Arte de Miguel Gontijo


P
avios Curtos
poemas de
José Aloise Bahia

 

acima das nuvens

É difícil dizer o que existe. Arrisco um palpite: junto aos anjos se misturam prostitutas da melhor espécie. Cheias de bom senso e piedosas. São anarquistas ardentes que encarnam o canto do amor do mundo. Muitas foram imortalizadas em prosas e versos. Confraternizam-se com as imaginações dos criadores.

Apollinaire – acima das nuvens

 

rodas rangem na curva dos trilhos

Sete horas! Junto com a multidão, vou de metrô até a estação do Calafate. Somos passageiros ou viajantes? Passageiros que martelam as mesmas vistas. Sei que amanhã, ouvirei o barulho. Voltarei ao trabalho. Repetirei o percurso. Na reta do tempo, a velocidade já não é mais sentida. Tudo é sempre igual na mesma cidade.

 Bandeira – rodas rangem na curva dos trilhos

 

o rumor das imagens

Lei da gravidade, uma alegoria que escapa os confins do corpóreo e tangencia parte da memória. Naturais, artificiais e fragmentadas deslocam-se sem parar: hiperbólicas. Faz a vida mudar. Legitimam a realidade. Gosto e desgosto: a cultura da imagem é um grande agregado tecnológico-estético nas antenas parabólicas.

Baudrillard – o rumor das imagens

 

a estrutura presente

No pêndulo do relógio, povoado de personagens em suas histórias, a curiosidade e a admiração moram num mundo aberto. Infinitas possibilidades de interpretações para um leitor ideal que sofre de uma insônia ideal. Eis o desvio noturno necessário que me mantém aceso até o raiar do dia. Acordo com o estardalhaço dos pardais.

  Eco – a estrutura presente

 

o eterno convidado

Para participar da Santa Ceia deve-se ter vastas emoções e pensamentos imperfeitos. É o caso de Judas Iscariotes. Hoje, ele freqüenta teatros, TVs, cinemas, romances, novelas, contos e poesias. Ator à procura de cenas dantescas. Vende-se na maior naturalidade ou rouba qualquer cena. Dissimulado. Sem residência fixa. 

Fonseca – o eterno convidado

 

paisagem de Minas

São muitas. Do Triângulo ao rio Doce. De Extrema até Manga. No centro, Ouro Preto, Mariana, Congonhas e BH. Na travessia pelas Gerais descobri um trem mineiro com quadros bem coloridos. Vi igrejas, museus, montanhas e um povo gentil. Até achei um pincel no Parque Municipal. Uma enorme sala de aula verde.

Guignard – paisagem de Minas

a vida é uma viagem

às crises de sensibilidade e expressão: mínimos e máximos. Entre caprichos e relaxos, com certas comoções agudas e algumas decisões graves, escolhemos a nossa passagem. Concentrados morreremos. Dispersos viveremos. A vida é uma afecção crônica, onde tudo renasce. 

Leminski – a vida é uma viagem


todos os nomes

Na hora absurda, o infante vê de longe terra firme. Cumpre o destino que deseja: Appolinaire, Bandeira, Baudrillard, Chagall, Eco, Drummond, Florbela, Fonseca, Guignard, Gullar, Iberê e Leminski juntos no mesmo barco. Todos os nomes fundiram-se na minha imaginação. Pessoas imortais num oceano iluminado.

  Pessoa – todos os nomes

 

 

DÍPTICO                                                                    DÍPTICO

Dois.                                                                           Quadros.
Duas.                                                                             Faces.

 Auto-retrato transvestido com o corpo de Dürer.
Minhas expiações espiando a bobagem materializar.

Dois olhos fechados.
Um olho aberto.

Duas pernas.
Dois pés.

Manipura.
Preto bebê.

Cifrado.
Cifrado.

Coluna vertebral.
Osso femoral.

31 de maio de 2003.
31 de maio de 2003.

Livro dos Conselhos.
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".

Artista.                                       Miguel Gontijo
Belo Horizonte.                            Minas Gerais.

 




José Aloise Bahia é poeta e crítico, autor de Pavios Curtos, Anome Livros - Belo Horizonte, 2005. JoseAloise@aol.com

 

 

voltar