Ilustração: Nanja 

A FÁBULA DE QUÍRON
Antonio Brasileiro

    Quiron era um centauro. 
Um centauro que fazia o bem, que era 
amigo dos homens, o que o distinguia 
dos demais. Um dia os centauros travaram 
tremenda luta com  Héracles e este,  
acidentalmente, feriu Quíron com uma 
flecha. E Quíron era amigo de Héracles e 
Héracles era amigo de Quiron. Vãos  
foram todos os esforços para aplacar a 
dor do ferimento - pois incurável era o 
ferimento que uma flecha de Héracles 
provocava. E Quíron, pobre  Quíron, 
sofria dores terríveis, tão terríveis que 
passou a desejar ardentemente a morte. 
Mas Quíron, o bom centauro, era imortal. 
    Centauros eram animais 
mitológicos, metade cavalo, metade 
homem. Viviam livres nos montes 
alimentando-se de carne crua. Sua metade 
equina significava tanto quanto a outra , a 
humana - daí a estranha brutalidade do 
zooantropomórfico monstro. 
Embriagavam-se com frequência e 
raptavam mulheres. Sua metade humana - 
o tronco, os braços e a cabeça - brotavam 
do cavalo como uma flor no jarro. Na 
maioria das vezes o cavalo vencia: vencia 
a metade ausente do homem. Eram 
monstros hediondos e anti-socais, 
raptavam noivas e esposas, careciam 
ser exterminados. Mas Quíron era um bom 
centauro; amigo dos homens, ensinava-lhes 
música e moral. Acidentalmente o  
ferira Héracles, seu amigo. E sofria dores 
atrozes e desejava morrer. Mas Quíron, o 
bom centauro era imortal. 
O cavalo, companheiro histórico  
do homem, foi por excelência o meio de 
transporte. Poder-se-ia naturalmente
associar a invenção do centauro ao ideal
 
estratégico do cavaleiro perfeito, do 
autocavaleiro - do homem a cavalgar-se. 
Mas um centauro é muito mais profundo: 
é a luta do homem com suas vísceras. Ou,  
mais suscintamente, a batalha do cérebro 
contra os testículos. Quíron era um bom 
centauro - médico, poeta, moralista. 
Ferido imortalmente, ardia de desejos por 
morrer. Mas não podia. 
    Em todo ser as duas forças 
básicas, razão e instinto, só se 
harmonizam com a supressão de uma ou 
a sublimação das duas. Quíron, um 
moralista por certo dominara o ímpeto 
do quadrúpede. Fadado à sociedade - foi 
professor de Aquiles, de Asclépio e 
mesmo de Apolo - recebeu dela os 
aplausos: consideravam-no sábio. Mas 
uma dor enorme o abatia. Diasa fio, 
eternidade a fora, a carregar o sofrimento 
físisco. Uma noite, olhando uma  
constelação da Via Láctea, pensou na sua  
vida. Remorsos afloraram-lhes aos olhos, 
os lábios contorceram-se num soluço: que 
uma dor maior se avizinhavam. E Quíron 
disse: "Se a dor, essa terrível dor, 
o permitisse, desmancharia tudo o que já fiz, 
renegaria tudo o que ensinei. Pois a 
verdade, só agora a descobri." E, então, 
chorou. E desejou morrer, Quíron, o 
centauro mas não podia. 
    Morrer, para um iomortal, só era 
exequível havendo alguém que arcasse  
com a imortalidade. Conta-se o mito que 
o herói Prometeu, nascido um mortal e 
não querendo sê-lo, cedeu a Quíron o seu 
direito à morte. Quíron, enfim liberto, foi 
habitar no céu sob a forma da grande 
constelação de Sagitário. 

* Poeta, contista e romancista.