Tanto
ADEMIR DEMARCHI
No Oceano com Mr. Conrad
Imensidão de água sob os pés
Dentro do barco bêbado o mar no convés
A paisagem se rompe e muda aos poucos
com a vinda de outra nau errante pelas marés
um fato, como um acidente geográfico
que passa com seu tráfico ocasional
O sabor das ondas
às vezes é o dissabor da vida
me diz, professor
fitamos:
centenas de vidas vis ardendo ali
Naus, como palavras
sobre os mares vêm e vão
esfaceladas pela lâmina cortante das águas
Nada dizem os mapas
técnica, ciência, saber
não espere mensagem, nenhuma
nem das inúmeras garrafas
que se confundem com as vítreas águas,
como vagas de cristais
Embora assim, honrado me sinto
nos convés
de Mr. Conrad
Horas fiamos
Fitando a circularidade do horizonte
dizimando nossa fraqueza
de discernir o humano:
incapaz de bússola
ele a concebe para os ares
e para os estelares
A água balança o cérebro
me diz Mr. Conrad
E ah, também entorta as bengalas
lhe digo eu
E caímos na risada
O Ciclone de Théophile
O ciclone embora Théophile lhe seja surdo
Também ameaça-me os camafeus
Assim mesmo porém o amo
Terrificante e belo a espiralar-me o
peito
Em sua sina de profícuo signo
Lar agradável, oásis da pira arte
A anular todas as coisas vis
Apesar das quais a palavra arde
NIETZSCHE POR UM ÁTIMO
Nietzsche por um átimo
do alto da escarpa mirando as pedras
encobertas pela névoa
mais uma vez desgarrou-se do mundo
e sentiu-se pegureiro de nuvens
pastando no ar do abismo
Tal como ele, o pastor lá embaixo
sentado na grama mas com o olhar
atravessando etéreo seus pequenos animais,
teve deles a visão de serem nuvens,
pequenas nuvens no pasto ôntico ótico
Ademir Demarchi é poeta e editor da revista Babel.