BANHO,
MANIA DE BRASILEIRO
Wanderlino Arruda
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Gabriela de Marco |
O Padre Aderbal Murta conta que o
reitor da Universidade de Louvain, na Bélgica, não ficou nada satisfeito quando os
seminaristas brasileiros, que iam chegando por lá, começaram a pedir um cômodo no
grande conjunto de edifícios, algo que eles consideravam necessário e muito importante:
um banheiro. Isso mesmo, um banheiro, um local onde se lavar de pé e cabeça, receber
água vindo de cima, passar sabonete, enxaguar o corpo, enxugar, depois, com toalha
felpuda. Não o banho de bacia, de sopapo, como diria o meu amigo Nô Barrão. Banho
mesmo, de chuveiro, com água morna, não pelando, nem fria, que ninguém é de ferro.
Essa exigência, disseram, era coisa de estudante subdesenvolvido, tinha que vir de
brasileiros, sujeitinhos metidos a besta! Banho na Bélgica, ate entanto, era banho de
luva, apenas esfregando, sem correr água, sem molhar o chão. . . Pois bem!
Agora, leio na revista BRASIL ROTARIO interessante comentário de Derli Antônio Bernardi,
de Maringá, dizendo de quando tomar banho era pecado e dava cadeia. Quanta curiosidade!
Tinham perdido a sabedoria árabe, segundo a qual "a água e o mais eficiente de
todos os remédios e o melhor de todos os cosméticos". Tinham perdido a experiência
egípcia de quando se tomava banho em tinas de ouro, e, da Grécia, quando o palácio do
Rei Minos possuía a mais espetacular banheira da antigüidade, decorada com mármore e
pedras preciosas. Tinham se esquecido da tradição banhista de Roma, quando os banheiros
eram tão granfinos que havia vinte e cinco qualidades diferentes de banhos - com óleos,
vapores, ervas, essências, etc. - e havia ao lado deles galerias de arte, teatros e
templos dedicados aos deuses.
Os bárbaros, quando invadiram a Europa, pobres coitados, culparam os banhos coletivos
pela decadência romana. Aproveitaram a guerra e destruíram todos os banheiros públicos
e particulares, varrendo, por quase mil anos, o higiênico e gostoso costume, assim como a
palavra banho. 0 tempo corre, não pára, e, na Idade Media, os livros de etiqueta
recomendam apenas lavar as mãos antes das refeições, o que não e de admirar, porque
naquele tempo ainda não havia talheres, era tudo na base do capitão.
Coisa estranha, a Rainha Isabel de Castella não fazia segredo de quantos banhos havia
tomado durante toda a sua vida: apenas dois, um ao nascer e outro ao se casar, para ficar
cheirosa para o real consorte, no primeiro dia de lua-de-mel. Por mais incrível que
pareça, também a religião contribuiu grandemente para o declínio da popularidade do
habito de banhar. São Gregório proibiu os banhos aos sábados "principalmente se a
finalidade fosse higiênica". Houve até uma lei permitindo o banho apenas as
terças-feiras.
Banhar-se era pecado, luxúria, um gosto muito mundano, um zelo excessivo com o corpo, ora
pois!
Foi em torno do ano de 1800 que, na Inglaterra, apareceu uma casa de banho à moda turca,
com freqüência permitida apenas para homens e cortesãs, hermeticamente fechada às
mulheres de família, porque indigna da gente seria do belo sexo. Na França, ao tempo de
Napoleão, houve maior liberalidade e até apareceu uma nova profissão, a dos banhadores,
que saíam, de casa em casa, carregando tinas para lavar a suja nobreza. Na América
colonial, os puritanos consideravam banhos e sabonetes coisas impuras, chegando ao ponto
de, na Filadélfia, quem tomasse mais de um banho por mês seria condenado à cadeia por
desrespeito aos bons costumes. A primeira casa de banhos pública de Nova York veio
aparecer em 1852, mas só regulamentada por comissão especial em 1913. Banho farto,
diário, de mais de uma vez por dia, é coisa de brasileiro. E não é devidamente por
dois terços da nossa raça, a africana e a portuguesa, que também não era lá de muita
água. Devemos a tradição aos ancestrais do sangue tupi e guarani, nossos índios que
apreciavam e muito as brincadeiras e os mergulhos nos rios e nas praias, principalmente
nos dias de maior calor, pois divertimento maior não poderia haver! Como disse, coisa de
brasileiro. . .
Wanderlino
Arruda é poeta e jornalista, autor de vários
lirvos dentre eles TEMPOS DE MONTES CLAROS, JORNAL DE DOMINGO e O DIA EM QUE
CHIQUINHO SUMIU.
destaques
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