Tanto
QUANDO MERCÚRIO CRUZAR
A CASA DE SATURNO
Baby, Baby, veja como estou triste,
nem consigo mais chorar quando ouço o
Bob
[ Dylan
e o pacau está acabando, Baby,
o quê que eu faço?
Fico sentado neste tapete
imaginando uma caçada no Saara?
Onde existe água, Baby ?
Não sei onde estou com a cuca
que fui esquecer a jaqueta na casa da mamãe
e agora estou com frio, frio!
Eu te queria aqui comigo,
Baby,
com estas prenas enormes me adormecendo
me alisando os pêlos, os cabelos, me perguntando:
"VOCÊ ME AMA, BEM?"
Oh! Baby, veja que miséria sou
só tenho de bom o coração
e esta barba, Baby,
esta longa barba de profeta sacador
e a gente aí na lua, na labuta, mayday
socorro, amor, que não tenho mais direitos
só deveres e cracias, are you crazy?
Estou louco não, humanidade,
quéde você que não me ouve?
Cadê ouvidos para tanto barulho,
onde estão os bichos, Baby, onde estão
os bichos?
Pensas acaso que já me fui?
Engano seu, ó lucidez alviçareira
das procelas
no lírico espadanar dos algozes maquistelas,
é lítero labor oral altissonante
dos meus vermes!
ó clangor dos vinte anos imberbes!
Irei pro inferno, Baby,
com minhas bugigangas e meus colares
e pulseiras
meus anési, minhas algemas
de ripie doente e abandonado.
Oh! Baby, como estou parafusado!
Poderia retalhar meu corpo agora
que não teria forças para distribuí-lo,
Baby,
"ninguém me ama, ninguém me
quer,
ninguém me chama
de Baudelaire"*
Que vontade de tomar Sundae
nas Lojas Americanas
sábado à tarde, a pelada na faculdade
o sol inteiro, os jeans marcando as bundas
[ apressadas
a água correndo pelo corpo arrepiado
e os reflexos das vidraças nos meus olhos
os pára-brisas e os ray-bans, Baby
e tua cristalina lente-de-contato me despindo.
Que há de acontecer, menina,
daqui a dois dias, quando Mercúrio
transpuser a casa de Saturno?
Deve ser por isso, Baby,
que meus incisivos centrais estão caindo
como estrelas de geléia no céu
da boca,
mas agora chega, Baby, basta.
Vou tomar uma pinga no Tavares
* Isabel Câmara