Livro de Cenas Fulgor
Caderno de contemplações
 
       PRÓLOGO
       
       
       

        Este livro nasce de minha experiência de leitora
      das  obras  de  duas  escritoras   incomparáveis :    Sei
      Shônagon   e   Maria  Gabriela  Llansol .  A  primeira,
      nascida no Japão por volta do ano 965, escreveu uma
      obra curiosa, cheia de belezas singulares, entitulada,
      O livro de cabeceira. A Segunda , nascida em Portugal,
      por volta de 1940, possui uma obra de rara poesia, que
      encanta  ou   atordoa  aqueles   que  a  lêem ,  os  seus 
      “legentes” , como ela diz.
              Não  creio  que  essas  autoras  tenham  pensado
      em  crianças ou adolescentes  como  legentes de seus
      livros. Mas tenho certeza que crianças e adolescentes
      são capazes de receber a beleza e a densidade poética
      que seus textos comportam. Por isso, e em virtude de
      meus  encantamento  com  as  obras  dessas  autoras,
      decidi  traduzi-las  livremente  para  o  português  do
      Brasil, para o português de uma certa infância brasileira.
              De Sei Shônangon roubei a coletânea de listas.
      Seu O livro de cabeceira constrói-se de uma série de listas
      em que são enumeradas as coisas em suas diversas
      manifestações : coisas agradáveis, coisas desagradáveis,
      coisas más, coisas preciosas. Lembro-me de que , na
      infância, as listas me fascinavam a ponto de eu ter me
      dedicado, durante um bom tempo, à construção de
      um imaginário livro composto só de listas. Por isso, e
      porque acho ainda que o mundo e as histórias
      podem ser reduzidos a uma série de “ listas de coisas” ,
      decidi trazer para o leitor jovem um pedaço dessa série                 
      não exatamente a série japonesa de Sei Shônagon,
      mas a minha, que já é resultado de minha leitura do
      mundo e do meu olhar amoroso de legente dos textos
      da japonesa e da portuguesa.
               De Maria Gabriela Llanson roubei a idéia das
      “cenas de fulgor”. Segundo a autora, uma cena fulgor
      pode ser “uma pessoa que realmente existiu”, uma 
      frase, um animal ou uma quimera. Assim, esse livro
      se constrói de lista de cenas fulgor de coisas tomadas
      em sua excelência: frases, desejos, sanções, coisas
      boas ou ruins, destacadas aqui por sua particularidade
      de se apresentarem como fulgor. E assim o livro se 
      transforma também em caderno, em que o leitor 
      poderá anotar as coisas do seu fulgor, seus objetos
      de contemplação.
               Maria Gabriela Llansol, ao oferecer ao leitor
      um exemplo de cena fulgor, escreve: “este é o jardim
      que o pensamento permite”. Ao oferecer ao leitor
      menino/menina este livro, escrevo: esta é a escrita 
      que o fulgor concebeu. O fulgor de minha paixão de
      legente, o fulgor de minhas experiências do vivido e
      do sonhado.