Era o dia dos seus esperados dezoito anos. Corria o mês de abril. Tocou a
campainha. Um rapazinho moreno, magro, de sorriso amplo e farto, perguntando pela
aniversariante, trazia um buquê de rosas champanha. Eram doze botões surpreendentemente
iguais, apresentando friso de cor mais acentuada nas bordas das pétalas. Nenhuma
mensagem.
Na manhã seguinte, no mesmo horário, entrega de mais doze rosas brancas,
frisadas de tonalidade
amarelada, que foram fazer companhia às do dia anterior. Vinham novamente desacompanhadas
de cartão. Quem seria esse tímido admirador? A mãe, que recebera as flores, deteve-se
no selo identificatório da floricultura.
Diante de uma regularidade tão marcante, preparou-se para pessoalmente
receber um outro buquê no
terceiro dia consecutivo. Não só as rosas não lembravam as dos dias anteriores, como o
rapaz que fazia a entrega era outro. Disse o nome dela e entregou-lhe um buquê de botões
levemente róseos. Verificou, mais uma vez, que não havia cartão e que a floricultura
já era outra. Os vasos mais requintados da casa se encontravam ocupados. Um de plástico
teve de ser improvisado e as flores foram para a cozinha. A moça ndagava-se: quem teria
dinheiro para patrocinar tais excentricidades? Ligou para o telefone do selinho e
informaram-na não saberem de quem se tratava.
O quarto buquê chegou no dia seguinte, dentro do mesmo ritual dos
anteriores. Apenas a cor ia variando. Desta feita, botões vermelhos, não o da
vermelhidão total, como que a esmaecer o simbolismo da paixão ardente. A moça não
procurava mais o cartão. Preocupava-se tão-somente com a casa da remessa, o que dava a
esperança de um dia matar a charada. Nenhuma pista pôde ser descoberta, apesar da
sabatina a que submetera a gerente.
A seqüência foi quebrada no quinto dia, causando um sentimento misto de
frustração e irritação. Havia a intenção de confundir ou brincar um pouco. Deu-se
por aliviada. Sentiu-se liberta, como se as rosas não mais lhe vigiassem o tempo todo. No
sexto dia, o buquê das doze retornava com outro entregador, com a particularidade de
trazer um cartão. Com as mãos trêmulas, abriu-o: Espero que tenha sentido a minha
falta. Apanhou as flores amarelas frisadas e as soltou sobre a mesa da cozinha, com
a mesma
sem-cerimônia de quem joga as compras de supermercado sobre qualquer tampo de cozinha. O
papel escrito era um zero à esquerda.
A partir desse dia, a ex-aniversariante recusou-se a atender a porta ou a ser
chamada pelos familiares. Nem por isso a encomenda deixava de ser entregue. Muitas vezes
ia parar na casa dos vizinhos. Familiares, empregados e vizinhos que necessitassem
de flores para marcar alguma ocasião passaram a contar com a fartura e a gratuidade
delas. Os irmãos começaram a presentear as namoradas. A irmã tomava banho de pétalas
na banheira de hidromassagem. Até a faxineira se aproveitou de um dos buquês para
adornar a cova de seu pai. Todos se regalavam em distribuir presentes pagos/doados por um
desconhecido. Ela, não. À falta de uma explicação para o que sucedia, atormentava-se
com a conjetura de que o/a estranho(a) estivesse celebrando a sua morte.
A garota foi tão afetada pelos fatos, que não tardou a desenvolver um
comportamento
persecutório sério. Tão sério, que evitava todas as situações de convívio social,
vistas
por ela como de caráter ameaçador, mobilizando toda a família pelo sofrimento
envolvido e pelo abandono de suas atividades corriqueiras. Em reunião familiar,
aventaram mesmo a hipótese de acionar os serviços de inteligência da polícia para
desfazer o mistério, na expectativa de colocar um ponto final a uma situação de
evolução imprevisível. Os pais, no auge do protecionismo, chegaram a sugerir que ela
não saísse de casa. Vários vizinhos se inteiraram dos acontecimentos e já
participavam ativamente nas conversas com suposições e fuxicos. A casa da família
converteu-se em alvo natural de espionagem e peregrinação. Numa sociedade tomada
pela violência, não faltavam os que vissem aí a trama bem urdida para, quem sabe,
um crime, assalto ou seqüestro.
Ao término d 30 dias, as flores não mais entravam na casa. Ela se recusava
a ser a "destinatária
escolhida". Algum familiar se encarregava de fazê-las desaparecer. Sempre botões.
Rosas. Doze. Diversas fontes de envio. Jamais um bilhete, uma palavra. A não ser aquela
vez, no quinto dia, sentiu a minha falta?
No trigésimo primeiro dia, algo inesperado: um simples botão vermelho, sem
frisos, mas com um cartão: você jamais se esquecerá de mim. Depois disso,
nada mais chegou.
Ah, as flores! As rosas! Poderiam crescer no seu habitat, fincadas na terra, exalando o
cheiro da rega.
Adornariam a natureza e, ali mesmo, sucumbiriam, caladas, sem fazer o papel mudo de levar
o mal aos
outros. Ah, as lembranças, as andanças! Poderiam ficar fincadas no tempo...
Rosas a me confundir / Rosas a te confundir
São muitas...são tantas / São todas tão rosas
Rosas de abril. Dorival Caymmi

Ana Paula Sabbag
Nascida em Brasília, escritora, editora de textos e revisora técnica, formada em Turismo
e Letras. Participa de diversos veículos de informações literárias, artísticas e
sobre Turismo.
destaques