Tanto 
     

              ANTONIO BARRETO
               

              QUANDO MERCÚRIO CRUZAR
              A CASA DE SATURNO
               

              Baby, Baby, veja como estou triste,
              nem consigo mais chorar quando ouço o Bob
                                                                           [ Dylan
              e o pacau está acabando, Baby,
              o quê que eu faço?

              Fico sentado neste tapete
              imaginando uma caçada no Saara?
              Onde existe água, Baby ?
              Não sei onde estou com a cuca
              que fui esquecer a jaqueta na casa da mamãe
              e agora estou com frio, frio!

              Eu te queria aqui comigo,
              Baby,
              com estas prenas enormes me adormecendo
              me alisando os pêlos, os cabelos, me perguntando:
              "VOCÊ ME AMA, BEM?"

              Oh! Baby, veja que miséria sou
              só tenho de bom o coração
              e esta barba, Baby,
              esta longa barba de profeta sacador
              e a gente aí na lua, na labuta, mayday
              socorro, amor, que não tenho mais direitos
              só deveres e cracias, are you crazy?

              Estou louco não, humanidade,
              quéde você que não me ouve?
              Cadê ouvidos para tanto barulho,
              onde estão os bichos, Baby, onde estão os bichos?

              Pensas acaso que já me fui?
              Engano seu, ó lucidez alviçareira das procelas
              no lírico espadanar dos algozes maquistelas,
              é lítero labor oral altissonante dos meus vermes!
              ó clangor dos vinte anos imberbes!

              Irei pro inferno, Baby,
              com minhas bugigangas e meus colares
              e pulseiras
              meus anési, minhas algemas
              de ripie doente e abandonado.
              Oh! Baby, como estou parafusado!

              Poderia retalhar meu corpo agora
              que não teria forças para distribuí-lo, Baby,
              "ninguém me ama, ninguém me quer,
              ninguém me chama
              de Baudelaire"*

              Que vontade de tomar Sundae
              nas Lojas Americanas
              sábado à tarde, a pelada na faculdade
              o sol inteiro, os jeans marcando as bundas
                                                                  [ apressadas
              a água correndo pelo corpo arrepiado
              e os reflexos das vidraças nos meus olhos
              os pára-brisas e os ray-bans, Baby
              e tua cristalina lente-de-contato me despindo.

              Que há de acontecer, menina,
              daqui a dois dias, quando Mercúrio
              transpuser a casa de Saturno?
              Deve ser por isso, Baby,
              que meus incisivos centrais estão caindo
              como estrelas de geléia no céu da boca,
              mas agora chega, Baby, basta.

              Vou tomar uma pinga no Tavares
               

              * Isabel Câmara
               
               

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