Julio Saens

            2  Poemas de
            Álvaro Mendes

             

            1. NA  LAGOA
              DAS
            VAREJEIRAS

             

            Na Lagoa de caldo grosso

            (embora chumbo, transparente)

            brilha um Cálice, atufado,

            até à bôca, de Bósta

            dentro do Sacrário; o Cálice

            esverdeado/fosforescente

            – vara de porcos o contemplam!

            (de porcos, digo, vara de humanos),

            mãos ajoelhadas – e os focinhos,

            – roxos – pênis assanhados

            pelas cócegas das Varejeiras...

             

            Dentro do Sacrário, do Cálice

            entufado até à bôca,

            de Bósta – desprendem-se as Flores

            das Fézes

            em anéis gordos, em ôlhas

            de hóstias que sobem devagar,

            liquefeitas bolhas catarros

            sobem devagar, pardas, lenta-

            mente montam pelos caules

            das transidas – subaquáticas

            plantas de raízes lívidas.

             

            irrompem as Bôlhas de Fézes

            irrompem, sem bulha, as hóstias,

            irrompem as hóstias de Bósta

            do caldo grosso da Lagoa

            do fundo chumbo da Lagoa

            da Lagoa de chumbo espesso

            desfazendo-se ao lume dágua

            ejaculando-se à flor dágua,

            – espirram nas línguas suínas

            dos porcos contemplativos

            (dos porcos, digo, dos humanos,

            suinumanos contemplativos),

            – rubros – pênis assanhados

            pelas lambidas das Varejeiras,

            – espalham-se ao lume dágua

            da Lagoa das Varejeiras!

             

            as Bôlhas de Bósta, ou hóstias

            da Eucaristia novíssima

            transubstanciada em gás-podre,

            transubstanciada no monco

            – exalação do novo deus! –,

            lambuzam as goelas-suínas

            (de tanto engolir, feridas),

            atufam as goelas-focinhos

            dos porcos que dentro espiam

            da Lagoa mesmerizada

            (dos porcos, digo, dos humanos),

            lambendo no muco divino,

            chupando, no divino gás,

            o Corpo Glorioso do deus,

            – do Novo deus, da humanidade nova!

             

            Vitória-régia, hóstia divina,

            ôlha-gorda de gás-muco

            alumiada a Canhões de Luz!

            flutuando sobre a Lagoa

            (a Lagoa do Caldo Grosso!)

            – qual o Pneuma de Javé

            pairando sobre águas antigas!

             

            hóstia divina  gás muco

            Eucaristia da Bósta

            (dádiva do Novo deus,

            – do Novo deus à humanidade Nova!),

            – entufa de Fézes, de Bósta,

            estufa de Fézes a Bôca,

            entope de Bósta a Bôca

            – a grande suinumana Bôca-Porca

            a sono solto roncante-saciada

             

            que chupa e vomita

            que chupa e vomita

            gulosa de Infinito

            o suco do Infinito

            o monco do Infinito

            da Hóstia de Bósta

            – e dorme – refestelada!

             

             

            2. poema

            poemas são fermentações 
            falhas de fornicação 
            tenebrosas associações 
            - devoradoras de 
            palavras. 

            são 
            altas fábricas de prata 
            forjas de cal 
            rubros! 
            - violentos sais verbais. 

            cães 
            de guerra em ação 
            de guarda, 

            são 
            ações 
            açores de guerra em terra 
            aviões de caça 
            falcões de palavras 
            descamisadas em vôo- 
            -cego em guerra de 
            morcego. 

            poemas são 
            fabricações violentas. 
            de olho em greve morcegam 
            infravermelho-ávido: 

            têm olho grave 
            e são rei. 

            contudo não trabalham, 
            demarcam 
            golfos vermelhos, 
            teias de hera em letras 
            das pernas às pedras 
            com patas de tiralinhas. 

            poemas são 
                            vôos 
            formidáveis desvãos 
                            em ovo. tapados. 
            poemas são 
            padrões  poemas são 
            formidáveis são 
            balústres/formigões 
            esquadrões terríveis de 
            areia metálica entalada. 
            poemas são 
            compadres são 
            comadres são 
            poemas-vãos 
            poemas são 
            narcisos fofoqueiros, 
            circulam no mesmo, 
            círculos roxos e cardeais e amarelos e azuis (antônio nobre) 
            poemas são 
            núncios-capelões 
            espirais 

            campiões-boxeurs 
            capotões de areia e vento 
            canhões 
            como ramo de oliveira no bico 
            poema são 
            palácios são 
            felácios vítmas 
            vícios de ações 
            exacerbadas 
            arrebatadas cerebrações 
            de prata 
            - tudo em carmim 
            de nada 

            poemas são patas de cavalos. 
            poemas são poemas. são 
            novelos-cios 
            de novelo, cíclico 
            cantar de nada. 
            (palavras são 
            palavras-cidra vibram marulhadas 
            ao toque do dente. 
            violam letras vermelhas, 
            regras uivam ais). 

            eu-poema dos 
            sete mares e deltas, 
            vôo em asa, 
            formidável formigão desencanto 
            em estalo de poesia: 
            qual é meu estatuto 
            se tudo cai e canta 

            de nada? 
            (caio- caí: 
            não me troquem as pernas 
            das letras, 
            vôo ébrio). 

            poemas patrulham tudo: 
            são tenebrosos espiões facistas 
            línguas de pato, 
            cartografias sinistras. 

            poemas são capoeiras e capoeiras 
            de vizinhas, 
            são anúncios
            de galinhas, 

            se morcegam-cio, 
            se matam de seio nos bicos do ódio. 
            poemas são pães de morcegos 
            em vôo Zaúm. 

            fardados são 
            condomínio de luz, 
            transtorno de aromas, 
            desflaque de almas depenadas, 
            são lâmpadas de alicate, 
            prantos de borracha e lata, 
            torso de um 
            apolo arcaico de fiacre, 
            apelos de casaca fúnebre 
            e curto pavio despencante. 

            poemas são fagulhas sinistras 
            coices brutos no cio. 
            pavios. 

            poemas cantam 
            de nada. 

      Á.M. nasceu em São Paulo, SP, em 1938. É jornalista (trabalhou no Correio da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil) e  em editoras (Enciclopédia Barsa, Enciclopédia Delta Larousse). Aposentou-se pela Funarte. Autor de Íris Breve (Editora Sette Letras, Rio, 1996) Prêmio Bienal Nestlê de Literatura 1995..