Depoimento de
um amigo e de um quase companheiro de geração, evocativo e fraternal, José Olympio:
O descobridor de escritores é um livro sem arestas, uma homenagem carinhosa ao grande
editor. Poucos terão admirado J. O. tanto quanto o memorialista de O nariz do morto
(1970), biógrafo de Alceu Amoroso Lima e de Cândido Mendes de Almeida (não o atual,
membro da ABL, mas o seu bisavô, autor do clássico Direito civil eclesiástico
brasileiro, publicado em quatro volumes, de 1866 a 1873, por Garnier), e que fez a sua
estréia com uma biografia de Rio Branco: Perfil de um estadista da república
(1945).
Antonio Carlos Villaça é escritor que se compraz em contar casos da vida literária,
transitando entre homens e livros no tecido incerto e fugidio dos dias que sucedem aos
dias. Escreve de maneira despojada, sem mistérios, num ritmo de quem rememora, de quem
busca recompor o passado evocando-o subliminarmente. No ensaio, bem como nas suas
memórias, ele não abandona os passos do cronista do mundo da literatura. Os títulos de
seus livros são sugestivos: Encontros (1974), Tema e voltas (1975), Literatura
e vida (1976). É nesse sentido que podemos ler José Olympio: O descobridor de
escritores, como a crônica de um dos momentos gloriosos da vida literária
brasileira. E a história de J. O. é a história da sua editora, tal a sua entrega ao
ofício, seu amor ao livro. O depoimento do secretário Sebastião Macieira é curioso,
conforme registra Villaça: "Nota que Seu José tem amor fora do comum ao livro. Quer
que se lavem as mãos antes de pegar num livro."
Esse grande personagem que foi J. O. talvez não tivesse o tino comercial, porque era
antes um homem da cultura, um homem que, do ponto de vista financeiro, foi um saltimbanco.
Ele se tornava uma espécie de pai dos seus editados, conforme escreve Rachel de Queiroz
no prefácio, num texto revelador da personalidade do seu editor. A consideração que
tinha pelos autores, a dignidade com que os tratava talvez seja o que mais o diferencie da
maioria dos grandes editores brasileiros atuais, cada vez mais distantes dos escritores e
conseqüentemente da realidade do país, dos problemas brasileiros.
Villaça compôs de J. O., insisto, um retrato de amigo, muito próximo do perfil que
Erico Verissimo traçou de seu editor em Um certo Henrique Bertaso (1972), cujo
subtítulo é sugestivo: Pequeno retrato em que o pintor também aparece. Como no
livro de Erico, em que se conta a história da antiga Livraria do Globo, também aqui
temos a trajetória de um homem que acreditou no sonho e que o realizou, num tempo em que
o Brasil ainda se definia intelectualmente através das idéias de alguns mestres como
Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda. Claro, o século 21 não comportaria mais uma
figura como J. O., com as suas idiossincrasias, com o seu quixotismo, à maneira de um
Henrique Bertaso, de um Monteiro Lobato. Personalidades paradigmáticas do livro
brasileiro, eles tiveram os seus seguidores: Ênio Silveira (Civilização Brasileira),
Pedro Paulo Moreira (Itatiaia), Gumercindo Rocha Dórea (GRD), Massao Ohno, que também
já são figuras de um outro tempo, e que pertencem mais à história literária do país
que à atualidade.
O livro que Antonio Carlos Villaça escreveu é um manancial de histórias no qual os
personagens atendem pelos nomes de Jorge Amado, Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Otávio
Tarquinio, Otto Maria Carpeaux, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Gilberto
Amado, Graciliano Ramos, Luís Jardim. De cada um extraiu-se um pouco, uma confidência,
uma anotação casual, uma informação que auxilia na compreensão da personalidade um
tanto retraída do editor. E o pintor é caprichoso na precisão do traço: "O vácuo
não era o seu reino. Gostava de pisar no chão firme dos fatos, das realidades precisas,
das grandes questões. O seu mundo não eram as aparências, mas as verdades concretas,
aqui e agora. Fascinava-o a exatidão da verdade".
Vale destacar ainda a transcrição de uma polêmica carta de Carlos Lacerda e de uma
outra, reveladora do pensamento de Alceu Amoroso Lima. Mas é a transcrição de uma
terceira, de Jorge de Amado, exercício de admiração ao amigo quando completava sessenta
anos, que sintetiza o papel fundamental de J. O. à frente de sua livraria e editora:
"No dia em que se escrever a história da grande obra realizada por José Olympio,
terei um depoimento a prestar. Sinto hoje a satisfação de ter sido funcionário e
editado da Casa nos seus inícios, nos tempos heróicos, quando você iniciou uma
revolução em nossa indústria editorial. Outros haviam realizado algumas escaramuças,
entre eles o inesquecível Gastão Cruls. Mas foi você quem fez a revolução, mudou os
dados do problema, acreditou na literatura nacional, em nossos escritores. Éramos uns
meninos rebeldes e agressivos e o moço paulista nos deu o apoio necessário".
Estávamos a 19 de dezembro de 1962. As perspectivas aí estão: um dia se escreverá de
maneira definitiva a história da literatura brasileira dos últimos cem anos. Nela, o
nome de J. O. (e da J. O.) deverá alcançar a sua dimensão. O livro de Antonio Carlos
Villaça aponta os caminhos.
André Seffrin é crítico literário e
ensaísta. voltar