Poemas de
Juan Gélman

tradução de
Max Moreira

Iara Abreu
Iara Abreu
 

ARTE POÉTICA

Juan Gélman

Entre tantos ofícios exerço este que não é meu,
como um amo implacável
me obriga a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
sob a chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da
alma,
quando a enfermidade funde as mãos
a esse ofício me obrigam as dores alheias,
as lágrimas, os lenços saudadores,
as promessas no meio do outono ou do fogo,
os beijos do encontro, os beijos do adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com
o sangue.
Nunca fui o dono de minhas cinzas, meus versos,
rostos escuros os escrevem, como atirar contra a
morte.

ARTE POÉTICA

Entre tantos ofícios ejerzo este que no es mio,
como um amo implacable
me obliga a trabajar de dia, de noche,
con dolor, com amor,
bajo la lluvia, em la catástrofe,
cuando se abren los brazos de la ternura o del
alma,
cuando la enfermedad hunde lãs manos.
a este oficio me obligan las dolores ajenos,
las lágrimas, los pañuelos saludadores
las promesas en meio del otõno o del fuego,
los besos del encuentro, los besos del adiós,
todo me obliga a trabajar com las palabras, con
la sangre
Nunca fue el dueño de mis cenizas, mis versos,
rostros oscuros los escriben como tirar contra la
           muerte.


O JOGO EM QUE ANDAMOS

Se me dessem escolher, escolheria
essa saúde de saber que estamos muito enfermos,
essa dita de andarmos tão infelizes.
Se me dessem escolher, escolheria
essa inocência de não ser um inocente,
essa pureza em que ando por impuro.
Se me dessem escolher, escolheria
esse amor com que odeio,
essa esperança que come pães desesperados.
Aqui se passa, senhores,
que me jogo à morte.

 

EL JUEGO EM QUE ANDAMOS

Si me dieran a elegir, yo elegiría
esta salud de saber que estamos muy enfermos,
esta dicha de andar tan infelices.
Si me dieran a elegir, yo eligiría
esta inocência de no ser un inocente,
esta pureza em que ando por impuro.
Si me dieran a elegir, yo elegíria
este amor com que ódio,
esta esperanza que come panes desesperados.
Aqui pasa, señores,
que juego la muerte.


VELÓRIO DO SOLO

Especialmente anda preocupado
com o tempo, a vida e outras coisinhas, como ser
morrer sem haver-se alcançado a si mesmo.
Nisto era tenaz e todos os dias de chuva
saía a perguntar se o tinham visto
a bordo dos olhos de uma mulher
ou na costa do Brasil amando seu estampido
ou no enterro de sua inocência (muito particularmente).
Sempre teve palavras ou pálidos e pobres
pedaços
de amores sem usar, de grandes ventos,
treze vezes esteve para adentrar a morte
mas voltou, de acostumado, dizia.
Entre outras coisas quis
que alguém mais entendesse este mundo,
com o que horrorizava a própria solidão.
Hoje o velam espantosamente aqui mesmo,
entre estas paredes em que resvalam todavia
suas puras maldições,
de seu rosto cai o ruído das barbas ainda
vivas
e quem o cheira não
imaginará como desejava gozar com o
mistério do amor inocente,
dar de beber a seus filhos.
Enquanto devolve a pele e os ossos emprestados
ao descuido
mira ao longe sua figura e se persegue,
pelo que sem dúvida
irá começar a chover.

Velorio Del solo

Juan Gelman

Especialmente anda preocupado
por el tiempo, la vida, otras cositas como ser
morir sin haberse alcanzado a si mismo.
En esto era tenaz y todos los dias de lluvia
salía a preguntar si lo habían visto
bordo de unos ojos de mujer
o em las costas del Brasil amando su estampido
o en el entierro de su inocência (muy particularmente).
Siempre tuvo palabras o pálidos y pobres
pedazos
de amores sin usar, de grandes vientos,
trece vezes estuvo por entrar a la muerte
pero volvió, de acostumbrado, decía.
Entre otras cosas quiso
que alguno más entendiera este mundo
con lo que horrorizaba a própria soledad.
Hoy lo velan tan espantosamente aquí mismo.
Entre estas paredes por las que resbalan todavía
sus puras maldiciones,
Desde su rostro cae el ruído de las barbas aún
vivas
y nadie que lo huela
chegará a imaginar cómo deseaba gozar com
el mistério del amor inocente,
darle agua a sus niños.
Mientras devuelve a piel y se persigue
por lo qual sin duda pronto
va empezar a llover.


EU TAMBÉM ESCREVO CONTOS

A eduardo

havia uma vez um poeta português/
tinha quatro poetas dentro e vivia muito/
preocupado/
trabalhava na administração pública e onde
já se viu que um empregado público de portugal
ganhe para alimentar quatro bocas/
cada noite passava em revista seus poetas
incluindo a si mesmo/
um esticava a mão pela janela e lhe caiam
astros dali/
outro escrevia cartas para o sul/
que estavam fazendo do sul/ dizia/
de meu querido uruguay/ dizia/ o outro
se converteu num barco que amou aos
marinheiros/
isso é belo, pois nem todos os barcos fazem
assim/
existem barcos que preferem mirar o olho do
boi/
existem barcos que se afundam/
Deus caminha aflito por um fenômeno desse/
é que nem todos os barcos se parecem aos
poetas do português/
saíam do mar e secavam os ossinhos ao sol/
cantando a canção de teus peitos/ amada/
cantavam que teus peitos chegaram à tarde
com um cortejo de horizontes/
isso cantavam os poetas do português para
dizer que te amo/
antes de separar-se estender a mão ao céu/ escrever cartas ao uruguay
que chegarão amanhã/
amanhã chegarão as cartas do português e
varrerão a tristeza/
amanhã vai chegar o barco do português ao
porto de montevideo/
sempre soube que se entrava nesse porto e se
voltava mais formoso/
como os quatro poetas do português
quando se preocupavam todos juntos pelo
homem da tabacaria em frente/
o animal de sonhos do homem da
tabacaria em frente/
egalopando como dom jose gervasio de artigas
pela fome mundial/
o português tinha quatro poetas mirando o
sul/ o norte/ o muro/ o céu/
dava a todos o que comer com o soldo de sua
alma/
ele ganhava o soldo na administração de seu
país público
e também mirando o mar que vai de lisboa ao
uruguay/
eu sempre estou esquecendo coisas/
uma vez esqueci um olho na metade de uma
mulher/
outra vez esqueci uma mulher na metade do
português/
esqueci o nome do poeta português/
do que não me esqueço é de seu barco
navegando para o sul/
de sua mãozinha cheia de astros/
golpeando contra a fúria do mundo/ com
o homem da frente na mão

YO TAMBIÉN ESCRIBO CUENTOS

a Eduardo

había uma vez um poeta portugués/
tenia cuatro poetas adentro y vivia muy
preocupado/
trabaja en la administración pública y donde
se vio que um empleado público de portugal
gane para alimentar cuatro bocas/
cada noche pasaba lista a sus poetas
incluyéndose a sí mismo/
uno estirba la mano por la ventana y le caían
astros allí/
outro escribía cartas al sur/
qué están haciendo del sur/ decía/
de mi uruguay/ decía el outro
se convirtió em um barco que amó a los
marineros/
esto es bello porque no todos los barcos hacen
así/
hay barcos que prefieren mirar por el ojo de
buey/
hay barcos que se hunden/
dios camina afligido por el fenômeno ése/
es que no todos los barcos se parecen a los
poetas del português/
salían del mar y se secaban los huesitos al sol/
cantando la canción de tus pechos/ amada/
cantaban que sus pechos llegaron una tarde
con um cortejo de horizontes/
eso cantaban los poetas del portugués para
decir que te amo/
antes de separase/ tender la mano al
cielo/ ecribir cartas al uruguay
que mañana van a llegar/
mañana van a allegar el barco del português al
puerto de montevideo/
siempre supo que entraba a ese puerto y se
volvía mas hermoso/
como los quatro poetas del português
cuando se preocupaban todos juntos por el
hombre de la tabaquería de enfrente/
el animal de sueños del hombre de la
tabaquería enfrente/
galopando como don josé gervasio de artigas
por el hambre mundial/
el portugués tenía cuatro poetas mirando al
sur/ al norte/ al muro/ al cielo/
les daba a todos de comer com el sueldo del
alma/
él se ganaba el sueldo en la administración del
país público
y también mirando el mar que va de lisboa al
uruguay/
yo siempre estoy olvidando cosas/
uma vez me olvidé um ojo em la mitad de uma
mujer/
outra vez me olvidé uma mujer em la mitad del
portugués/
me olvide el nombre del poeta português/
de lo que no me olvido es de su barco
navegando hacia el sur/
de su manita llena de astros/
golpeando contra la furia del mundo/ con
el hombre de enfrente en la mano


 

HERÓIS

V

Os sóis solam e os mares mareiam
os farmacêuticos especificam
ditam belas receitas para o pasmo
desjejuam seu grande centímetro
a mim me toca gelmanear
perdemos o medo do grande cavalo
nos acontecem lampejos sucessivos
e amanhece sempre nos testículos
não é pouco que isso ocorra
haja vista a confusão do amor nos dias de hoje
os feixes de catástrofes as dívidas
amados sejam os que odeiam
filhos que comem por meus fígados
e sua desgraça e graça é não serem cegos
a grande mãe cavala
o grande pai cavalo
o mundo é um cavalo
a gelmanear a gelmanear lhes digo
a conhecer os mais belos,
os que venceram com sua grande derrota.


HEROES

V

Juan Gelman

los soles solan y los mares maran
los farmacéuticos especifican
dictan bellas recetas para el pasmo
se desayunan en su gran centímetro
a mi me toca gelmanear
hemos perdido el miedo al gran caballo
nos acontecem hachas sucesivas
e se amanece siempre em los testículos
no poca cosa es que lo suceda
vista la malbaraja del amor estos dias
los mazos de catástrofes las deudas
amados sean los que odian
hijos que comem por mis hígados
y su desgracia y gracia es no ser ciegos
la gran madre caballa
el gran padre caballo
el mundo es um caballo
a gelmanear a gelmanear les digo
a conocer a los más bellos
los que vencieron com su gran derrota


De SOB A CHUVA ALHEIA

Notas ao pé de uma derrota
(Roma, mayo, 1980)


Dos deveres do exílio:
não esquecer o exílio/
combater a língua que combate o exílio!
não esquecer o exílio/ ou seja a terra/

ou seja a pátria ou leite ou lenço/
onde vibrávamos/ onde ninávamos/
não esquecer as razões do exílio/
a ditadura militar/ os erros
que cometemos por vós/ contra vós/
terra do que somos e eras
sob nossos pés/ como aurora estendida/
e vós/ coraçãozinho que miras
qualquer manhã como olvido/
não te esqueças de olvidar o olvido.

De BAJO LA LLUVIA AJENA

Notas al pie de una derrota
(Roma, mayo, 1980)

de los deberes del exílio:
no olvidar el exílio/
combatir la lengua que combate al exílio!
no olvidar el exílio/ o sea la tierra/
o sea la patria o lechita o pañuelo
donde vibrábamos/ donde niñabamos/
no olvidar las razones del exílio/
la dictadura militar/ los errores
que cometimos por vos/ contra vos/
tierra de la que somos y nos eras
a nuestros pies/ como alba tendida/
y vos/ corazoncito que miras
cualquier mañana como olvido/
no te olvides de olvidar o olvido

Juan Gélman, *Juan Gélman*, nascido em Buenos Aires em 1930. Em 1976 perdeu seu filho, Marcelo Ariel e a nora, Claudia.
Sua poesia responde à devastação imposta pelo impacto da violência e das perdas. De maneira extraordinária, recupera da desolação a candência de temas sublimescomo o amor, o carinho, a amizade, o (re)nascimento e a dor, *"sem triunfalismo nem autoderrotas"*, como consta no prefácio de um de seus livros, de onde extraímos estes poemas. O contexto de sua criação é a ditadura Argentina que o levou ao exílio e arrancou-lhe brutalmente o convívio com filho e a nora, grávida. Após uma longa busca pôde, finalmente, localizar a neta no Uruguai. Em 2007 recebeu o Prêmio Cervantes pelo conjunto da obra.

Max Moreira é poeta e psicólogo, autor de Alarido, Editora  Anome 2002.