A festa e a transgressão fazem parte da natureza do
homem. São dispositivos acionados pelo homem para resgatar estados de alegria ou transe,
no conflito entre o sagrado e o profano. O carnaval além de ser uma festa que contamina
toda uma cidade, é uma forma de apropriação urbana que altera sensivelmente a imagem, a
ordem e os valores que regem e fazem o estilo de vida dos outros dias do ano, fazendo da
cidade o lugar de uma orgia coletiva. Não podemos desconhecer que o erotismo é um
dos aspectos da vida interior do homem (Bataille). Mas o que vem acontecendo
ultimamente é uma espécie de publicidade do sexo onde o erótico é apenas uma
mercadoria do circuito de economia libidinal, muito bem aproveitada pela indústria do
turismo e pela mídia, resultando em retornos significativos para a economia dominante.
Portanto, o cotidiano material e simbólico se reproduz no carnaval, fazendo da rebeldia
um comportamento possível e suportável de distração e recuperação da força de
trabalho.
Os sacrifícios das sociedades primitivas, como o potlatch,
eram meios de devolver ao mundo sagrado o que a relação servil do homem com o trabalho
tornou profano. O trabalho recalcou a intimidade, e esta passou a ser
recuperada nos cultos, nas oferendas aos deuses, nas festas, nos sacrifícios, nas
chamadas despesas improdutivas. "Em seus mitos estranhos, em seus ritos
cruéis, o homem está antes de tudo em busca de uma intimidade perdida"
(Bataille). A ocupação da cidade por um ritual frenético, que tem o riso e o erótico
como desarticuladores da seriedade do mundo da mercadoria, é sem dúvida, o sacrifício
da sociedade moderna, onde tudo pode ser reciclado para o espetáculo da mercadoria. Hoje,
o carnaval é uma mercadoria exótica e pitoresca, que interessa principalmente ao
viajante de lugar nenhum, o turista, muito bem produzida, embalada e vendida, durante todo
o ano.
A atividade do ano não é redutível à reprodução, conservação e
consumo. George Bataille a divide em duas partes: a primeira, diz respeito ao uso do
mínimo necessário, para os indivíduos de uma sociedade, manter a conservação da vida
e a continuação da atividade produtiva. A segunda, são as despesas improdutivas: as
festas, os cultos, o luxo, os jogos, os espetáculos, etc. O carnaval faz parte dessa
categoria de despesa, sua função é desperdiçar o excedente, o que precisa ser gasto.
As manifestações políticas, étnicas e culturais, pulsões recalcadas, revoltas sociais
fazem parte do circuito da economia simbólica. Se a cidade é o centro das operações
mercadológicas do capitalismo, durante o ritual carnavalesco, ela é reorganizada, por um
urbanismo meio perverso, para permitir a comercialização e o desperdício do erótico,
da libido e da violência. A cidade é percorrida pelo lúdico, pela sedução e até pela
apelação direta ao sexo, como registra as campanhas dos preservativos. Mas este
desperdício e esta socialização promovidos pela orgia contagiante, não estão em
contradição com a cumulação e concentração de renda.
A festa invade o centro e sub-centros da cidade, imprime uma outra
paisagem física e social. O lugar do trabalho, da produção e do consumo, das atividades
humanas de conservação e reprodução é destinado a outras atividades, outras marcas e
outras identidades. Uma estranha cidade portátil é construída dentro da antiga, tendo
as barracas de bebidas alcoólicas como principal serviço urbano. Uma multidão
consumidora e espetacular, e um território fantasmagórico se erguem, subvertendo
momentaneamente a aparente racionalidade urbana. Se na análise de Jean Baudrillard, a
sedução é mais forte que o poder, a produção e até mesmo a sexualidade, o carnaval
parece comprovar tal afirmação, quando não faz uma apelação agressiva do sexo. Neste
audacioso ritual de libertinagem, patrocinado pelo poder e pelo "bom senso" de
uma sociedade indiscretamente moralista, a cidade é o palco da sedução.
Entre o homem e o mundo existe a linguagem. Uma pele semiótica
transparente, sem a qual o homem estaria isolado, sem relacionamentos e sem limite diante
do conhecimento das coisas e dos seres. A convivência na cidade implica no domínio de
uma linguagem; o urbano tem seus códigos que legisla seu uso. O carnaval como uma
performance de transgressão e inversão do sistema de signos urbanos, desfaz o código
cotidiano de relacionamento do sujeito coma cidade, estabelecido pelo compromisso
produção/ consumo, e inventa uma semiótica determinada pelo excesso, pela ironia e pelo
grotesco. Na imagem da cidade do carnaval é determinante a sintaxe da obscenidade, da
orgia, da perversão simbólica. A violência, motivada por vários fatores, faz parte da
festa e contribui na definição da imagem e da publicidade do carnaval.
Sob o efeito do carnaval a cidade troca de função e de sentido. A
sinalética usual passa a ser um conjunto de significantes mortos e é substituída por
uma outra que sinaliza o urbano nos dias do império do Momo. A cidade troca de som, de
cheiro, de visual, e uma multidão invade as ruas e praças embriagada pelo ritual.
Sujeitos urbanos voltam simbolicamente ao estado tribal; fantasiados, assumem outras
identidades, atrás de outras expectativas. O urbano torna-se um espaço terapêutico,
onde transita paralelamente a economia política e a economia libidinal. As rígidas
divisões: público/ privado, sagrado/ profano são suspensas temporariamente para liberar
os fluxos das energias reprimidas. O carnaval forja uma realidade, assim como a sociedade
para legitimar as relações de poder, inventa um princípio de realidade igualmente
autoritário. Com uma diferença no carnaval, não existe uma lógica fora da paródia e
da excessividade, imperando um simbolismo total e um jogo de sentidos onde as regras são
improvisadas a todo momento.
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O antigo centro da cidade do Salvador é ocupado por um acontecimento
excêntrico, na história da cidade, mas que se repete todos os anos, durante o verão,
como um fenômeno de massa, cada vez mais industrializado e menos espontâneo. O centro
histórico, que já esteve ameaçado de abandono e decadência, volta a ser o cenário
principal do grande baile eletrizado de multidões que escaparam do mundo do trabalho. A
praça Castro Alves é o auge, uma das principais zonas erógenas do carnaval, onde quase
tudo acontece; é disputada palmo a palmo por foliões que redescobriram o corpo e sua
energia. Mas as relações de trabalho não foram totalmente abolidas, existem os
operários do carnaval, que são: os músicos, os funcionários dos trios, seguranças dos
blocos, os policiais mobilizados para manter a ordem e conter a violência, os
funcionários de saúde de plantão, os vendedores improvisados, os barraqueiros, as
baianas de acarajé, os jornalistas, etc. Eles formam uma infra-estrutura mínima de
serviços que garantem a realização da festa.
Toda a rebeldia "surrealista" que aparece na imagem do
carnaval é solidária com o realismo diário do mundo do trabalho, do lucro e da
exploração. A instituição carnaval, com toda sua carga simbólica, não escapou do
processo de administração empresarial capitalista. Por exemplo, os blocos são
organizados como empresas reproduzindo a divisão social, racial e sexual, além de,
independentemente da festa, a parte burocrática e financeira funciona durante todo o ano.
Surge uma nova e simbólica noção de propriedade privada, o percurso da rua é lotado
entre blocos com seus trios elétricos exclusivos, contornados por uma corda e
seguranças, não sendo permitido, naquele território, foliões sem a fantasia do bloco.
O trio elétrico, na atualidade, e mais o produto de uma engenharia musical, que não
importa muito a qualidade da música, reunindo em torno de si uma comunidade selecionada
de foliões.
A cidade é um texto, sempre reescrito e reinterpretado, a todo instante confirma o
hiper-realismo do carnaval que magnetiza e subverte o sentido do espaço
físico com a autonomia do simbólico. A volúpia da cidade mundana, a hemorragia do
desejo recalcado, a circulação do sexo e a descontração frenética são as
referências do processo de significação, marcantes da paisagem urbana na cidade do
carnaval.