julio saens
Poemas de ANA VIANA (Lisboa/ Portugal)


são as palavras escritas que me libertam
e me impõem esta solidão

é com elas que me escuto e me dou
sem elas não sou suspensa numa deriva cega
com elas toco o mundo desconhecendo um melhor modo
inocentes elas da sua origem e do seu efeito

soltas de mim
transportando-me

*

uma palavra solta
em queda livre
interceptada por uma outra
recuperada num velejo
de onda e salto
alcançando outras
um enrolo que volteja
feroz esquartejar de si próprias
até que se limpem
num debruado sobre a areia
linha última a marcar o começo
do mar

*

assumir o simulacro como o único lugar possível
para a palavra ser certa e nos seduzirmos com ela
palavra como amarra
ilusão que se respira
enquanto não soubermos libertar-nos dela
e substituí-la
pela imagem talvez
ou pela pela

*

um cisma por sob o qual
um istmo liga as distâncias
subterrâneas
e um sobressalto indomável
à tona 

esparrame contido
a consolidar pontes
abrindo fissuras
de escape

         * 

em cada acto reconhecer-nos sendo o mais difícil
sem procurarmos ser o outro
mesmo quando as razões nos dizem ser a razão de nós alheia
e o tempo invertido
 
cada acto expressão antes de saber repartido
 
        *
 
encontro-te quanto te enrolas
na minha pele
sem destino para além de estar
sentindo o eco do mundo
um silêncio
enquanto nos dizemos
 
       * 

é sono esse tempo em que nos recolhemos
e vigília aquele em que nos excedemos
excesso maior o do sonho entre tempos
o tempo em que indivisos
nos preparamos a sê-lo mais ainda em partilha
mutantes imperfeitos do seu sentido

*

Entrar nesse território onde o risco sobrevoa
lâmina congelada da certeza de não cair
um movimento manso como quem respira o trilho
conhecido embora nunca percorrido de tal modo
continente de caminhos que se ousam
palavras cosidas do avesso ao nosso avesso
cada vez mais a nós iguais
que ancorados por dentro
nos soltamos

*

espremo o sumo
de um fruto que não é meu
ácido oxidado tempo demais
para que o engula
e regurgito-o
até fermentar num licor novo

*

um cisma por sob o qual
um istmo liga as distâncias
subterrâneas
e um sobressalto indomável
à tona

esparrame contido
a consolidar pontes
abrindo fissuras
de escape 

*

 

há um tempo que espera
que eu o queira enquanto hesito
turbulento esse que me retém

eu fora dele
à espera do desejo

*

as palavras sempre ficam a meio
de um escavamento
a descoberto umas escondem as que logo se interpõem
vestes que talhamos para preencher o vazio por detrás



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Poeta e artista plástica, nasceu em Lisboa, em 1962. Licenciada em Psicologia, Doutora em Ciências da Educação pela Universidade de Lisboa, onde atualmente é professora. Publicou Mundo entretecido (Edições Colibri, 1997), Passagens sublinhadas (Página 4, 2000) e Femininos singulares (Indícios de Oiro, 2002). Os poemas a seguir foram extraídos de seu recente livro Por dentro das palavras...o tempo (Indícios de Oiro, 2003). 

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