Rui Santana
                                                                                   Rui Santana

Plurilingüismo
do
Grande Sertão

Joaquim Branco


"O sertão é do tamanho do mundo."  Guimarães Rosa (GSV, 71)

Das estepes siberianas ao Liso do Suassurão

Das primeiras cenas do Grande sertão: veredas, escolhemos para análise dois episódios, em que Guimarães Rosa, através de seu personagem-narrador – Riobaldo –, faz a abertura do livro como em uma epopéia (cantando o sertão) e conta pequenas estórias ou "causos".
São os casos do Aleixo e do Pedro Pindó, farto material para as teorias de Mikhail Bakhtin, que, da solidão branca das estepes siberianas, nitidamente contempla a vastidão do Liso do Suasssurão de Rosa.
Numa visão macro, sabe-se que o GSV – assim vou designar o Grande sertão: veredas de agora em diante – é um longo diálogo entre o personagem principal Riobaldo e um estranho narratário que nunca se exterioriza, mas que é sempre instado a ouvir e a compartilhar da narrativa. "O senhor sabe?: não acerto no contar (...)" (GSV, 167). "Disse ao senhor? – eu estava pensando que ia dar escola para os filhos dum fazendeiro. Engano." (GSV, 123).
O GSV é um relato pontilhado de vozes, sonoridades e o entrecruzar de comentários e informações emitidas em todos os níveis, e Riobaldo, um vaqueiro "letrado" que, por essas coisas do destino, se vê ali, como jagunço "no meio do redemunho", dentro do sertão e das aventuras que vão acontecendo. E o seu narratário, um homem misterioso e culto (ou o próprio autor, que ouviu de jagunços e vaqueiros os causos transformados e refundidos em esplêndida trama ficcional). 

Os casos do Aleixo e de Pedro Pindó

 Entrando nos casos, vamos direto ao primeiro: o caso do Aleixo.
O Aleixo era um homem muito mau que vivia no Passo-da-Areia, junto a um açude onde criava traíras.
Um dia, Aleixo matou, sem motivo, um velhinho que por lá passara pedindo esmola. Antes de um ano se passar, seus quatro filhos adoeceram com uma espécie de sarampo, tiveram os olhos vermelhos e ficaram cegos.
Aleixo não enlouqueceu, mas mudou completamente sua vida, passando a fazer caridade dia e noite.
Já o caso de Pedro Pindó apresenta uma mudança do posicionamento dos personagens. Pedro e sua mulher viviam sossegados e no caminho do bem. Mas tiveram um filho de nome Valtêi que tinha maus instintos e maltratava e feria pessoas e animais. Os pais, então, começaram a surrar o menino até sangrar. Com o tempo, habituaram-se a bater nele todos os dias. O menino foi emagrecendo e os pais quanto mais batiam, mais sentiam prazer naquilo. Diziam os vizinhos que o menino não iria durar até a próxima quaresma.
Se, para as teorias de Bakhtin o GSV chega a ser um banquete, esses dois fragmentos – constituídos de apenas algumas páginas (da nº 12 à nº 15) – são um perfeito aperitivo.

Sob o foco cerrado de M.Bakhtin 

Comecemos pelo discurso de outrem, que subjaz logo nas primeiras linhas. Aqui é Shakespeare travestido e mudado do monólogo do príncipe Hamlet ("ser ou não ser") para as inquirições do jagunço Riobaldo, que experimenta o mesmo conteúdo em vários torneios frasais: "Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é." (GSV, 13)
Na mesma cena, ocorre a referência de Riobaldo ao compadre Quelemém, fazendo circular o pensamento do amigo em outro nível, tal como explana Bakhtin como "o discurso de outrem na linguagem de outrem", mostrando assim também as intenções do autor (Questões de literatura e de estética, 127). Voltando ao GSV: "Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém diz." (GSV, 13)
Acentua o crítico russo que "a palavra desse discurso é uma palavra bivocal especial" (GSV, 127)
Esta é uma das provas de como para o romance é estranha a idéia de uma linguagem única, segundo prova uma das bases da teoria do Plurilingüismo de M.Bakhtin.
Igualmente as sentenças e aforismos penetram na frondosa linguagem do romance GSV, bem ao gosto do ensaísta soviético. Na página 13 do mesmo livro, lê-se: "Quase todo mais grave criminoso feroz sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos!" (GSV, 13)
Outro exemplo vem anteriormente: "O diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos." (GSV, 12)
E ainda: "Pois não é ditado: ‘menino – trem do diabo?’" (GSV, 12). Ou finalizando: "...o diabo na rua, no meio do redemunho..." (GSV, 12).
Os denominados gêneros intercalados, de que também fala Bakhtin, que servem para introduzir e organizar o plurilingüismo no romance, e em um grupo especial – o das confissões, dos relatos de viagens ou de aventuras, biografias, etc – estão presentes em todo o GSV, notadamente nos episódios em foco.

Explico ao senhor: o diabo [...] Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido." (GSV, 12)

Não raro é o personagem o introdutor do plurilingüismo. Bakhtin cita que, através dos personagens, ocorrem a hibridização, a mistura de acentos e o desvanecer de fronteiras entre o discurso do autor e o discurso de outrem. (QLE, 123).

Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração. Não que eu esteja analfabeto. Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra-de-três, até geografia e estudo pátrio (...) (GSV, 15-16).

Para Bakhtin, o autor pode expor o seu ponto de vista através do narrador – no seu discurso e na sua linguagem – e até no objeto da narração. É um segundo relato, implícito, num plano latente na fala do narrador. "... para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!" (GSV, 16).
No estilo paródico, detectado por Bakhtin, estão presentes fragmentos que demonstram intenções sócio-ideológicas multiformes que trilham caminhos indicados pelas profissões, pelos cargos, grupos sociais, etc, todos embalados no tom peculiar que envolve o romance humorístico. (QLE, 176).
Como nesse fragmento do Grande sertão:

Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, antes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida. (GSV, 16)

Pelo visto, pode-se concluir que uma releitura do Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, comprova o quanto esse romance significa em diamante bruto ainda não totalmente revelado aos olhos do leitor, e o quanto as teorias de Bakhtin podem ser úteis para os inúmeros desdobramentos significativos que uma grande obra de arte se e nos propõe.

Bibliografia:
ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro:
J.Olympio, 1958, 2a. ed. def.

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética - a teoria do romance. Tradução: Aurora F. Bernadini, José Pereira Jr, Augusto Goes Jr., Helena S. Nazário e Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Unesp/Hucitec, 1998, 4. ed.

(*) Joaquim Branco – poeta, professor de literatura na FAFIC (Cataguases MG), doutorando em literatura comparada na UERJ. Tem vários artigos publicados neste site.

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