Rui Santana - Acrílica  sobre pedra São Tomé
Rui Santana - Acrílica  sobre pedra São Tomé

Poemas de
Annita Costa

Catraca 

Deus é um disfarce
o homem caminha em direção ao ponto de ônibus
apertando o passo manco
maltrapilho
Nossa Senhora Achiropita
Treze de Maio
viadutos alamedas sobrados antiguinhos
Deus é um disfarce de mau gosto
vagueando o minhocão de madrugada
um carro mal estacionado na Amaral Gurgel
uma combe desordenada que fura o farol
procuro alguma coisa por ali
esqueci a roupa no varal
a panela no fogão
- voltamos antes que escureça?
Deus,
um disfarce de quem?
aperto a bolsa contra o peito e passo a catraca

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meu avô não viu os anos noventa
sob os monumentos dispersos na cidade antevejo algumas cicatrizes
lugares que não foram meus
tempos não são mais do que lugares
dispersos
em uma cidade cicatriz que não foi nossa
tempos dispersos
e meu avô não viu os lugares
não viu os nossos lugares naqueles anos
meu avô e os monumentos da cidade
os anos noventa e os outros anos –
lugares que não temos como ir

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 Aqui as pombas voam baixo
a qualquer esquina você pode ser atropelado, ter o nariz cortado
a qualquer esquina você, surpreendido por umas ou outras novidades
pode se deparar com algumas patas
algumas penas de gansos ou gambás suburbanos
te encontro em qualquer esquina e você traz uma criatura perfeita nas mãos –
sabemos que é preferível começar uma história de cada vez, mas os começos são tantos e todos
tão urgentes que você, irremediavelmente
arremessa a criatura


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 meu vizinho tem vomitado muitos coelhinhos pela manhã
eu me mantenho austera
na retaguarda
mas não tiro os olhos da porta e me asseguro noite e dia dos vidros bem fechados
meu vizinho faz barulhos indecifráveis às três e trinta e cinco da madrugada
e deixa o jornal em repouso na soleira
até que escureça
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 Desalinhamentos 

Não suporto a visão dos acidentes que se distribuem pela auto-estrada
sigo acumulando desculpas justificativas convincentes por mais um atraso ou ausência
tenho náuseas ao tentar olhar a cena do desastre
ao mesmo tempo amoleço ao mesmo tempo me esforço para acelerar – o carro não obedece
mas sei que nada pode passar de um delírio passageiro
as manhãs nunca passam como gostaríamos
já me acostumei, mesmo sem rádio ou toca-fitas
já me acostumei
a ensaiar um enfarte no meio da avenida
a temer um desmaio em horas impróprias
me acostumei com o sal ao redor dos lábios salvando a pressão
que costuma baixar no calor
me acostumei mesmo com o carro a cena os desastres
rompendo o concreto pela manhã
mas mesmo assim não suporto
não suporto a visão dos acidentes que se distribuem
nem mesmo o acúmulo de justificativas
desculpas
por mais um atraso
mais uma ausência uma falta
enquanto um cão se debate no asfalto
e algumas pessoas se reúnem para assistir

Annita Costa nasceu em 1975 em São Paulo, é jornalista e mestre em Comunicação e
Semiótica pela PUC-SP. Publicou : "fundos para dias de chuva" pela Ed.7letras.
annita.costa@terra.com.br


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