"Cogito, ergo sum", Alberto leu pela
enésima vez. Esculpido no cabo de vários martelos de osso: "Cogito, ergo sum".
No cabo de centenas de martelos fabricados pelo Homo habilis há dois milhões de
anos. O Mercado das Pulgas é pródigo em prodígios desse tipo. Quantas cabaças e
cabeças esses martelos teriam fraturado, as pulgas e os percevejos encharcados de cerveja
não quiseram revelar. Alberto, o pensamento metido nas nuvens, meditava sobre esses ossos
assassinos quando, opa. Puxão meio amarrotado de pigmeu marroquino na manga amarelo-manga
do brasileiro:
Meciê
Qué comprá um balão, qué? quis saber o
pai de família, refém das treze bexiguinhas coloridas que por bem ou por mal teriam que
ser transformadas no peixe e no pão desse dia odioso.
Não. Alberto não queria. Já estava farto dos balões.
Paris. Apesar do outono, Paris. Apesar dos pesares do princípio do
século e do vento meio tupiniquim meio francês, Paris Paris Paris sempre Paris. Foi aí
que Alberto e André se conheceram. Ódio à primeira vista. Antipatia no Mercado das
Pulgas. Disputa pela miniatura de Paris, maravilha encontrada por acaso entre mancebos de
madrepérola e comadres de alumínio. Por puro acaso descoberta entre camarões de Bengala
e bengalas de Camarões, pequineses de Havana e havanas de Pequim. "É minha."
"Não, é minha." Briga braba pela misteriosa miniatura da Cidade Luz, perdida
no movimento de minúsculas engrenagens, roldanas e alavancas. Alberto, olhos baços
"Eu pago xis!" , abriu a carteira de couro, que recebeu o pontapé
certeiro de André.
Quem o senhor pensa que é? Sabe quem eu sou?!
O senhor é quem pensa que é? Quem sabe eu sou!
Alberto, a magreza exata da certeza geométrica, do cálculo renal
multiplicado pelo vetorial. O bigodinho, integral tripla forjada na bigorna. O quadril,
raiz quadrada sob o quadriculado do casaco. As sobrancelhas, seno e co-seno coçando-se
mutuamente. Não restava dúvida, Alberto estava furioso. Alberto, coberto de razão,
espumava algarismos, dardejava perdigotos racionais e irracionais na testa do adversário.
Cegado pelo dialético dilema da ação que exigia a devida reação, não reagia. Pois
é, a devida reação
Que reação? Sei lá, qualquer reação, reaja, homem! De que
jeito? Revida, dá o troco, ora! Tempo, preciso ganhar tempo, minha carteira, cadê? Ali.
Onde? Caída entre as tralhas. Abaixou para pegá-la, espanou a poeira eureca,
capoeira! e aplicou na cabeça de André o seu famoso rabo-de-arraia.
Puta que o pariu!
Tomou, papudo?
André, a consistência esférica e tranqüila dos pesadelos a céu
aberto, dos campos magnéticos do amor louco. O cabelo, máscara moçambicana repartida em
quatro. A barriga, balão atmosférico tirado das comédias de Mack Sennett. As orelhas,
pratos em branco-e-preto perfeitos para o acorde final da Nona sinfonia. O doutor
André abanava-se, bufando bananas e rabanadas. Abanava-se, pronto para operar ao
deus-dará. Os punhos fechados, prontos para as futuras fraturas no queixo do engenhoso
engenheiro, Alberto.
Trouxe-mouxe!
Txucarramãe!
No famigerado Mercado das Pulgas, trecos e cacarecos por todos os
lados. E daí? Alberto e André só tinham olhos ouvidos nariz boca e mãos para a pequena
Paris. Nela tudo era réplica. Cada passo dado na grande Paris repetia-se pé-ante-pé na
pequena. Ah, pequenina Paris! Apesar das suas minúsculas mulheres de seda, dos seus
reduzidos anarquistas de marfim, dos balõesinhos do sisudo Albertinho e dos poeminhas do
jovial Andrézinho, Paris Paris Paris sempre Paris. Porque nessa Paris de dimensões
mínimas outras dimensões se espalhavam. Para além da largura, da altura e da
profundidade, o tempo. Não, meus amigos. Não o tempo presente. O tempo futuro.
Physique du rôle!
Châteauneuf-du-Pape!
Alberto apoiou as mãos na borda do tabuleiro, aproximou da colina de
Montmartre os olhos leves de futuro aeromodelista, quase tocou o queixo na basílica do
Sacré-Coeur. Do outro lado a sombra de André provocou terror e êxtase nos vasos
sangüíneos da Torre Eiffel, nas articulações cartilaginosas do Teatro dos
Champs-Élysés. Nesse minuto, no porvir miúdo da miniatura, o brasileiro e o francês
viram a libélula alçando vôo no Campo de Bagatelle. "Zeus do céu, o homem
voa?!" , murmurou Alberto sacando a lupa do bolso do casaco. "Voa Zeus, o homem
do céu?!" boquiabriu-se André enfiando o seu olho esquerdo no olho direito alheio,
que já olhava através da lupa. A libélula mecânica, mesmo voando baixo, transferia
para a História esse pequeno outono em Bagatella. Alberto e André, a atenção
estatelada nessa tela-adrenalina, nessa bagatela impressionista. Aqui ali acolá o povão
uivava, chapéus ao vento: "Voilà, o homem voa!" Uivava, pedia bis. Apesar do
outono, bis. Apesar do biplano tridimensional movido pelo motor Levavasseur-Antoinette de
50 hp, bis bis bis sempre bis. 14-Bis em Paris.
Causa mortis!
Sine qua non!
Cavalgando os cinqüenta cavalos alados, outro Alberto, o menor Alberto
possível nesse princípio aerodinâmico de século. O Alberto da pequena Paris voava
vinte, quarenta, sessenta trêmulos e minúsculos metros de distância. Voava rente ao
chão, rente ao mesmo chão em que o nervoso outono naufragava. Voava para as décadas que
ainda iriam chegar. Voava com a vida, voava para as batalhas aéreas das catalépticas
grandes guerras, desaparecia sob a sombra meteorológica do Boeing 747 que eclipsava o sol
de norte a sul, voava para o lado oculto da lua. Para o lado oculto da lua que era a íris
do olho de André, do olho ampliado pela lente da lupa. No maiúsculo Mercado das Pulgas a
miniatura de Paris ampliava o horizonte perdido, esticava a visada vertical de Alberto e
André. Desprendendo-se do jardim lateral, o aroma das flores no cio delirium
tremens, long plays, sashimis provocava overdose no ar viciado.
Em consideração aos pífaros da epifania, a dupla fingiu fazer as
pazes.
Vamos?
Você primeiro.
A dona da miniatura de Paris, mulher do pigmeu que vendia bexigas,
estivera esse tempo todo de olho nos dois possíveis compradores. Estivera de olho, ora se
estivera! Literalmente de olho afinal, tendo perdido o esquerdo no campeonato anual
de dardos, sobrara só o outro, o único. Estivera de olho, a dona da miniatura de Paris,
nos dois falsos ases da paz, que, a cabeça cheia de bagagem e os respectivos passaportes
prontos para voar, embarcaram no perfume das alucinadas flores, rumo ao resto do mundo.
Embarcaram, Alberto e André, inimigos íntimos: piloto reumático e co-piloto automático
em tudo diferentes. O motor a mil, alçaram vôo sem serviço de bordo. É claro que por
precaução Alberto levou escondido o seu pré-histórico "Cogito, ergo sum".
Contra possíveis surtos histéricos do companheiro, o precioso martelo de osso.