em The Guardian, sentiu-se incomodada com a
afirmação de Martin Amis, e logo encontrou antídotos: atualmente, romances muito
volumosos continuam populares, pois sempre se arranja tempo para lê-los. Além disso, um
cortejo de poetas ganhou aplausos e reconhecimento naquele mesmo festival de Hay-on-Wye:
por exemplo, Derek Walcott ao recitar o poema "Farewell", de Walter de la Mare;
e ainda Wole Soyinka em sua homenagem a Omar Khayyam, além dos tributos à poesia de W.
H.Auden. Um observador mais cínico poderia afirmar que o romancista britânico estava, de
fato, fazendo uma propaganda da sua arte literária, como se esta fosse a mais preparada
para enfrentar o século XXI. No entanto, volta-se a ouvir as palavras de Derek Walcott: o
mundo é o território da metáfora; e aforça da poesia se encontra, justamente, no
seu poder de confrontar as perdas. Nada mal como resposta definitiva a quem havia
diagnosticado um mundo cada vez mais veloz: afinal, quem cuidará das perdas, se estamos
avançando em
velocidades tão altas e mal temos tempo de contemplar o caminho?
Se me coubesse levar a sério a afirmação de Martin Amis, ainda assim me sentiria bem ao
perceber a poesia como uma crítica ao que há de pior na idéia de progresso. Entre nós,
o poeta José Paulo Paes já havia reagido ironicamentecom o livro A Poesia Está
Morta Mas Juro que Não Fui Eu (1988). E ele tinha mesmo razão em tirar o corpo
fora, pois nunca se sabe se a poesia pode morrer na mão dos seus inimigos, que nunca a
praticam, ou na dos poetas - que tentam matá-la por incompetência ou, conforme o caso,
por envenenamento lento e gradual. Explico-me: na longa lista dos inimigos da poesia
encontram-se os historicistas, a desconfiar dos poetas que não conhecem a verdade dos
fatos; e os cientistas, que consideram a poesia uma afetação puramente intuitiva; e
ainda os matemáticos, os filósofos, os políticos, e por aí vai. Já repetindo, em
1825, um ataque de origem platônica, o jurista Jeremy Bentham, em The Rationale of
Reward, criticava os poetas por apresentarem a ficção como verdade, o que lhe parecia
imoral e desmoralizador. Se alguns poetas foram incompetentes e quase mataram a poesia -
é melhor calar seus nomes: eles fracassaram por completo, e a poesia aí está, robusta
sobrevivente. Mas não é possível omitir aqueles poetas que tentaram atrofiar até à
morte um tipo, um estilo ou uma idéia de poesia. Isso tem sido comum ao longo do tempo,
quando se presta atenção às escolas literárias: ali está o velhaco parnasiano a
zombar do jovem simbolista com seus poemas sideraise voláteis; e também o mestre
modernista a tapar o nariz em rejeição ao cheirode naftalina que vem do passado. As
injúrias e as gozações pululam na forma desapos. Até que um dia anunciaram a morte do
verso, do poema e até da arte.A fúria assassina foi tamanha que muitas vezes o autor do
golpe se confundia de alvo: por exemplo, no índice do livro O Arco-Íris Branco
(1997), de Haroldo deCampos, consta o ensaio "Poesia e Modernidade: da Morte do
Verso à Constelação". Quando se chega à página 243, o título passa a ser "Poesia
e
Modernidade: da Morte da Arte à Constelação". O leitor se pergunta: será que
tanto faz, já que o negócio é matar? A leitura faz supor que o crítico só se
preocupava mesmo com o verso, mas resta a dúvida sobre se o seu veneno poderia
espalhar-se... Por outro lado, se então for verdadeira a morte do verso, como compreender
a poesia de vanguarda que dele não mais se utiliza? O mesmo Haroldode Campos, no ensaio
intitulado "Comunicação na Poesia de Vanguarda", incluídoem A Arte no
Horizonte do Provável (1969), aparece com a solução: "À medida que [a poesia de
vanguarda] vai crescendo em complexidade, o auditório vai carecendo de elementos
redundantes, de normas, que o ajudem a decodificá-la. Este problema só se resolve com a
ampliação do repertório do leitor através deuma revolução nos métodos tradicionais
de educação (...)". Se bem entendi, é preciso revolucionar o ensino para
ensinar a morte do verso. O flerte com a morte e a anulação, aliado a uma tendência
àobscuridade, está no âmago da idéia de vanguarda artística. É uma tendência
implícita, por exemplo, na negatividade de livros como Viva a Vaia (1979),Despoesia
(1994) e Não (2003), de Augusto de Campos, nos quais um poema como
"Afazer" implica afasia. Uma presença pelo desaparecimento, ou, nas palavras de
Arnaldo Antunes: "Do menos ao ex, do ex ao des, do des ao não, a poesia de
Augusto renova a sua afirmação." Assim, fica o não-dito pelo dito e a impressão
de que às vezes a poesia, assim como a morte, não manda recado.