julio saens
POEMAS DE
RONALD POLITO

 

CÂMBIO

o mar
não tem margem

você está
sem passagem
em alguma parte dele
tentando ir para
outra parte

e se chegar lá
talvez siga viagem
ao ver o mar
à deriva passar
 


O SILÊNCIO CANSADO

este papel
antes em branco

esta pena

este não
é poema


UM ESTRANHO

Difícil saber o que sente,
se está distante ou mesmo rente,
mais ainda supor que pensa
numa mudez nunca suspensa

em seu mundo-bolha de ar
(dentro o coração lapidar)
que mal acaba de nascer,
se vai crescendo até morrer

sem luz, só frio, e este momento
pinçado por um instrumento
agudo e áspero, aparenta
reter a memória ou tenta

uma mímica, uma surpresa
(não é fácil qualquer certeza)
que volta a si, passa adiante,
ainda, ausente, antes, distante.



EM FATIAS

O corpo é seu esforço.
Uma bandagem.
Quebradiço caniço,
gaze leve intumescida
no rosto.
Depósito de invasões,
um copo oco.

Um corpo e seu fosso.
Ralo gargalo esgoto.
Reforço sem anteparo
direto da pele ao osso.
Despejo de humor
secreto.
Porco.


ILUMINAÇÃO
ARTIFICIAL

esta noite
o mar
cava
com força
um milímetro
a mais
e repousa
a mil milhas
           daqui
vem me levar

os campos agora fumegam
um firmamento de cinzas
o deserto depois começa
uma sirena longínqua

aqui eu
estou em minha
jaula de jalnes
 
 


ÊXTASE

a primeira palavra
diria: casa
pesada e breve
no sentido que ela cede

a palavra primeiro
para partir inteira
a dúvida de uma esquina
deflorada mina

a palavra primeira
seria: cunha
e fenda – sem eira
nem beira – funda


NUMA MANHÃ

Vem, carregando o corpo
quebrado, sem brado, sem
dormência, pela colisão
com o simples
ar em torno, de
uma víscera e
outra adentro, do
pensamento contra
o pensamento, e
num lapso de
trégua, esmerado
em apuros, quase
alheio, depõe
o peso, a pose,
a gana, a afasia,
e afaga
no fogo do sol
a ferida. 


 

ORDENAÇÃO

1. Há menos ilhas do que homens
e Marte também já teve mar.

2. Mesmo um satélite não
pode voar para sempre.

3. Qualquer tentativa de salto
fica sem base nessa atmosfera.

4. Sequer se produz gelo suficiente
que conjumine os continentes.

5. Só o sol é para todos
que estão em seu solar.


INFERNO

chegou ao ponto
onde não há
estorno

nem mesmo
você mesmo
se reconhece ali
e a única franquia
é conseguir
seguir

a imaginação
em débito alcança
o ponto sem contorno
 


FUSÃO

Quando meu cão sai com o carro
comigo se vamos
passear por
aí (estamos
fora de temporada)
e seguimos
acelerando
sempre em frente,
em linha reta,
então para cima, o vento
cada vez mais rápido
nas orelhas, a ponta
gelada do
nariz.


Ronald Polito nasceu em Juiz de Fora, MG, em 5 abril de 1961.Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense. Tem quatro livros de poesia publicados: Solo
(1996) Vaga (1997), Intervalo (1998), e de passagem (2001) Traduziu Joan Brossa e Quim Monzó.