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Anos 80, Mário Faustino, poetas, mídia e
abutres
20 de fevereiro
- Durante algum tempo muita gente classificou os anos 80 como "a década
perdida". Como vivi esta década quero rebater tal tese. Creio que há um misto de
inveja, saudosismo e crueldade por parte dos críticos. Perdida pra quem, bicho ?...
Uma década pode ser marcada por grandes fatos políticos:
A campanha das Diretas Já, uma das maiores manifestações populares na história
brasileira. Mobilizou artistas e estudantes, políticos e trabalhadores, imprensa e
artistas. Os grandes comícios se espalharam pelo país. Lembro-me da emoção que
senti no comício da praça da Rodoviária em Belo Horizonte, 1984, eu e minha então
namorada Angela ficamos abraçados, comovidos com Milton Nascimento cantando Coração
de Estudante, estudantes universitários que éramos.
Uma década pode ser marcada por artistas e gêneros musicais:
As bandas de rock, citar Cazuza e o Barão Vermelho já seria bastante, mas não me
contenho e pergunto qual banda seria capaz de superar em criatividade e estilo (com
excelente e renovada poesia social) os Titãs? Músicas como Comida, Polícia e
Bichos Escrotos viraram cult.
E não há como esquecer a Blitz e Renato Russo e sua legião urbana.
Perdida pra quem, bicho ?...
A poesia foi marcada pelos então chamados poetas independentes e pela coleção
Cantadas Literárias da Editora Brasiliense que publicou poetas definitivos como Ana
Cristina César, Paulo Leminski, Chacal e José Paulo Paes. Tivemos excepcionais
traduções de poetas americanos da Geração Beat, até então completamente
desconhecidos por aqui. Traduziu-se livros fundamentais como o Uivo de
Allen Ginsberg, e On the Road de Jack Kerouac. Nos anos 80 a poesia
desprendeu-se dos ismos escolásticos e quis mais ainda a liberdade criativa e o leitor.
"Essa poesia vulgar que não me deixa mentir". Paulo Leminski.
Não me lembro de algum grande romance escrito por essa geração, mas tivemos livros
marcantes como Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Quanto ao romance, se alguém
souber me fale. Pode ser que tenha me esquecido. Mas houve grandes contistas.
Como houve o Flamengo de Zico e Júnior, e a seleção de Telê que, mesmo
não vencendo, entrou para História como exemplo de futebol arte. Década perdida pra
quem, bicho?
22 de fevereiro - Poetas
que querem fazer poesia com bons conhecimentos da tradição crítica devem ler o
livro Mário Faustino - DE ANCHIETA AOS CONCRETOS, pesquisa e
organização da professora Maria Eugênia Boaventura (Ed. Cia das Letras, 2003) reúne
críticas e comentários sobre livros e poetas escritos por Faustino quando foi editor do
histórico suplemento dominical do Jornal do Brasil (1956/1958 - um tempo em que os
suplementos dominicais ainda se importavam com poesia).
Mário Faustino (1930-1962) foi um grande crítico de poesia, como escreveu Ruy Castro na
orelha, "parecia ter lido toda a poesia do mundo em todas as épocas e em todos as
línguas, ou quase...". Faustino exerceu alguma influência dentro de
grupos/panelas que então dominavam a poesia. Cristalizou certa descrença
com relação à geração de 45, aclamava Drummond (o óbvio), Vinícius, Cecília
Meireles e os concretistas, duas ou três vezes aventurou-se a aclamar algum jovem,
publicando poemas e fazendo leitura crítica dos mesmos. Em qualquer caso a leitura era
mesmo crítica, eventualmente cruel, apontando bons e maus versos. Obviamente são
leituras sempre polêmicas e muitas não se sustentaram historicamente. Quase meio século
depois o arsenal crítico e a isenção de Faustino ...
23 de fevereiro -Textos nas
orelhas tornaram-se quase obrigatórios nos livros de poesia lançados nos últimos anos.
Cada vez mais desconfio deles, ou trazem interpretações vazias ou elogios, nem sempre
sinceros, de "amigos ilustres". Basta uma breve biografia do poeta,
de resto é o conteúdo que interessa.
25 de fevereiro -
Freqüentemente as pessoas relacionam poetas com intelectuais. Certamente porque muitos
poetas são mesmo intelectuais. Mas fazer poesia não é uma atividade intelectual, ao
contrário, fazer poesia é uma atividade artística, com todas as suas contradições.
Conhecer a tradição crítica, conhecer filosofia e psicologia, ter estupenda cultura
geral, tudo isso ajuda, mas não determina um bom poema, não confere talento a ninguém.
Muitas vezes atrapalha, destitui a poesia de algumas de suas mais preciosas qualidades:
formatação estética, fluxo do inconsciente, intuição, sentimento,
experimentalismos verbais e sonoros. Poetas sejam artistas!
28 de fevereiro - Em tempos de
celebridades globais a mídia fofoqueira se profissionalizou pra valer. Faz prevelecer um
pretenso direito de vasculhar a vida alheia, com um argumento absurdo: " você é
uma celebridade, portanto sua vida interessa a todos, especialmente sua privacidade
e seus segredos". São as hienas da selva midiática. Isso me faz pensar num
clássico do cinema americano: A Montanha dos Sete Abutres, do genial
Billy Wilder. Um jornalista ambicioso e mau caráter, Kirk Douglas, transforma um simples
acidente em um drama de grandes proporções, ajudado pelo sensacionalismo de um
jornal e pela curiosidade insaciável do povo. Douglas dá um show de interpretação, e
fica claro como a imprensa marrom impõe seus métodos ao jornalismo, enterrando direitos
individuais e ética. Forte e belo, em preto e branco. Wilder é um cineasta de peso,
embora pouco citado nos últimos anos. Dirigiu comédias que fazem parte da história do
cinema, como Quanto mais Quente Melhor, estrelado por Marilyn Monroe,
belíssima, e Toni Curtis e Se Meu Apartamento Falasse, com Jack Lemmon e
Shirley McLaine. Imperdíveis.
inté :-)
Dezembro 2004 - Janeiro 2005
História e viagens, biografias e jornalismo
Viajando, viajando...
22 de dezembro - Longe do computador,
adotei um pequeno maço de papéis para continuar escrevendo sobre tudo.
Atravesso Minas Gerais a bordo de um buzum da Gontijo, destino: Almenara, fico na fazenda
dos meus pais onde posso andar a cavalo, descançar e ler e dormir e ler e continuar
escrevendo isso.
Em Almenara, como em
todo o vale do Rio Jequitinhonha, a população sofre com a falta de chuva. Por isso a
Chuva tem ares de evento. Excita as pessoas, torna-se motivo maior das conversas. Quando
cai uma chuvona daquelas, que enche os rios e os açudes, transborda pelas pontes,
interdita as estradas, ninguém reclama: foi a Chuva, que tava faltando. O campo
amarelado, seco, repentinamente torna-se verde. Verde-pastagem. E a vida segue, renovando
o velho, envelhecendo o novo.
Viajando, viajando
24 de dezembro - .Venho passar o
natal em Vitória da Conquista, Bahia. Depois de receber a benção da avó e madrinha
Adelina vou passear no centro e compro o livro do Pedro Bial sobre Roberto Marinho.
A cidade e as pessoas são extremamente agradáveis, mas o melhor é beijar as mãos de
minha avozinha e estar perto da família. Desta vez não me vejo tomado pelas inevitáveis
lembranças da infância. Nem o futuro me assombra. As ruas fervilham, é natal.
Na praça da feira não posso de deixar de observar a quantidade de carne de sol e a
alvura das farinhas de mandioca. Muitos dos artigos tipicamentes nordestinos, feitos
em couro cru ou sola, vão rareando
A alameda está repleta de barracas com mercadorias "paraguaias". A música é
puramente baiana, só dá Ivete e Babado Novo, axé meu rei...
Na rua 2 de Julho é inevitável lembrar de
Gláuber: " Sou um sertanejo de Vitória da Conquista" e
"A Arte é irreal, surreal, expressional, a arte é delirante. O realismo está no
telejornal".
25 de dezembro - Como acarajé
no prato, com garfo e faca, uma novidade para mim que sempre segui a tradição de comer
no saquinho de papel, lambuzando os dedos e a boca, sem termos. E Ivete no som...
Percebo o quão musa é Ivete, mas não me
esqueço de Elomar.
Ceiar com a família foi maravilhoso, mas o
destaque foi almoço de hoje, 25: pernil de carneiro assado, farofa de feijão
verde na manteiga, carne de sol, lombo suíno com abacaxi, arroz e saladas. E doces, de
jaca, banana, cocadas. Por insistência dos tios experimento uma cachaça típica
com o nome Gabriela, sugestivamente temperada com canela. Gosto, tomo uma dose inteira e
perco todas no sinuca.
28 de dezembro - Acabei de ler o
livro Roberto Marinho do jornalista Pedro Bial, Jorge Zahar Editor.
Trata-se de uma extensa reportagem ou, como avisa o autor, uma biografia autorizada,
que busca traçar um perfil do fundador da Rede Globo. Escrita em tom
coloquial, agradável de se ler. Senti uma oficialidade que agora me é difícil
explicar. Ou não. Roberto Marinho, assim como Chateaubriand, e muito mais que Samuel
Weiner, Carlos Lacerda e todos os Rodrigues, exerceu enorme influência neste país. Nos
anos 70 e 80 atribuíam-lhe poderes de Sultão, fosse indicando ministros fosse inflando
candidaturas. Sempre mantive grande expectativa com relação à biografia de Marinho.
Esperava que a fundação da Rede Globo e a polêmica Time-Life, com CPI e tudo, viessem
como uma grande epopéia, ao estilo Samuel Weiner, com Carlos Lacerda interpetrando o
vilão conspirador. Mas Bial é leve e tranquilo na apresentação dos fatos, em alguns
momentos pensei mesmo que ele estivesse escrevendo um texto pro Fantástico, ou pro Big
Brother... Destaque negativo pros adendos com informações históricas, qual
leitor deste tipo de biografia não sabe o que foi a República Velha, a política do
café com leite, o tenentismo e o AI-5? ... heim?
No entando consegue compor um retrato bastante informativo e joga luz sobre diversos
mistérios que envolviam Marinho, desde a fundação de O Globo por seu pai Irineu,
passando pelos envolvimentos de Roberto com a política, a luta com Carlos Lacerda (sempre
ele), o apoio a Tancredo Neves e a tão falada "edição" do debate entre
Collor e Lula em 1989.
Viajando, viajando...
Feliz 2005 !
01 de janeiro - Escrevo isso em
Porto Seguro, olhando a imensidão do mar, banhado em ondas de calor, enfeitado por uma
tatuagem de rena e por gotas de suor, perfumado pela maresia, escudado pela
companhia e pelo afeto da família. Brisa do mar, torpor... e a trilha sonora é
Axé e Forró. Dançando... dançando... dançando...
Incrível como todos nos deixamos tomar pelo clima de prováveis mudanças com o ano novo.
No fundo sabemos que algo vai mudar, que tudo muda, ainda que lentamente. Como sou
romântico e acredito em mudanças, faço planos, concebo vôos de imaginação, bebo
espumantes, me emociono com os fogos de artifício e com a música. Danço e celebro a
vida. Provo do ócio criativo e sinto um gosto de nuvens.
A Costa do Descobrimento. Em Coroa Vermelha tem
um monumento em homenagem à celebração da primeira missa, antes porém passamos por uma
extensa alameda, repleta de barracas com artesanato local, marcadamente dos índios
Pataxós. Não tenho muito interesse por artesanato, mas admiro as gamelas e os
instrumentos indígenas.
Em Coroa presenciei uma cena que despertou
vontade de ler a tão famosa carta que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei de
Portugal quando a esquadra de Cabral aqui aportou:
-- " Foi depois de pisar estas terras e observar esta paisagem que Caminha
sentou-se para escrever tão bela peça, tão precioso documento histórico." -
disse um guia com um carregado sotaque paulista a um grupo de turistas. O tom era
teatral. Levantou os dois braços pra frente, de costas para o mar, e arrematou com um
trecho da carta de Caminha:
- " Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender
olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa.
(...) Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de
metal... Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a
aproveitar, dar-se-á nela tudo; ".
Um mergulho no mar de Coroa. Molho papel e
caneta, papéis se colam, descolo, ponho pra secar sob umas cascas de coco,
meu pai acha graça. Um turista acha graça. Tomo água de coco e escrevo de novo em papel
seco, acrescentando a curiosidade pela carta. Salvei.
02 de janeiro - Não sou dado a
religião. Mas Deus habita o Arraial de Nossa Senhora d'Ajuda. Cri em em alguma coisa
divina quando bebi a água de uma fonte considerada sagrada. O mar visto do morro é ainda
mais lindo e extenso, não há nada a fazer senão olhar, olhar, olhar... olho, e
agradeço a Deus poder olhar e ter emoção pra chorar. O choro é um sentimento gasoso.
Outra aguinha de coco e a emoção se dissipa. Me preparo para a volta.
Algum dia, em algum lugar, algum poema poderá
conter a simplicidade divina da água de coco?
pra que serviria um poema com a simplicidade divina da água de coco?
05 de janeiro - 16 dias e 2 500
quilômetros depois estou novamente em casa. Do pequeno maço de papéis sobraram duas
folhinhas com as anotoções. Agora apenas papéis velhos, dobrados/amassados/riscados
lembrando-me que em algum momento estive banhado em ondas de calor, perfumado pela
maresia, enfeitado por uma tatuagem de rena e por gotas de suor.
Essa história de escrever com caneta merece uma reflexão. Tinha perdido o
hábito, minha letra ficou ficou horrível. Desde a faculdade que não
escrevia textos maiores a mão. Primeira foi uma Olivetti Lettera, depois o computador,
essa "coisa" essencial/fundamental/insubstituível plantada bem no centro de
tudo. O epicentro do universo é um computador. E nem precisa ser um Pentium, bastar
copiar e colar, salvar e conectar...
12 de janeiro - Uma parte da
história do jornalismo e da imprensa no Brasil do século XX pode ser entendida a
partir de três grandes livros: o relato autobiográfico Minha Razão de Viver,
de Samuel Weiner, editado e organizado por Augusto Nunes, reproduzindo fitas deixadas por
Weiner. Chatô, O Rei do Brasil, biografia de Assis Chateaubriand,
escrita por Fernando Morais, e O Anjo Pornogáfico, biografia de Nelson
Rodrigues, escrita por Ruy Castro. Três biografias com status literário. É sobre
elas que escreverei durante jeneiro.
14 de janeiro - As memórias de Weiner (1913-1980) foram publicadas pela
Record no início dos anos 80, é um relato apaixonado e intenso do grande jornalista.
Ainda no final dos anos 40 Weiner fez reportagens de repercussão sobre o petróleo no
Brasil e em outros países latinos. Foi o único brasileiro a cobrir os julgamentos
do Tribunal de Nuremberg. Cobriu, para os Diários Associados, a campanha de Getúlio à
presidência em 1950. Getúlio venceu e lhe deu condições para fundar o Última Hora,
jornal vespertino que revolucionou o jornalismo da época. Ao fundar um jornal com
pretensões populares, governista mas ousado, Weiner dasafiou o Clube da Imprensa no
Brasil, que tinha homens poderosos como Roberto Marinho (O Globo e Rádio Globo),
Paulo Bittencourt (Jornal do Brasil) e o então poderosíssimo Assis Chateaubriand, que
oferecia a TV Tupi para o imbatível orador Carlos Lacerda detonar Getúlio e o Última
Hora. Acabou dando em CPI e um quase impeachement de Getúlio. Entretanto o jornal
resistiu e quem quiser saber mais vai se fascinar, se deixar tomar pela emoção dos fatos
históricos narrados nas páginas de Minha Razão de Viver... Samuel Weiner morreu
em 1980, escrevendo diariamente no pequeno e prestigiado espaço da página 2 do
jornal Folha de São Paulo, assinava apenas SW.
15 de janeiro - Maravilhoso sol de janeiro. E lembro um
verso do meu amigo Antonio Barreto: "Tenho motivos, tenho, minha vontade de não
fazer as coisas necessárias, as coisas breviárias, é como urtiga, sim,"
16 de janeiro - Voltando às
biografias: Outra versão, não muito diferente, da grande aventura de Weiner pode ser
lida em Chatô, o rei do Brasil, Editora Companhia das Letras,
possivelmente a mais bem escrita, pesquisada e documentada biografia no Brasil. Um
saboroso tijolo de 734 páginas, ilustrado por centenas de fotos. O título do livro já
passa uma idéia da influência e riqueza da vida de Assis Chateaubriand
(1893-1968).
Se o relato de Weiner é apaixonado, no livro de Fernando Morais prevalece uma simpatia
distante, sustentado pela narrativa fluente, como em um bom romance.
Chatô participou como protagonista de praticamente tudo que se fez de importante no
Brasil entre os anos 20 e os 50. Manteve com Getúlio uma relação de admiração,
interesse e ódio. Odiou muita gente. Teve dezenas de inimigos, entre eles os
Matarazzo, Weiner e dezenas de jornais que denunciavam diariamente suas
"armações". Foi Senador, membro da Academia Brasileira de Letras (sucedendo
Getúlio), Embaixador na Inglaterra. Às vezes agia como simples ladrão, chantageava,
ameaçava. No entando dava proteção a exilados políticos, lhes oferecia trabalho em
seus jornais. Trouxe a tv, fundou o Museu de Arte de São Paulo, dois grandes
momentos do livro. Era apaixonado por aviação e agricultura. Sem esquecer a epopéia
de O Cruzeiro, a mais importante revista semanal do país durante 35 anos. O
Cruzeiro celebrizou muito gente, merece destaque a história dos jornalistas David Nasser
e Jean Mazon quando, pela primeira vez, fotografaram aldeias indígenas na Amazonia. Uma
dupla que fazia sucesso, Manzon fotografando e Nasser redigindo.
Chatô era uma personalidade pitoresca, de reações imprevisíveis, 734 páginas, um
zilhão de fotos, irresistível Chatô!
18/19 de janeiro - O
Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, Ed. Cia das Letras, é o que se pode chamar de
livro maravilhoso. Também extraordinariamente documentado e bem escrito. A vida de Nelson
Rodrigues (1912-1980) teve lances de novela, trovoadas do quinto ato do
Rigoletto, como ele próprio diria. Mas houve momentos de alegria,
reconhecimentos e vitórias espetaculares, com roteiro que nem o próprio Nelson seria
capaz de escrever.
Se hoje Nelson Rodrigues é sinônimo de genialidade no teatro, em vida esteve
inteiro no jornalismo, primeiro como repórter e mais tarde como cronista e autor de
folhetins que fizeram o Brasil conservador dar tiros.
Foi funcionário de O Globo, de Roberto Marinho, de o Diário da Noite e O Cruzeiro, de
Chateaubriand, e no Última Hora, de Samuel Weiner. Com seus folhetins e suas peças logo
adquiriu a pecha de tarado, mais tarde seria o reacionário, muita gente queria ver seu
pescoça na corda, mas tinham aqueles que sempre encontravam um motivo a mais para
festejar o talento de Nelson, fosse no teatro ou na crônica. Talento jornalístico era
uma marca dos Rodrigues, o pai de Nelson, Mário Rodrigues, era uma potência como
jornalista, dono do jornal A Crítica, o irmão de Nelson, Mário Filho, foi um dos
maiores jornalistas esportivos brasileiros entre os anos 40 e 60. O nome oficial do
Maracanã é Estádio Mario Filho, em sua homenagem. Dois outros irmãos também foram
jornalistas conhecidos.
A obra de Nelson marcou, e ainda marca, o teatro brasileiro. Suas peças continuam sendo
encenadas pelo país. Mas será difícil encontrar um roteiro com os lances espetaculares
de sua vida. Genial e surpreendente Nelson!
inté!
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