era o final da existência de um homem
que iria dizer da anterior. Atribui-se
a
Sólon, um dos setes sábios
tradicionais,
o ter afirmado que só na hora da morte
poderia alguém dizer se fora ou não
feliz.
Para nós, modernos, é difícil
aceitar
conclusão tão taxativa. Sobretudo
para
aqueles dentre nós que não conheceu a
experiência da morte prostada
na estrada,
à frente; ou pelo menos, a certeza de que
ela está lá - e com uma única finalidade,
que é esperar-nos. A sublime imaginação
poética dos gregos forjou um
personagem, cujo fim trágico, encerrando
uma poderosa força simbólica, se presta
ainda hoje a divagações, estudos e
espantos. Esse personagem foi Sísifo.
O destino de Sísifo guarda certa
semelhança com o de Prometeu: embora
de origem diversas (Sísifo era humano;
Prometeu, imortal), atuam ambos no
campo restrito na condição humana. Da
sina de ser humano - pois dessa forma é
que os poetas gregos viam a existência dos
homens, a compulsória e intransferível
existência dos homens. Prometeu,
inventor do homem, é severamente
condenado por Zeus por ter doado à sua
criatura o dom do discernimento. Sísifo,
humano, por ter vivido inteligentemente,
é, depois de morto, condenado por Hades
a rolar uma pedra até o alto da montanha.
Se o mito dissesse que a montanha
era interminável ou que o cume crescia
sempre e sempre, o símbolo guardaria por
certo alguma força; jamais, entretanto, a
força que detém como se nos é realmente
relatado. Pois o que nos relata o mito é
que, uma vez levada ao topo, a enorme
pedra rolava montanha abaixo tornando
vão todo o esforço de Sísifo. Sísifo, o
condenado, transporta mais uma vez seu
triste fa(r)do - que, uma vez mais, e
sempre, e eternamente, rolará da
montanha, montanha abaixo.
Às vezes nos perguntamos como
podiam os gregos mostrar-se tão cheios
daquela esfusiante alegria, quando o
conhecimento do destino implacável
rondava por tão perto. A vitalidade e
juventude de algumas de suas peças de
arte, mormente na escultura e nos
desenhos dos vasos, dá-nos de início a
impressão de que era um povo que
desconhecia a dor, ou não lhe dava
importância. Mera impressão, todavia.
Eram homens como todos nós ; ou
melhor: como poucos de nós. O
profundo conhecimento das duas faces da
moeda é que os fazia optar por aquela , a
que bebia e dançava.
Possivelmente um grego dessa
estirpe não haveria de ter enxergado de
modo diverso do de um moderno
dessa mesma estirpe; sua adoção a
Dionísio (o deus do vinho) seria
realmente a mais sensata atitude de um
homem forte. A ausência atual desse deus
por certo que dificulta um pouco a
travessia; mas os deuses, que são
entidades - portanto projeção do querer -
prescindem hoje em dia de um nome
particular. É possível pois, em sendo de
estirpe, dar a mão a um grego de estirpe e
optar pela face sadia da moeda. E, ainda
assim, não ser coxo: mas íntegro,
sobretudo pela consciência da decisão
tomada. O mito de sísifo é a verdade do
homem.
A dor do Édipo era pânica e
o
pânico já não tem lágrimas. A dor de
Pormeteu era bélica: ou a sua justiça ou a
do outro. Embora derrotado Prometeu
sabia perfeitamente que não cometera
erro algum, por isso alimentava-o a hybris,
seu prórpio orgulho. Mas Sísifo, esse, não
tinha escolha. Era preciso rolar a pedra
até o topo, com todas as forças que lhe
restassem- que sempre haveria de restar -
mesmo sabendo que seria inútil o gesto:
a pedra haveria e rolar montanha abaixo,
inevitavelmente, pela eternidade a fora
montanha abaixo.