ARTE
POÉTICA
Juan Gélman
Entre tantos ofícios exerço este
que não é meu, como um amo implacável me obriga a trabalhar de
dia, de noite, com dor, com amor, sob a chuva, na
catástrofe, quando se abrem os braços da ternura ou
da alma, quando a enfermidade funde as mãos a esse ofício
me obrigam as dores alheias, as lágrimas, os lenços
saudadores, as promessas no meio do outono ou do fogo, os
beijos do encontro, os beijos do adeus, tudo me obriga a
trabalhar com as palavras, com o sangue. Nunca fui o dono de
minhas cinzas, meus versos, rostos escuros os escrevem, como
atirar contra a morte.
ARTE POÉTICA
Entre tantos ofícios ejerzo
este que no es mio, como um amo implacable me obliga a
trabajar de dia, de noche, con dolor, com amor, bajo la
lluvia, em la catástrofe, cuando se abren los brazos de la
ternura o del alma, cuando la enfermedad hunde lãs
manos. a este oficio me obligan las dolores ajenos, las
lágrimas, los pañuelos saludadores las promesas en meio del otõno
o del fuego, los besos del encuentro, los besos del
adiós, todo me obliga a trabajar com las palabras, con la
sangre Nunca fue el dueño de mis cenizas, mis versos, rostros
oscuros los escriben como tirar contra la
muerte.
O JOGO EM QUE
ANDAMOS
Se me dessem escolher,
escolheria essa saúde de saber que estamos muito
enfermos, essa dita de andarmos tão infelizes. Se me dessem
escolher, escolheria essa inocência de não ser um
inocente, essa pureza em que ando por impuro. Se me dessem
escolher, escolheria esse amor com que odeio, essa esperança
que come pães desesperados. Aqui se passa, senhores, que me
jogo à morte.
EL JUEGO EM QUE
ANDAMOS
Si me dieran a elegir, yo
elegiría esta salud de saber que estamos muy enfermos, esta
dicha de andar tan infelices. Si me dieran a elegir, yo
eligiría esta inocência de no ser un inocente, esta pureza em
que ando por impuro. Si me dieran a elegir, yo elegíria este
amor com que ódio, esta esperanza que come panes
desesperados. Aqui pasa, señores, que juego la
muerte.
VELÓRIO DO SOLO
Especialmente anda
preocupado com o tempo, a vida e outras coisinhas, como
ser morrer sem haver-se alcançado a si mesmo. Nisto era tenaz
e todos os dias de chuva saía a perguntar se o tinham visto a
bordo dos olhos de uma mulher ou na costa do Brasil amando seu
estampido ou no enterro de sua inocência (muito
particularmente). Sempre teve palavras ou pálidos e
pobres pedaços de amores sem usar, de grandes ventos, treze
vezes esteve para adentrar a morte mas voltou, de acostumado,
dizia. Entre outras coisas quis que alguém mais entendesse
este mundo, com o que horrorizava a própria solidão. Hoje o
velam espantosamente aqui mesmo, entre estas paredes em que
resvalam todavia suas puras maldições, de seu rosto cai o
ruído das barbas ainda vivas e quem o cheira
não imaginará como desejava gozar com o mistério do amor
inocente, dar de beber a seus filhos. Enquanto devolve a pele
e os ossos emprestados ao descuido mira ao longe sua figura e
se persegue, pelo que sem dúvida irá começar a
chover.
Velorio Del
solo
Juan Gelman
Especialmente anda
preocupado por el tiempo, la vida, otras cositas como
ser morir sin haberse alcanzado a si mismo. En esto era tenaz
y todos los dias de lluvia salía a preguntar si lo habían
visto bordo de unos ojos de mujer o em las costas del Brasil
amando su estampido o en el entierro de su inocência (muy
particularmente). Siempre tuvo palabras o pálidos y
pobres pedazos de amores sin usar, de grandes
vientos, trece vezes estuvo por entrar a la muerte pero
volvió, de acostumbrado, decía. Entre otras cosas quiso que
alguno más entendiera este mundo con lo que horrorizaba a própria
soledad. Hoy lo velan tan espantosamente aquí mismo. Entre
estas paredes por las que resbalan todavía sus puras
maldiciones, Desde su rostro cae el ruído de las barbas
aún vivas y nadie que lo huela chegará a imaginar cómo
deseaba gozar com el mistério del amor inocente, darle agua a
sus niños. Mientras devuelve a piel y se persigue por lo qual
sin duda pronto va empezar a llover.
EU TAMBÉM ESCREVO
CONTOS
A eduardo
havia uma vez um poeta
português/ tinha quatro poetas dentro e vivia muito/
preocupado/ trabalhava na administração pública e onde já
se viu que um empregado público de portugal ganhe para alimentar
quatro bocas/ cada noite passava em revista seus
poetas incluindo a si mesmo/ um esticava a mão pela janela e
lhe caiam astros dali/ outro escrevia cartas para o
sul/ que estavam fazendo do sul/ dizia/ de meu querido
uruguay/ dizia/ o outro se converteu num barco que amou
aos marinheiros/ isso é belo, pois nem todos os barcos
fazem assim/ existem barcos que preferem mirar o olho
do boi/ existem barcos que se afundam/ Deus caminha aflito
por um fenômeno desse/ é que nem todos os barcos se parecem
aos poetas do português/ saíam do mar e secavam os ossinhos ao
sol/ cantando a canção de teus peitos/ amada/ cantavam que
teus peitos chegaram à tarde com um cortejo de
horizontes/ isso cantavam os poetas do português para dizer
que te amo/ antes de separar-se estender a mão ao céu/ escrever
cartas ao uruguay que chegarão amanhã/ amanhã chegarão as
cartas do português e varrerão a tristeza/ amanhã vai chegar o
barco do português ao porto de montevideo/ sempre soube que se
entrava nesse porto e se voltava mais formoso/ como os quatro
poetas do português quando se preocupavam todos juntos
pelo homem da tabacaria em frente/ o animal de sonhos do homem
da tabacaria em frente/ egalopando como dom jose gervasio de
artigas pela fome mundial/ o português tinha quatro poetas
mirando o sul/ o norte/ o muro/ o céu/ dava a todos o que
comer com o soldo de sua alma/ ele ganhava o soldo na
administração de seu país público e também mirando o mar que
vai de lisboa ao uruguay/ eu sempre estou esquecendo
coisas/ uma vez esqueci um olho na metade de uma
mulher/ outra vez esqueci uma mulher na metade do
português/ esqueci o nome do poeta português/ do que não
me esqueço é de seu barco navegando para o sul/ de sua
mãozinha cheia de astros/ golpeando contra a fúria do mundo/ com
o homem da frente na mão
YO TAMBIÉN ESCRIBO
CUENTOS
a Eduardo
había uma vez um poeta
portugués/ tenia cuatro poetas adentro y vivia
muy preocupado/ trabaja en la administración pública y donde
se vio que um empleado público de portugal gane para
alimentar cuatro bocas/ cada noche pasaba lista a sus
poetas incluyéndose a sí mismo/ uno estirba la mano por la
ventana y le caían astros allí/ outro escribía cartas al
sur/ qué están haciendo del sur/ decía/ de mi uruguay/ decía
el outro se convirtió em um barco que amó a
los marineros/ esto es bello porque no todos los barcos
hacen así/ hay barcos que prefieren mirar por el ojo
de buey/ hay barcos que se hunden/ dios camina afligido por
el fenômeno ése/ es que no todos los barcos se parecen a
los poetas del português/ salían del mar y se secaban los
huesitos al sol/ cantando la canción de tus pechos/
amada/ cantaban que sus pechos llegaron una tarde con um
cortejo de horizontes/ eso cantaban los poetas del portugués
para decir que te amo/ antes de separase/ tender la mano al
cielo/ ecribir cartas al uruguay que mañana van a
llegar/ mañana van a allegar el barco del português al puerto
de montevideo/ siempre supo que entraba a ese puerto y
se volvía mas hermoso/ como los quatro poetas del
português cuando se preocupaban todos juntos por el hombre de
la tabaquería de enfrente/ el animal de sueños del hombre de
la tabaquería enfrente/ galopando como don josé gervasio de
artigas por el hambre mundial/ el portugués tenía cuatro
poetas mirando al sur/ al norte/ al muro/ al cielo/ les daba
a todos de comer com el sueldo del alma/ él se ganaba el
sueldo en la administración del país público y también
mirando el mar que va de lisboa al uruguay/ yo siempre estoy
olvidando cosas/ uma vez me olvidé um ojo em la mitad de uma
mujer/ outra vez me olvidé uma mujer em la mitad
del portugués/ me olvide el nombre del poeta português/ de
lo que no me olvido es de su barco navegando hacia el sur/ de
su manita llena de astros/ golpeando contra la furia del mundo/
con el hombre de enfrente en la mano
HERÓIS
V
Os sóis solam e os mares
mareiam os farmacêuticos especificam ditam belas receitas para
o pasmo desjejuam seu grande centímetro a mim me toca
gelmanear perdemos o medo do grande cavalo nos acontecem
lampejos sucessivos e amanhece sempre nos testículos não é
pouco que isso ocorra haja vista a confusão do amor nos dias de
hoje os feixes de catástrofes as dívidas amados sejam os que
odeiam filhos que comem por meus fígados e sua desgraça e
graça é não serem cegos a grande mãe cavala o grande pai
cavalo o mundo é um cavalo a gelmanear a gelmanear lhes
digo a conhecer os mais belos, os que venceram com sua grande
derrota.
HEROES
V
Juan Gelman
los soles solan y los mares
maran los farmacéuticos especifican dictan bellas recetas para
el pasmo se desayunan en su gran centímetro a mi me toca
gelmanear hemos perdido el miedo al gran caballo nos acontecem
hachas sucesivas e se amanece siempre em los testículos no
poca cosa es que lo suceda vista la malbaraja del amor estos
dias los mazos de catástrofes las deudas amados sean los que
odian hijos que comem por mis hígados y su desgracia y gracia
es no ser ciegos la gran madre caballa el gran padre
caballo el mundo es um caballo a gelmanear a gelmanear les
digo a conocer a los más bellos los que vencieron com su gran
derrota
De SOB A CHUVA
ALHEIA
Notas ao pé de uma derrota (Roma, mayo,
1980)
Dos
deveres do exílio: não esquecer o exílio/ combater a língua
que combate o exílio! não esquecer o exílio/ ou seja a
terra/ ou seja a pátria ou leite ou lenço/ onde
vibrávamos/ onde ninávamos/ não esquecer as razões do
exílio/ a ditadura militar/ os erros que cometemos por vós/
contra vós/ terra do que somos e eras sob nossos pés/ como
aurora estendida/ e vós/ coraçãozinho que miras qualquer manhã
como olvido/ não te esqueças de olvidar o olvido.
De BAJO LA LLUVIA
AJENA
Notas al pie de una
derrota (Roma, mayo, 1980)
de los deberes del
exílio: no olvidar el exílio/ combatir la lengua que combate
al exílio! no olvidar el exílio/ o sea la tierra/ o sea la
patria o lechita o pañuelo donde vibrábamos/ donde
niñabamos/ no olvidar las razones del exílio/ la dictadura
militar/ los errores que cometimos por vos/ contra vos/ tierra
de la que somos y nos eras a nuestros pies/ como alba
tendida/ y vos/ corazoncito que miras cualquier mañana como
olvido/ no te olvides de olvidar o olvido
Juan
Gélman, *Juan Gélman*, nascido em Buenos Aires
em 1930. Em 1976 perdeu seu filho, Marcelo Ariel e a nora, Claudia.
Sua poesia responde à devastação imposta pelo impacto da
violência e das perdas. De maneira extraordinária, recupera da
desolação a candência de temas sublimescomo o amor, o carinho, a
amizade, o (re)nascimento e a dor, *"sem triunfalismo nem
autoderrotas"*, como consta no prefácio de um de seus livros, de
onde extraímos estes poemas. O contexto de sua criação é a ditadura
Argentina que o levou ao exílio e arrancou-lhe brutalmente o
convívio com filho e a nora, grávida. Após uma longa busca pôde,
finalmente, localizar a neta no Uruguai. Em 2007 recebeu o Prêmio
Cervantes pelo conjunto da obra.
Max Moreira é poeta e psicólogo, autor de
Alarido, Editora Anome
2002. |