UM
FATO ISOLADO conto de
Ana
Flores
(
) Minhas
manias, por exemplo, ele nunca entendeu. Ou não quis
entender. Ou se lixava para elas, não sei. Chamava de idiossincrasias. Gostar ele não
gostava, mas custei a perceber. Os papéis de presente que eu guardava, mesmo sabendo que
não ia usá-los outra vez, ele tentava me convencer de que era uma mania esquisita, dizia
que entulhavam o espaço onde ele precisava guardar livros. Justificava-se dizendo ser
mais útil ter livros que papel de presente usado. Uma questão de opinião, que eu
respeitava, tanto que nunca mandei embora os livros dele, mas a recíproca não era
verdadeira: se eu não pensasse como ele, a errada era eu.
Ele também não concordava com o meu critério de escolher os livros que eu ia guardar,
mas para mim era tão simples
Cada vez que eu relia um, era como um novo livro
dentro do mesmo, já que eu também era uma nova pessoa, e com isso eu podia mudar minha
impressão sobre o livro ou perceber coisas que antes não tinha notado. Esses eu
guardava, e mandava embora aqueles que depois de relidos me deixavam só com a primeira
impressão, sem acrescentar nada. Um dos que guardo até hoje eu li pela primeira vez no
meu tempo de colégio: a história de uma mulher meio dissimulada, olhos de cigana, que
traiu o marido com um amigo do casal. Doze anos depois, quando aconteceu de eu ler pela
segunda vez, já casada, podia jurar que estava lendo outro livro. Passei a ver o marido
dela como um neurótico e duvidava que ela o tivesse mesmo traído, porque se isso fosse
verdade, teria largado tudo e ido embora com o amante, se é que o talzinho ia ter a mesma
coragem que ela. Aquela mulher sabia o que queria, mergulhava inteira no que fazia, não
ia ficar grudada naquele marido chato a vida toda se não gostasse dele.
Já um papel de presente, não. Era uma história única entre ele e o presente que
embrulhou. Uma coisa só, indissociável. Se significasse para mim uma boa lembrança, eu
guardava. Era uma história em cada papel e eu gostava de remexer neles de vez em quando.
Essas histórias nunca mudavam. Mas ele me pedia para compreender o lado dele, que no seu
entender era o normal, o sensato. O meu tinha que mudar, era estranho, diferente.
Incompreensível, ele dizia. No começo só falava, mas um dia, simplesmente me avisou que
tinha jogado fora uma caixa cheia de papéis de presente, alguns com mais de quinze anos.
Não disse que tinha tirado a caixa para eu guardar em outro lugar, não. Simplesmente
jogou fora, deu sumiço, e pôs no lugar uma coleção de vários volumes de histórias de
terror que acabara de ser lançada. Clássicos do Arrepio, nunca vou esquecer.
Fiquei magoada. Naquela época ainda não o imaginava fazendo uma coisa dessas, para mim
isso não combinava com o homem que eu havia escolhido para compartilhar minha vida.
Compartilhar tudo, prateleiras também, as manias de cada um, mas não era o que estava
acontecendo.
Ele viu como eu fiquei, se desculpou sinceramente, disse que não imaginava que aquilo
fosse assim tão importante e prometeu que não se repetiria. No outro dia, para mostrar
que estava arrependido, me trouxe um papel de presente muito bonito, mas era só o papel,
esticadinho, lisinho, virgem. Nunca tinha embrulhado coisa nenhuma, presente nenhum. Disse
que era para eu começar uma nova coleção. Aí eu vi que ele nunca tinha entendido por
que eu guardava os papéis. Não tinha nada a ver com o que eu costumava fazer nem com as
minhas lembranças. Mas guardei assim mesmo, em consideração a ele, embora já não
tivesse mais a mesma graça. E não se falou mais nisso. Segundo ele, o episódio da caixa
de papéis fora apenas um fato isolado na nossa vida e tudo estava sob controle.
E assim foi com muitas outras coisas, inclusive a jardineira. Ficava debaixo da janela da
sala e recebia sol pela manhã. Ideal para plantar uns gerânios ou qualquer outra flor
que nós quiséssemos para dar um colorido ao parapeito. Mas embora eu estivesse sempre em
casa e disponível, nunca pude arrumá-la, porque ele dizia que ele mesmo queria escolher
as mudas e comprar a terra adequada, ia falar com não sei quem que ele conhecia para
orientá-lo naquela tarefa, que eu não me preocupasse, que estava tudo sob controle. O
fato é que durante os quatorze anos em que moramos naquele apartamento, a jardineira
nunca viu uma única flor, nem uma maria-sem-vergonha pra contar a história. No início
eu ainda perguntava uma vez ou outra quando teríamos a jardineira florida, que eu sempre
sonhei ter, mas a resposta era sempre a mesma, e com o tempo eu parei de perguntar.
E, então, o episódio do piano. Não era um piano dos grandes, de cauda, mas de parede, e
muito bom. Estudei nele durante oito anos até minha adolescência, me diplomei no
Conservatório e o levei comigo quando nos casamos. Nunca fui concertista, mas tenho bom
ouvido, tiro qualquer música que me peçam, basta que cantem um trechinho e eu já pego
tom, ritmo e tudo. Volta e meia dedilhava o que eu queria e me distraía daquela vida
monótona que eu levava sem trabalhar, conforme ele me havia pedido. Não estou te
proibindo de trabalhar, meu bem, ele dizia, mas acho que é melhor para nós você ficar
mais tempo em casa. E eu fiquei.
Um dia, e esse nunca vou esquecer, quando voltei de um passeio de saveiro em Itacuruçá,
que ele tinha insistido para eu fazer com as irmãs dele, ao entrar em casa foi como se
tivessem me cortado o oxigênio. Cheguei a ficar tonta, o coração batendo no pescoço.
Na parede do piano, um vazio, e ele ali, todo doce, me explicando que tivera que vender o
piano para pagar algumas dívidas. E pedia para eu considerar a inutilidade de um móvel
daqueles. Afinal, ele disse, você não é nenhuma concertista, não íamos ficar devendo
aquela grana toda, e esse mastodonte aqui, parado e sem
uso, podendo resolver o nosso problema.
Era engraçado como ele usava o nós nessas horas. A nossa dívida e o nosso
problema nada mais eram que as burradas que ele andava fazendo não sei onde,
provavelmente em jogo ou em negócios mal resolvidos e, como de costume, sem pedir minha
opinião ou dividir as preocupações comigo. Mas para decidir sobre tudo, o
"nós" desaparecia e a minha vida virava sua propriedade. Como o piano, eu
também era um móvel inútil.
Dessa vez, porém, não foi como o sumiço dos papéis de presente. Ele não ia poder
repor o piano, mesmo porque valor sentimental não se substitui. E durante alguns dias,
nem me lembro quantos, pela primeira vez senti o gosto do ódio, e uma profunda mágoa que
me fazia chorar sem mais nem menos. Naqueles dias escuros, e mergulhada na dor, acabei
percebendo que a venda do piano do jeito que ele tinha feito não me afetara só pela
perda do piano, mas porque aquilo me mostrava claramente que eu não era uma vítima dele,
como eu cheguei a pensar em dias mais difíceis, mas, ao contrário, estava me
transformando em sua cúmplice. Reagindo a tudo o que ele fazia apenas com lágrimas ou
sufocando o ódio, a situação não
mudaria nem para ele nem para mim.
Alguns dias depois se mostrou irritado por eu estar evitando a sua companhia e não
respondendo às suas tentativas de conversa. E falou quase rispidamente que eu estava
sendo ingrata e injusta, afinal ele era um bom marido, me amava de verdade e eu não tinha
do que me queixar. Depois de tantos anos juntos e da sua dedicação a mim, disse ele, o
mínimo que eu poderia fazer em retribuição era tentar ver a venda do piano como um caso
triste, mas necessário. Apenas um fato isolado no meio da
nossa felicidade.
Não levei todas as nossas malas quando saí de casa. Para o que eu queria, uma era
suficiente: duas mudas de roupa, dinheiro para o transporte de volta, uns poucos livros e
a foto de meus pais, já falecidos. E só. E não me arrumei escondida, ele estava bem ali
quando decidi sair. Só fiquei com pena porque o papel de presente que ele tinha me dado,
tão bonito, agora estava com uma mancha enorme de sangue, colado na camisa dele, que
também ficou ensopada. A faca de cozinha que eu usei, deixei ali mesmo, ao lado do corpo.
Logo depois chegou a polícia, que eu mesma chamei, e fui junto para a delegacia. Tenho
certeza de que qualquer juiz vai entender minha reação e concluir que esse episódio foi
apenas um fato isolado em tantos anos de obediência e passividade. E como diria meu
falecido marido, tudo
vai estar sob controle.
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Ana Flores, Carioca, duas filhas, professora
de Português e Literatura na Escola Americana do Rio de Janeiro há 20 anos; tradutora do
livro Para defender-se dos escorpiões e outros contos, do autor argentino
Fernando Sorrentino; autora do livro didático Muito Prazer! Curso de Português do
Brasil para estrangeiros, e do livro Corporco e outros contos,
a sair em breve pela editora Blocos; cronista dos jornais de bairro Guia Humaitá e Folha
da Gávea, ambos do Rio. Publicou também contos em alguns sites literários.
e-mail: anaflor@domain.com.br
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