
Pavios Curtos
poemas de
José Aloise Bahia
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| acima
das nuvens
É difícil dizer o
que existe. Arrisco um palpite: junto aos anjos se misturam prostitutas da melhor
espécie. Cheias de bom senso e piedosas. São anarquistas ardentes que encarnam o canto
do amor do mundo. Muitas foram imortalizadas em prosas e versos. Confraternizam-se com as
imaginações dos criadores.
Apollinaire
acima das nuvens
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rodas rangem na curva dos trilhos
Sete horas! Junto com a multidão, vou de
metrô até a estação do Calafate. Somos passageiros ou viajantes? Passageiros que
martelam as mesmas vistas. Sei que amanhã, ouvirei o barulho. Voltarei ao trabalho.
Repetirei o percurso. Na reta do tempo, a velocidade já não é mais sentida. Tudo é
sempre igual na mesma cidade.
Bandeira rodas rangem na curva
dos trilhos
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o rumor das imagens
Lei da gravidade, uma alegoria que escapa
os confins do corpóreo e tangencia parte da memória. Naturais, artificiais e
fragmentadas deslocam-se sem parar: hiperbólicas. Faz a vida mudar. Legitimam a
realidade. Gosto e desgosto: a cultura da imagem é um grande agregado
tecnológico-estético nas antenas parabólicas.
Baudrillard o rumor das imagens
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a estrutura presente
No pêndulo do relógio, povoado de
personagens em suas histórias, a curiosidade e a admiração moram num mundo aberto.
Infinitas possibilidades de interpretações para um leitor ideal que sofre de uma
insônia ideal. Eis o desvio noturno necessário que me mantém aceso até o raiar do dia.
Acordo com o estardalhaço dos pardais.
Eco a estrutura presente
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o eterno convidado
Para participar da Santa Ceia deve-se ter
vastas emoções e pensamentos imperfeitos. É o caso de Judas Iscariotes. Hoje, ele
freqüenta teatros, TVs, cinemas, romances, novelas, contos e poesias. Ator à procura de
cenas dantescas. Vende-se na maior naturalidade ou rouba qualquer cena. Dissimulado. Sem
residência fixa.
Fonseca o eterno convidado
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paisagem de Minas
São muitas. Do Triângulo ao rio Doce. De
Extrema até Manga. No centro, Ouro Preto, Mariana, Congonhas e BH. Na travessia pelas
Gerais descobri um trem mineiro com quadros bem coloridos. Vi igrejas, museus, montanhas e
um povo gentil. Até achei um pincel no Parque Municipal. Uma enorme sala de aula verde.
Guignard paisagem de Minas
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a vida é uma viagem
às crises de sensibilidade e expressão:
mínimos e máximos. Entre caprichos e relaxos, com certas comoções agudas e algumas
decisões graves, escolhemos a nossa passagem. Concentrados morreremos. Dispersos
viveremos. A vida é uma afecção crônica, onde tudo renasce.
Leminski a vida é uma viagem
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todos os nomes
Na hora absurda, o infante vê de longe
terra firme. Cumpre o destino que deseja: Appolinaire, Bandeira, Baudrillard, Chagall,
Eco, Drummond, Florbela, Fonseca, Guignard, Gullar, Iberê e Leminski juntos no mesmo
barco. Todos os nomes fundiram-se na minha imaginação. Pessoas imortais num oceano
iluminado.
Pessoa todos os nomes
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DÍPTICO
DÍPTICO
Dois.
Quadros.
Duas.
Faces.
Auto-retrato
transvestido com o corpo de Dürer.
Minhas expiações espiando a bobagem materializar.
Dois olhos fechados.
Um olho aberto.
Duas pernas.
Dois pés.
Manipura.
Preto bebê.
Cifrado.
Cifrado.
Coluna vertebral.
Osso femoral.
31 de maio de 2003.
31 de maio de 2003.
Livro dos Conselhos.
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".
Artista.
Miguel
Gontijo
Belo Horizonte.
Minas
Gerais.
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José Aloise Bahia é poeta e crítico, autor de Pavios Curtos, Anome Livros - Belo
Horizonte, 2005. JoseAloise@aol.com
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