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Aqui as pombas voam baixo
a qualquer esquina você pode ser atropelado, ter o nariz cortado
a qualquer esquina você, surpreendido por umas ou outras novidades
pode se deparar com algumas patas
algumas penas de gansos ou gambás suburbanos
te encontro em qualquer esquina e você traz uma criatura perfeita nas mãos
sabemos que é preferível começar uma história de cada vez, mas os começos são tantos
e todos
tão urgentes que você, irremediavelmente
arremessa a criatura
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meu vizinho tem vomitado muitos coelhinhos pela manhã
eu me mantenho austera
na retaguarda
mas não tiro os olhos da porta e me asseguro noite e dia dos vidros bem fechados
meu vizinho faz barulhos indecifráveis às três e trinta e cinco da madrugada
e deixa o jornal em repouso na soleira
até que escureça
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Desalinhamentos
Não suporto a visão dos acidentes que se distribuem pela auto-estrada
sigo acumulando desculpas justificativas convincentes por mais um atraso ou ausência
tenho náuseas ao tentar olhar a cena do desastre
ao mesmo tempo amoleço ao mesmo tempo me esforço para acelerar o carro não
obedece
mas sei que nada pode passar de um delírio passageiro
as manhãs nunca passam como gostaríamos
já me acostumei, mesmo sem rádio ou toca-fitas
já me acostumei
a ensaiar um enfarte no meio da avenida
a temer um desmaio em horas impróprias
me acostumei com o sal ao redor dos lábios salvando a pressão
que costuma baixar no calor
me acostumei mesmo com o carro a cena os desastres
rompendo o concreto pela manhã
mas mesmo assim não suporto
não suporto a visão dos acidentes que se distribuem
nem mesmo o acúmulo de justificativas
desculpas
por mais um atraso
mais uma ausência uma falta
enquanto um cão se debate no asfalto
e algumas pessoas se reúnem para assistir
Annita Costa nasceu em 1975 em São Paulo, é jornalista e mestre em
Comunicação e
Semiótica pela PUC-SP. Publicou : "fundos para dias de chuva" pela Ed.7letras.
annita.costa@terra.com.br