Em nome
do pai |
Jorge
Fernando dos Santos |
A não ser pelo poema Felicidade, publicado nas páginas 47 e 48 de Antonio
Carlos Jobim UM Homem Iluminado, livro de Helena Jobim pela Editora Nova
Fronteira, quase nada se conhece hoje da poesia de Jorge Jobim. Pai do músico e da
escritora, ele foi poeta parnasiano, jornalista e crítico literário de algum relevo em
seu tempo, amigo e discípulo do também poeta Alberto de Oliveira. Helena tem quase tudo
publicado por ele e começa a planejar o resgate de sua obra literária.
Segundo a escritora, que há cinco anos mora em Belo Horizonte, a idéia de republicar os
poemas do pai tem duas origens. A primeira teria sido uma conversa com o acadêmico Josué
Montello, quando ela ainda morava no Rio de Janeiro. A segunda partiu do juiz-corregedor e
poeta gaúcho Jorge Adelar Finatto, diretor cultural da revista Ajuris, publicada
pela Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul. "Ao tomar conhecimento da obra do
meu pai, ele disse que deveríamos buscar apoio ou patrocínio para resgatar seus
poemas", ela explica. No entanto, devido a compromissos com seus editores no Brasil e
em Portugal, só agora a autora de Trilogia do Assombro encontra tempo para tocar o
projeto.
Gaúcho de São Gabriel, nascido a 23 de abril (dia de São Jorge) de 1889, Jorge Jobim
bacharelou-se em direito, foi diplomata e poeta, e se casou com Nilza Brasileiro de
Almeida, em 1926, quando ela tinha apenas 15 anos. A diferença de idade entre os dois
serviu para alimentar ciúme e insegurança, levando o poeta a abandonar a casa por duas
vezes. Ele morreu de parada cardíaca, em 19 de julho de 1935, na Casa de Saúde Dr.
Eiras.
Em Antônio Carlos Jobim Uma Biografia, escrita por Sérgio Cabral para a
Lumiar Editora, consta que, segundo o psicanalista Raul Bitencourt, que era primo de
Jorge, ele teria se suicidado. Helena desmente essa versão e afirma que a morte do pai
decorreu de doses excessivas de morfina, droga que era utilizada como antidepressivo. Em
seu livro, Cabral lembra as atividades do diplomata, que "nomeado segundo-secretário
de Legação no Equador, no dia 27 de fevereiro de 1918, tomou posse em 18 de maio.
Removido depois sucessivamente para o Chile (11 de novembro de 1918), Peru (30 de novembro
do mesmo ano) e Argentina (25 de abril de 1919), não tomou posse em nenhum desses
postos
"
"Tenho poucas lembranças do meu pai", diz Helena, que tinha três anos quando
ele morreu. "Lembro, por exemplo, que eu estava com sarampo ou catapora e chorava
muito por causa da coceira. Ele pegou rolos de serpentina colorida em cima do armário e
enfeitou a cama de dossel onde eu dormia. Quando ele foi embora de casa, eu perguntava
cadê meu pai? Cadê meu pai? e mamãe dizia que ele estava viajando. Meu pai
era um homem de grandes angústias, possessivo e ciumento. Possuía vastíssima cultura e
talento, mas por causa dos problemas emocionais, abriu mão da carreira diplomática para
ser inspetor de ensino do Ministério da Educação. Ele sofria de saudades do
Brasil."
Saudades do Brasil daria nome a uma das melhores obras instrumentais de Tom. Para
ele e a irmã, o pai seria sempre uma "lenda", outro nome de uma de suas
composições. O compositor herdaria do pai o amor pelos dicionários. "Papai os
consultava com freqüência", garante Helena. Jorge Jobim viveu apenas 47 anos e
publicou os livros Colméia Cristã e Poesias (1906-1914), além da
coletânea Poetas Brasileiros, em dois volumes, organizada em parceria com Alberto
de Oliveira para a Livraria Garnier.
Jorge também organizou Minha Infância Os Mais Lindos Contos para Crianças,
sob encomenda da Livraria Moura, reunindo obras de Eça de Queiroz, Coelho Neto, Leon
Tolstoi, Selma Lagerlof, Oscar Wilde e Hans Christian Andersen, entre outros. Além de
exemplares desses livros, a filha guarda um volume de cartas e poemas inéditos que ele
dedicou à mulher e lembra, com orgulho, que o pai foi condecorado em vida por Alberto I,
rei da Bélgica, com a Ordem do Rei Leopoldo.
Curiosidades sobre o maestro
A história de Jorge Jobim remonta à trajetória de
Tom, na qual se registraram coincidências e curiosidades. Para início de conversa, o
maestro veio ao mundo pelas mãos do Dr. José Rodrigues Graça Mello, o mesmo médico que
trouxe ao mundo o compositor Noel Rosa. A exemplo do Poeta da Vila, o maestro da Bossa
Nova também nasceu com o queixo afundado, mas, no seu caso, o tempo corrigiria o
problema. O pai de Noel também sofria das faculdades mentais e teria se suicidado.
Homem místico e religioso, Jorge Jobim era devoto de Nossa Senhora da Conceição, fato
este registrado no poema que fez para o filho em 25 de janeiro de 1927, data do seu
nascimento. Tom morreria justamente em 8 de dezembro de 1994, dia dedicado à santa e que
também coincide com o assassinato do beatle John Lennon, ocorrido em 1980.
Tom passou a vida tentando organizar a memória do pai, pois logo após a morte deste, sua
mãe se casou com Celso Frota Pessoa, que o adotou como filho legítimo. O maestro
descobriu que o pai chegou a fazer a letra de uma marcha em homenagem ao Grêmio
Porto-alegrense, cuja melodia coube a Radamés Gnatalli, que se tornaria um dos seus pais
musicais.
Outra coisa que alegrou o autor de Águas de Março foi saber que o pai chegou a
conhecer o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, pai de Chico, seu parceiro, num
encontro na Livraria Garnier, no Rio de Janeiro. Durante algum tempo, os dois teriam
trocado correspondência.
Matéria publicada em 14 de
maio de 2004, no jornal Estado de Minas, onde autor trabalha como editor de Suplementos e
Revistas. Maiores informações sobre ele no site www.jorgefernandosantos.hpg.com.br |
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