dezesseis milhões
de cores

luiz edmundo alves

 

                                                    Rui Santana

 

um.

insetos.
seres humanos,
ratos e mais ratos.

gente. mais gente. meninos e
meninas sob a luz lilás do crepúsculo.
a aranha  escapa pelo fio
a teia brilhando na contra luz 
a luz lilás banhando a nação.
nação que se transforma a cada
  segundo, a cada semáforo vermelho
      a cada fio tecido pela aranha.
          um transformar de águas,
             imponderável.
                transforma-se
                   a nação
a cada instante, como uma adolescente
de 500 anos ou uma tarde qualquer
com códigos próprios
de insegurança:
garotos roubam velhinhos à
luz lilás do crepúsculo.
            trancos, caco de vidro, caniveeetes!
            outro garoto descobre o
            orgasmo explosivo nos braços
            da prostituta loira e enternecida.
            enquanto isso: a aranha
            tece a teia  tece tece tece
            e a teia brilha brilha brilha
            na contra luz lilás que banha a
            nação.

dois.

                          o povo descendo
                          por entre os morros.                          
                           sons de tambores. 
                            
                          tambores na noite lilás.
            
                          tambores de ogã. 
                       
      ar, terra,  terreiro,  tecido florido.
           
      a lascívia enrodilhada no corpo. 
       
      aahh!! ouvir os sons do atabaque. 

                           ohhh!! olelê olalá,
                          ogundelê proteja-me, 

                           conceda-me o medo
                          do guerreiro.

três.

aahhh  minha  nação descendo o morro,
atravessando florestas, arando o serrado,
escalando o penhasco. esquivando-se de
balas perdidas, ensaiando o rebolado, 
cantando via satélite. 

todos assistem, todos de olho.
quem quer cantar no banheiro?
encenar o grande reality show?
114 câmeras. milhões de olhos.
todos espiam.
é esta a sintonia: 
tiaca tiaca na mutiaca. 
na batida da lata.
mande bem. mande mal. 
mande o refrão.
tiaca tiaca na mutiaca
. na batida da lata.
pense. pense bem. pense mal.
e mude o canal.

quatro.

lá vem ela
      a musa da nação
         no balanço do
            vestido florido
               na capa
                   no poster
                     na praia
                      no rótulo
                       comprando sandálias
                       vendendo sabonetes
                       cerveja tempero luxúria
                     a musa sensual. mulata,
                    morena, loura, gata

                 passando  mel nos olhos
            da nação.
         a musa de batom ou blush.
      na tela, bela/boa/borbulhante.
   lá vai ela, lá vem outra. elas,
barbarelas.

cinco.

a nação tem a pulsação da aldeia,
crendices, sotaques, molejos,
sombras sumidades sorbônicas

excluídos
malditos enoooormes.
musas e
velocinos de ouro
ilusões de platina.

a nação, embora aldeia,
tem a intensidade do universo.

seis.

lá vem ele
  o herói da nação:
    sorriso perolado
      vitórias e patriotadas
         moedas de ouro e
namoradas
  lá vem ele, 
     na capa
       no poster
         na esquina 
           no rótulo
             a bordo do bólido
               no rolar da bola
                 no direto de esquerda
      ele
      o cintilante
      menino suburbano
      maravilha da raça.
      rei. ei ei ei.
      ei nosso rei!

sete.

muita coisa que interessa 
está nas origens da nação:
petulâncias, revoltas
movimentos sensuais
medos vindos d'áfrica
condimentos picantes
feitiço, fetiche,
molejo, moléstias

dengo,
dendê,
mucama,
munguzá.

êêhhh êêhh nação de xangô!

oito.

lá vem ele,
    o poeta da nação
        com seu vocabulário bizarro.
            sensibilidade dos ventos.
               mordacidades,
                metáforas, monólogos.

                 todavia a nação  pouco se
                  interessa por poetas, 

                 ainda que para intuir  acordes,
                desacordos, melodias.
              poetas são desconstrutores.
        qual poema construir  na passarela
das utopias nacionais ?

nove.

(são manuel bandeira rogai por nós,
poetas das quinquilharias da alma da nação.)

dez..

opppa!
pop pop pop
a nação é pop
top top top
a nação é foda
oppsss, aqui óó!
roda, roda, roda e avisa...