Poesia é nomear, transitar pelos
interstícios, entre os nomes e as coisas.
Mas, será sempre assim para os
poetas e os psicóticos ? Poderiam esses últimos recorrer ao fingimento da ficção ? Lúcia Castelo Branco é a
organizadora desse instigante "Coisa de louco", resultado de uma pesquisa:
"A Devoração da imagem: o poético e o psicótico", empreendida entre 1991/95
com financiamento do CNPq. A Pesquisa se desenvolveu a partir de entrevistas com pacientes
psiquiátricos da Central Psíquica e do Instituto Raul Soares, bem como das oficinas de
letras realizadas naqueles dois espaços , com objetivo de examinar as fronteiras e
as relações entre a escrita e a loucura, especificamente a psicose.Tomando o cuidado de
não enveredar pelo banal, como tentar estabelecer o quanto de poesia haveria na loucura e
vice-versa, os autores buscaram antes examinar os fenômenos de linguagem presentes na
psicose e relacioná-los com o texto poético. Eles trabalharam sobre textos de Sebastião
Nunes, Manoel de Barros, Gabriela Llansol e retomaram as reflexões de Lacan sobre a obra
de James Joyce, além dos escritos de Arthur Bispo do Rosário. Os trabalhos tratam da
relação entre as palavras e as coisas. A palavra como própria coisa, tomada em
uma materialidade alcançada no texto poético tal como tratado na obra, parece
apontar uma tangência entre os dois pontos fundamentais da investigação,
onde o texto se conduziria segundo melodia e ritmo e não pela coerência de uma relação
entre significante e significado.Poder-se-ia pensar uma palavra-coisa na psicose ? A voz neste con/texto é também
tematizada, como lembrança de um gozo do texto, como uma "escritura
vocal" , inspirada na arte da retórica grega, que tinha na actio, a
parte que consistia na representação vocal de um texto por meio da dicção e de um
"misto erótico de timbre e linguagem". A função estabilizadora da escrita
para certos sujeitos, ainda que não declaradamente loucos, é uma das questões que estes
textos nos deixam.Há ainda a reprodução de uma entrevista datilografada de Maria Lúcia
com o poeta Manoel de Barros intitulada "Em Idioleto Manolês Archaico" que é,
como ele mesmo explica, o dialeto que os idiotas usam para se comunicar com as
coisas.Participam do livro além da organizadora, Musso Garcia Greco, Maria Angélica
Melendi, Ivan Cupertino, Branca Eliane Bittencourt, Myriam Dorothéa Saliba, Cinara de
Araújo e Cynthia Barra. Prefacio de E.M. de Castro Melo. O livro foi produzido com apoio
da lei 6469/93 de incentivo à Cultura.Os interessados devem fazer contato com o Espaço
Cultural Artaud, situado à rua Ramalhete 499, Serra. Telefone 227-7454.