ilustração: Julio Saens
          Ilustração de Julio Saens

          Sísifo
           Antonio Brasileiro

              Para um grego dos mais antigos,
      era o final da existência de um homem
      que iria dizer da anterior. Atribui-se a
      Sólon, um dos setes sábios tradicionais,
      o ter afirmado que só na hora da morte
      poderia alguém dizer se fora ou não feliz.
      Para nós, modernos, é difícil aceitar
      conclusão tão taxativa. Sobretudo para
      aqueles dentre nós que não conheceu a
      experiência da morte prostada na estrada,
      à frente; ou pelo menos, a certeza de que
      ela está lá - e com uma única finalidade,
      que é esperar-nos. A sublime imaginação
      poética dos gregos forjou um
      personagem, cujo fim trágico, encerrando
      uma poderosa força simbólica, se presta
      ainda hoje a divagações, estudos e
      espantos. Esse personagem foi Sísifo.
            O destino de Sísifo guarda certa
      semelhança com o de Prometeu: embora
      de origem diversas (Sísifo era humano;
      Prometeu, imortal), atuam ambos no
      campo restrito na condição humana. Da
      sina de ser humano - pois dessa forma é
      que os poetas gregos viam a existência dos
      homens, a compulsória e intransferível
      existência dos homens. Prometeu,
      inventor do homem, é severamente
      condenado por Zeus por ter doado à sua
      criatura o dom do discernimento. Sísifo,
      humano, por ter vivido inteligentemente,
      é, depois de morto, condenado por Hades
      a rolar uma pedra até o alto da montanha.
              Se o mito dissesse que a montanha
      era interminável ou que o cume crescia
      sempre e sempre, o símbolo guardaria por
      certo alguma força; jamais, entretanto, a
      força que detém como se nos é realmente
      relatado. Pois o que nos relata o mito é
      que, uma vez levada ao topo, a enorme
      pedra rolava montanha abaixo tornando
      vão todo o esforço de Sísifo. Sísifo, o
      condenado, transporta mais uma vez seu
      triste fa(r)do - que, uma vez mais, e
      sempre, e eternamente, rolará da
      montanha, montanha abaixo.
                Às vezes nos perguntamos como
      podiam os gregos mostrar-se tão cheios
      daquela esfusiante alegria, quando o
      conhecimento do destino implacável
      rondava por tão perto. A vitalidade e
      juventude de algumas de suas peças de
      arte, mormente na escultura e nos
      desenhos dos vasos, dá-nos de início a
      impressão de que era um povo que
      desconhecia a dor, ou não lhe dava
      importância. Mera impressão, todavia.
      Eram homens como todos nós ; ou
      melhor: como poucos de nós. O
      profundo conhecimento das duas faces da
      moeda é que os fazia optar por aquela , a
      que bebia e dançava.
               Possivelmente um grego dessa
      estirpe não haveria de ter enxergado de
      modo diverso do de um moderno
      dessa mesma estirpe; sua adoção a
      Dionísio (o deus do vinho)  seria
      realmente a mais sensata atitude de um
      homem forte. A ausência atual desse deus
      por certo que dificulta um pouco a
      travessia; mas os deuses, que são
      entidades - portanto projeção do querer -
      prescindem hoje em dia de um nome
      particular. É possível pois, em sendo de
      estirpe, dar a mão a um grego de estirpe e
      optar pela face sadia da moeda. E, ainda
      assim, não ser coxo: mas íntegro,
      sobretudo pela consciência da decisão
      tomada. O mito de sísifo é a verdade do
      homem.
                 A dor do Édipo era pânica e o
      pânico já não tem lágrimas. A dor de
      Pormeteu era bélica: ou a sua justiça ou a
      do outro. Embora derrotado Prometeu
      sabia perfeitamente que não cometera
      erro algum, por isso alimentava-o a hybris,
      seu prórpio orgulho. Mas Sísifo, esse, não
      tinha escolha. Era preciso rolar a pedra
      até o topo, com todas as forças que lhe
      restassem- que sempre haveria de restar -
      mesmo sabendo que seria inútil o gesto:
      a pedra haveria e rolar montanha abaixo,
      inevitavelmente, pela eternidade a fora
      montanha abaixo.

      * Poeta, contista e romancista.

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