O e-mail chegou aflito, num tom quase desesperado. A mãe de uma estudante solicitava meu
parecer sobre uma prova de literatura, que teve como tema o romance Palmeira Seca, de
minha autoria. Três questões sobre aspectos relevantes do texto
valiam um ponto cada uma. No entanto, a garota de 14 anos conseguiu apenas 0,5 ponto na
prova. Inconformada, ela ameaçava não ler nenhum dos outros livros adotados pela escola.
Li as respostas e, francamente, não consegui entender os critérios adotados pelo
professor. Afinal, eram três questões subjetivas que, logicamente, deveriam admitir
respostas também subjetivas.
Respondi ao e-mail narrando uma experiência que vivi há dois anos, quando uma crônica
de minha autoria foi adotada no vestibular de determinada universidade. Desafiado por um
colega de redação, respondi as três questões e, para minha surpresa, errei duas delas.
Não fui o primeiro escritor a passar por esse constrangimento. Recentemente, li uma
crônica de Mário Prata na qual ele descreve sua perplexidade ao constatar que havia
errado várias questões numa prova que fora baseada num texto de sua autoria. Coisa
parecida aconteceu com Drummond e também com outros autores renomados. Mas o caso mais
interessante me foi narrado pelo romancista e dramaturgo Cunha de Leiradella que,
aliás, volta este mês para sua terra natal, no Norte de Portugal.
Certa vez ele teve um conto adotado num curso de letras e foi convidado a proferir
palestra no auditório da faculdade. Antes de sua fala, uma professora analisou o texto.
Em determinado momento, um garçom se aproxima da mesa e anota o pedido de um
casal de fregueses. O homem pede um uísque e ele faz um tracinho com giz no tampo da
mesa. A mulher pede um suco e ele desenha uma cruzinha ao lado dela.
A professora evocou Freud e Lacan, e deduziu que as duas marcas se relacionavam com a
sexualidade dos personagens. Ao passar a palavra para o autor, ela foi informada que sua
análise estava errada e que a cena realmente acontecera com ele, no final dos anos 50,
quando veio morar no Brasil. Sem argumentos diante dos risos da platéia, ela exclamou que
ali estava mais um autor que não compreendia o significado da própria obra.
Episódios como esses demonstram que os textos nem sempre são corretamente trabalhados em
sala de aula. As escolas deveriam ser mais flexíveis na adoção de livros, pois o
principal objetivo dessa política é o estímulo à leitura e não a ameaça de
bomba aos alunos. Como todo tipo de arte, a literatura admite leituras objetivas e
subjetivas. Se o professor pergunta, por exemplo, o nome do personagem principal, a
resposta será única e caberá perfeitamente numa questão de múltipla escolha. Se ele
quer saber o que significa o nome da obra, estará fazendo uma pergunta subjetiva, que
pode abrir um leque de possibilidades para a resposta. Acho que os livros deveriam ser
estudados em sala de aula de maneira prazerosa e democrática, e não com a
preocupação de descobrir qual a mensagem que o autor quis passar. Quanto mais leituras
uma obra nos permite, mais universal e perene ela será. Assim como as outras artes, a
literatura não é uma ciência exata e seu efeito sobre as pessoas deve sempre
admitir surpresas.
(*) Jorge Fernando dos Santos é jornalista, escritor e compositor. Autor
de 20 livros, entre eles o romance "Palmeira Seca", acaba de publicar
"Sumidouro das Almas" (romance) e "Todo mundo é filho da mãe"
(crônicas), ambos pela editora Ciência Moderna. A presente crônica foi publicada no
jornal Estado de Minas, onde ele trabalha como editor de Suplementos e Revistas.
Sua homepage é www.jorgefernandosantos.hpg.com.br
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