Ilustração: Julio SaensIlustração: Julio Saens  

BACK AGAIN

       Ana Cristina Cesar
 

         Larguei as botas na escada. Subi descalça, vesti a camisola de
    algodão. Acabei com o Dalmadorm. Não rolei mais. Esqueci do
    corpo; com olhos abertos fica tudo claro; eu estava dentro; a vida
    inteira, a terra toda, os punks negros na esquina, negra com punhal.
    Flash vermelho em luz neon piscando por entre as persianas: "aqui
    morri", e depois de um minuto todas as paixões de novo. De novo e
    uma paisagem só vista do alto. Não vejo meu corpo mas penso nele
    com desejo e minha consciência é o teto do mundo, como se o forro
    do meu crânio fosse o céu. Mas não vejo o osso duro. Quando a luz
    neon piscou pela última vez lembrei do limbo, e ali também era o
    inferno que doía no teto do mundo e o céu era vermelho. Me vi num
    trem atravessando a Escócia e lendo um conto de KM. O conto se
    acaba e eu fechava o livro e olhava para fora e meu pescoço estava
    mole, miúdos de galinha, brilho de luz no mar do Norte, um velho
    inspecionava tickets, encostei a cabeça na vidraça. Estava quente e
    passava rápido e eu dormi sem querer (quando quero tenho insônia),
    rumando para o norte.

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