CATAGUASES
para Carlos Drummond de Andrade
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos
iguais,
cidade européia de ruas
retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos,
sempre bonitos;
Nem Juiz de Fora. Ruído.
Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglêsa* de céu
esfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Prêto, cidade
morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas
continuam a tradição das coisas
[ que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar,
para não desmanchar o passado
[ arrumadinho;
Nem Estrêla do Sul, a
sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos
de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades
arrivistas de gente que não
[ pretende ficar.
Nã-o ! Cataguazes...
Há coisa mais bela e serena oculta
[ nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência
das cidades
que nunca foram, que não
cuidam de ser.
Não sabes, não
sei, ninguém compreenderá jamais o que
[ desejas, o que serás.
Não és do passado,
não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas
Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu,
nem invasão americana
[ de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas
casas mineiras feitas na previsão de
muitos hóspedes.
Não há em ti o
terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem ramerrão dos bondes
atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui
estêve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos
padeiros.
Nem a buzina incômoda
dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o
leite em burricos,
os padeiros deixam o pão
à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de ter só
gente conhecida faz teu habitante voltar-se
[ para cumprimentar todos que passam.
Delícia de não
encontrar estrangeiros de olhar agudo, esperto
[ mau, a suspeitar riquezas nas terras.
Alegria dos Fordes brincando
(são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhos
numa só garagem).
Jacaré !
João Arara!
João Gostoso !
teus tipos populares.
A criançada atira-lhe
pedras e êles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas
ruas, às tardes, sem perigo
[ de veículos,
papagaios que se embaraçam
nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios
nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas
passeiam meia hora só antes
[ no cinema.
Ar môrno e sensual de
voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando
as goteiras pingam nos
[ passantes
e batem isócronas nos
passeios furados.
Há em ti a delícia
da vida que passa porque vale a apena passar,
que passa sem dar por isso,
sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranquilo sem
guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranquilo como
o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem pêso inútil
de recordações
Mas confiança que nasce
das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
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Poesia