tuti maioli




POEMAS DE

Adriana Versiani



História de sofrimento, doença e morte lenta.
Nunca faltou quem me quisesse porque sempre fui dor.
Colchão d’água, ira da hidra contra criatura,
Herança.
Nunca faltou quem lhe quisesse
Cheiro exalando da ferida que não fecha, ira do corpo contra a criatura,
Bastança.
Nunca faltou quem te quisesse
Alinhavo frio, tripa de carneiro, organismo, ira de deus contra a criatura,
Vingança.
Nunca faltou quem vos quisesse
Placebo quando não há morfina e o coração vascila e o corpo flutua e a nostalgia da
dor inicia a cura: folia de quem lava as mãos com formol depois de formalizada
atadura.
Esperança: luz escura da lembrança.
Saudade, saúde, paúra.


Dúvida

Sabe, a pouco sentia-se tão bem!
A melancolia paira sobre órgãos, não se conhece o que move a alma.
Sabe, sentada ali diante da tv no último dia do ano!
Uma corrente percorre a geografia das mucosas, não se conhece a essência da dor.
Sabe, a câmara focava os músculos das pernas dos atletas!
Nos interstícios, entre linhas, não se percebe a pena do espírito, o caminho que, secretamente, o sofrimento nele cumpre.
Sabe, fechou os olhos e expirou. Morreu, como morrem os passarinhos!


Big Bang

Mãe, centro da terra, suplico força para esse verso
Rítimo, centro de tudo, imploro luz dentro do verso
Caos, começo do mundo, explode língua para fora
do verso.

Às 6:30 da manhã
disparo olhar para todos
os lados
Os bocejos da calçada
despertam a alma do
asfalto
Aponto a máquina e fotografo


Taj Mahal

As árvores perderam as folhas no outono.
Coração de pedra,vento frio, amor eterno.
Toma –me tudo que se espalha pelo chão.
Deito-me de lado, pendo a cabeça,

aguardo
o toque dos seus lábios no branco lírio desse mármore


Pela janela
Essa noite Você,
Calor do Vento,
entrou pela janela e
soprou seu hálito
quente
em mim.
Umedeci.

 

Ele faz com os olhos.
Aqui, de longe,
Tremo inteira quando pisca.

 


Às Quintas

4 dentes, 1 apito e 1 pedra de amolar

olha o amoladoooooooorrrrrrrrrrrrrrrrrr

amola alicate d cutícula , caniveteee

4 dentes, 1 apito e uma pedra de amolar

uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

olha o amoladoooooooorrrrrrrrrrrrrrrrrrr

4 dentes, 1 apito e 1 pedra de amolar

amola tesoourinha d unha, tesooura

faca d cozinhaa. faacão faquinhaaa

4 dentes, 1 apito 1 pedra de amolar +

1 saco de bugigangas que lhe deram os portugueses

uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu


os eleitos, perfilados, vestem branco e têm uma rosa
tatuada na palma da mão.
todos aguardam o momento do juízo.
os outros, chegamos em bandos, rotos, sem banho e esperamos do lado de fora da corda.

entre os eleitos, não se fala de amor.

eles recebem as bênçãos e o espinho com o qual furam os
olhos para alcançarem a luz.
os outros, do lado de fora da corda, aguardamos resignados
cada qual com sua solidão.

no juízo, não se fala de amor.

o sangue do rosto dos eleitos escorre e mancha as vestes
brancas e forma poças no chão.
os outros, nos jogamos em bandos por sobre as poças e
bebemos do sangue dos eleitos à espera da purificação.

o juízo não trata o amor.

Caminhando, perfilados, com as vestes manchadas, os eleitos viram para cima as palmas das mãos e clamam por luz. A rosa tatuada buscando luz. Sentem dor.
os outros , não sabemos o que sentem os eleitos.
os outros, não nos importamos mais com o amor.
os outros, sentimos medo enquanto o sangue dos eleitos seca e amarela o chão.


Introdução

Após a autópsia, verificou-se que os estilhaços foram provocados de dentro para fora. Segundo o legista, três podem ter sido as causas do sofrimento:

1ª - medo da morte.

2ª- incerteza em relação ao futuro.

3ª - falta de equilíbrio nas relações afetivas.

Hoje em dia, disse-me ele, há remédio para quase tudo.


Adriana Versiani nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais. Foi uma das organizadoras da
Coleção Poesia Orbital (Que em 1997  lançou simultaneamente mais de 60 livros de poesia)
da qual participou com Dentro Passa em parceria com Camilo Lara. Ainda em 1997 publicou
Um Barquinho pelo mar, em 2005 A Física dos Beatles. Partcipou da na antologia
O Achamento de Portugal, Anome livos, 2005, organizada por Wilmar Silva.

"Adriana dos Anjos" <driarroba@hotmail.com>