ALGUNS POEMAS SEM CABEÇA, TRONCO E MEMBROS

Antonio Barreto

 
nina alexandrina
Foto: Nina Alexandrina

 

UNIVERSO ON LINE

entre o real e o virtual
um dilema a menos:
ninguém sonhou
a pressa que nós temos.


 RITO DE PASSAGEM

dedo mole em tecla dura
tanto byte até que fura 


LÍNGÜIDA

Língua é o que me gluto como engulo
O luto do salário bruto e o hálito acre
Do estômago
Em estado dissoluto
Língua é o que dissolve e absolve
O pensamento em tais e tais
Palavrares do discurso:
Os sais do fruto os ócidos
Que digestam meu pronome em suco
O adverbo que se veste de aditivo
Substrato de meu cérebro: o muco
O cuspe salivário o intransitivo
Verbicovisualmalemaluco
Que às fezes se faz de glote
Epiglote e faringite
Para a fome da estatite
Língua,
Esse necessário árido
Silenciário
Depois do incurso
Quando me sais,
Ó língua, e passeais pelos campos
Gramaticais do lucro

Língua é o que me calo
Língua é o que me fere
Língua é o que me infere
Língua é o que me enguiça
Língua:
Meu pão-com-ovo
Meu caol, meu prato-feito
Meu angu-de-caroço,
Minha cachaça,
Minha lingüiça.


NADA

... palavra não existe ...
,,, não existe poema livro imagem
,,,, tela teclado bit byte
,,, painel scanner bat-but
,, out-door out-window
, não exist exit nem the and
,,, nem trama pincel tecido
,,, ópera vídeo dança
,,, teatro música tambor
,,, sino som ruído
,,, granada sirene letreiro
,,. guitarra quadrinho prisão
... nada disso existe ...
, o que existe é sua língua
,,, seu olho seu ouvido sua mão
. e seu nariz
, sua ideolinguagem
sua mental mitolinguagem
, de mutuns perpébiles
. ritos e mutagens
, essas babélicas interlinguagens
: essas lateralinguagens
que matam
, suas mensagens
: (matalinguagens)
simulacros dos simulacros
interagindo
teletrônica
mente
na semiosfera dos palíndromos
: e dos caligramas
simulábios de semilacres
de bocas assimiláveis
, no salivar silente
dos batráquios
. refalantes
, tudo isco esconso
, dissimulável
, na zona híbrida
e túrbida
do múltiplo
. bustrofédon
, O que passar disso não é
alma
. mas é tudo o mais
, O que ficar disso não é memória
. mas é o nada a mais ...


Ó POETAS,

Reinventai o sabão semiótico, o xampu semiológico
Para lavar de uma vez por todas esse giz tatibidático,
E esse verniz profano e cético do louculírico discurso.
Ó rosas horrorosas do vernáculo! Fujam para o reflexo
Para o métrico do quadrado onde está tudo
Quase claro e estúrdio!
E convoquem um maciste filológico
Para transportar ao sanatório dos lógicos
os teus assépticos distúrbios.
E verbai a textura da fome, a arquitetura do não
Porque muito byte para pouco insight
os males do Brazil são...
 


RESENHAS


no pantanel das debilidades
os plimplins dos toquistoques
os tijolinhos dos compadres
em rodapés escorraçados
riobaldos e severinos
manuelmente copiados
fazem coro com raimundos
alegremente copidescados
paralá dos ticoticos
o tricô das coisas poucas
no caderno de cultura
dos domingos rejornados
antes tardos do que nunca
essa nuca dos coitados
em rilises henry leases
horrivelmente copiados
e na academia dos analfas
finalmente os bem malhados.


SAIDEIRA

antes de ir-me
leve-me
mijo
na rua
e beijo
solene
a icelua.
Breve-me.

Antonio Barreto é um dos mais premiados poetas brasileiros contemporâneos. Já publicou dezenas de livros de poesia, literatura infantil, contos e romance. antonioba@uol.com.br

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