são as palavras escritas que me libertam
e me impõem esta solidão
é com elas que me escuto e me dou
sem elas não sou suspensa numa deriva cega
com elas toco o mundo desconhecendo um melhor modo
inocentes elas da sua origem e do seu efeito
soltas de mim
transportando-me
*
uma palavra solta
em queda livre
interceptada por uma outra
recuperada num velejo
de onda e salto
alcançando outras
um enrolo que volteja
feroz esquartejar de si próprias
até que se limpem
num debruado sobre a areia
linha última a marcar o começo
do mar
*
assumir o simulacro como o único lugar possível
para a palavra ser certa e nos seduzirmos com ela
palavra como amarra
ilusão que se respira
enquanto não soubermos libertar-nos dela
e substituí-la
pela imagem talvez
ou pela pela
*
um cisma por sob o qual
um istmo liga as distâncias
subterrâneas
e um sobressalto indomável
à tona
esparrame contido
a consolidar pontes
abrindo fissuras
de escape
*
em cada acto reconhecer-nos sendo o mais difícil
sem procurarmos ser o outro
mesmo quando as razões nos dizem ser a razão de nós alheia
e o tempo invertido
cada acto expressão antes de saber repartido
*
encontro-te quanto te enrolas
na minha pele
sem destino para além de estar
sentindo o eco do mundo
um silêncio
enquanto nos dizemos
*
é sono esse tempo em que nos recolhemos
e vigília aquele em que nos excedemos
excesso maior o do sonho entre tempos
o tempo em que indivisos
nos preparamos a sê-lo mais ainda em partilha
mutantes imperfeitos do seu sentido
*
Entrar nesse território onde o risco sobrevoa
lâmina congelada da certeza de não cair
um movimento manso como quem respira o trilho
conhecido embora nunca percorrido de tal modo
continente de caminhos que se ousam
palavras cosidas do avesso ao nosso avesso
cada vez mais a nós iguais
que ancorados por dentro
nos soltamos
*
espremo o sumo
de um fruto que não é meu
ácido oxidado tempo demais
para que o engula
e regurgito-o
até fermentar num licor novo
*
um cisma por sob o qual
um istmo liga as distâncias
subterrâneas
e um sobressalto indomável
à tona
esparrame contido
a consolidar pontes
abrindo fissuras
de escape
*
há um tempo que espera
que eu o queira enquanto hesito
turbulento esse que me retém
eu fora dele
à espera do desejo
*