Sandra Moreira

OS ESPAÇOS

 

FELIPE FORTUNA

 

Abro um armário que não tem Deus

e, portanto, serve para pendurar

as roupas daquele dia. No dia

seguinte, o mesmo armário demonstra

que será assim, sem Deus, embora eu me vista.

 

Os dias passam de portas abertas ou fechadas

e roupas sem providência me cobrem.

Vou pela rua e me segue o espaço desse armário

e não retiro do bolso nem carta nem mesmo

o peso da camisa tão necessária.

 

Quando me dispo, a roupa volta ao armário?

Diante das portas, nem sempre decido

– e o que faço é deixar ou não pendurada

a forma do meu corpo, que preenche

a nudez que um dia também pendurarei lá dentro.

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