James Joyce em Paris, 1920

James Joyce em Paris, 1920

Parece estranho associar a obra do maior escritor irlandês do século XX – James Joyce (1882-1941) – a uma leitura mais acessível ao grande público. Mas, podem crer, isso acaba de acontecer para o leitor brasileiro com a republicação de Ulisses, devido à magistral tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.
Considerado por muitos críticos como obra máxima da modernidade, o romance Ulisses há anos intriga os leitores pela impermeabilidade de seu texto complexo, cheio de armadilhas e códigos cifrados, de collages e cortes abruptos, de associações rápidas e inusitadas e de um fraseado multilíngüe.
Sua primeira tradução no Brasil, feita pelo filólogo Antônio Houaiss em 1966, só fez aumentar sua fama de livro difícil, cuja arquitetura permanecia inacessível ao leitor comum.
O trabalho da professora Bernardina, porém, trouxe uma surpreendente fluência para o texto joyceano, além de uma simplicidade que reedita o Joyce bandalho e anedótico que todos nós gostaríamos de ler e que ficou elíptico no eruditismo e em pequenos equívocos do primeiro tradutor.
A revista Veja, em comentário do resenhista Jerônimo Teixeira, coteja alguns fragmentos das duas traduções, das quais transcrevemos um em que Houaiss não percebeu a esperteza do expediente utilizado pela personagem Milly, filha do protagonista Leopold Bloom. Vejam como a mesma frase ganha outra conotação nas mãos da professora Bernardina:
"O dia em que a peguei na rua pintando as faces para fazê-las coradas." (A. Houaiss)
"O dia em que a peguei beliscando as bochechas para torná-las vermelhas." (Bernardina)
Há fragmentos em que um realismo duro – tipicamente joyceano – se sobrepõe até à escrita cortada e pontilhada de enigmas:
"– Você conhece aquela moça ruiva, a Lily Carlisle?
– Conheço.
– Estava aos beijos com ele na noite passada no quebra-mar. O pai é podre de rico.
Ela está de barriga?
– É melhor perguntar ao Seymour.
– Seymour um maldito oficial! – disse Mulligan.
Ele acenou com a cabeça em sinal de assentimento enquanto tirava a calça e se levantava, dizendo corriqueiramente:
– As ruivas copulam como cabras." (p. 24)
Criado – a partir do título – com um elo com a Odisséia de Homero, Ulisses é uma trama moderna em que um trio de personagens (Leopold e Molly Bloom e Stephen Dedalus) se move tendo como pano de fundo a cidade de Dublin, na Irlanda, em apenas um dia (16 de junho de 1904) na vida deles. Posteriormente, este dia ficou consagrado como o Bloomsday (Dia de Bloom), que hoje é comemorado com festejos em todo o mundo literário.
Habilitem-se, pois, leitores. Chegou a sua vez de conhecer a obra mais desafiadora do século que passou, escrita com a marca do talento inconfundível de James Joyce.
JB – poeta, crítico, professor de literatura e de produção de textos nas Faculdades Integradas de Cataguases(MG) e doutor em literatura comparada pela UERJ.

Livro: Ulisses, James Joyce. 888 pp.,
           R$79,90, Editora Objetiva 

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