A Escritora Clarice
Lispector, autora do conto Sra. Jorge B. Xavier |
SRª.
JORGE B. XAVIER: A PROCURA DE UMA DIGNIDADE |
Bárbara Marques
O texto de Clarice Lispector, dentre todas as características
possíveis, é um texto que dissemina sua linguagem de tal forma que o problema da
existência humana passa a ser o próprio objeto da ficção. Torna-se, portanto, um
problema não apenas existencial, mas da própria ficção: a literatura clariceana passa,
assim, a ser totalmente introspectiva, já que se volta sobre si mesma; a ação narrada
deixa de ser um evento ou acontecimento e começa a ser o problema vivido por suas
personagens. Em conseqüência, as dimensões mais profundas da mente, onde muitas vezes
aparecem mergulhadas em dúvidas e inquietações, vão tornar o texto de Clarice a
própria narrativa do ser.
O tempo na narrativa clariceana é transformado no tempo mental de suas
personagens, o narrador caminha conforme o pensamento destas, por isso ele será mais uma
extensão do inconsciente do que a realidade cronológica. A literatura experimental ou
ensaística de Clarice se observa como a busca do existencial, permeada na essência
humana onde o tempo vivo se concentra no espaço da consciência. A propósito de Massaud
Moisés:
Na verdade, Clarice Lispector representa na
atualidade literária brasileira (e mesmo portuguesa) a ficcionista do tempo por
excelência: para ela, a grande preocupação do romance (e do conto) reside no criar o
tempo, criá-lo aglutinado às personagens. Por isso correspondem suas narrativas a
reconstruções do mundo não em termos de espaço mas de tempo, como se, aprendendo o
fluxo temporal, elas pudessem surpreender a face oculta e imutável da humanidade e da
paisagem circundante.
A linguagem da autora também dá margem a uma análise poética, uma
vez que se utiliza de palavras comuns, dando-lhes sentido diverso, imprevisto e quase
sempre chocante, pois condensa o mundo num grito, numa imagem, repleta de som, de ritmo,
sendo, nesse sentido, simbólica e representativa. Assim, a obra de Clarice Lispector se
insere na Literatura Brasileira como uma narrativa lírica. Para tanto, a realidade
ficcional de seus textos permite uma surpresa perturbadora, onde irá se dividir entre
fato concreto e imaginação. Esse lirismo aparente nas obras de Clarice se dá antes por
uma ânsia de exprimir sensações através da submissão de palavras à compreensão de
vários sentidos do que a preocupação em escrever o certo, no lugar certo e no momento
exato.
Então escrever é o modo que tem a palavra como
isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra morde a isca,
alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio se
jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia; a não palavra, ao morder a isca,
incorporou-a. O que salva então é ler e distraidamente.
O fato do narrador nas obras clariceanas se expressar sob forma de
reflexão, daí possuir esse caráter ensaístico, faz com que a narrativa se fragmente
não tendo uma linearidade vigente própria aos modelos tradicionais. O fio condutor do
enredo criado pela autora já não possui começo, meio e fim, parecendo-se mais um
monólogo interior com representações nítidas do poder das sensações. O pensamento
das personagens se transforma em palavras e estas criam imagens e percepções.
Para Clarice, escrever era o modo que o escritor tinha de exprimir o
"eu", era buscar a si mesmo, descobrir-se no ato da escritura. O escritor já
não tinha o compromisso de pregar e apregoar alguma coisa, não possuía mais o desejo de
engajar o leitor em seus ideais, e sim intencionava fixar na materialidade da palavra o
abstrato da vida e a realidade inexprimível.
Eu tenho à medida que designo e este é
o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo
designar: A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la
e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que
instantaneamente reconheço. A linguagem é meu esforço humano. Por destino volto com as
mãos vazias. Mas volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do
fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela
não conseguiu.
As personagens criadas por Clarice irão se descobrir num mundo
absurdo, de insegurança e incerteza, banhado por uma incrível impossibilidade de ser e
existir; é esse o conflito latente de suas personagens, em especial as pertencentes ao
universo feminino. A predominância de tipos femininos na obra de Clarice revela uma
exaustiva busca pelo próprio sentido de sua existência através de personagens tensas,
complexas e quase sempre decepcionadas com a realidade cotidiana. O "eu" de suas
personagens não se realiza, daí começa uma busca incessante por uma identidade que irá
lhes permitir uma viagem interior, cujo caminho é por vezes fatídico, desgastante e
assustador, levando-as a situações de profundo esgotamento.
Contudo, é este esgotamento que faz com que essas personagens
mergulhem numa nova realidade, é o momento sonhador, momento este em que se descobrem. As
mulheres clariceanas vivem à beira do desmaio, do êxtase, como se a qualquer instante
algo acontecesse e as elevasse a um momento único e iluminado, uma revelação interior
que chega subitamente, causando-lhes uma deliciosa estranheza que se manifesta sob forma
de explosão espiritual, um encantamento deslumbrante. A este "instante mágico"
se referem os críticos como o famoso momento de epifania, estado em que as personagens
atingem a sua plena lucidez, é o minuto de sublimação. Entretanto, não é este apenas
um instante revelador, mas o princípio de funcionamento da narrativa. É a partir desse
abrilhantamento que a narrativa atinge o seu pico de ação, ao contrário dos modelos
tradicionais que são regidos por fatos concretos; no caso de Clarice, principia a hora da
descoberta, e em conseqüência desse momento de luz é que a ação vai se inserindo
lentamente, conforme o fluxo do pensamento das personagens. As personagens são antes um
modelo interior do que composições físicas, os detalhes exteriores são explorados por
Clarice de maneira a estender algum tipo de frustração do próprio ser. As mulheres são
construídas a partir de estereótipos tradicionais para por fim se despersonalizarem,
pois é justamente em tipos comuns que a autora procura representar as crises
existenciais. Episódios comuns são o ponto de partida da narrativa clariceana, cujos
temas se misturam quase que constantemente entre a busca pela identidade, a repulsa do
trivial e a indesejabilidade da velhice, no caso das personagens femininas.
No conto "A procura de uma dignidade", objeto de análise
deste trabalho, a personagem Srª Jorge B. Xavier é a alavanca desse traço existencial e
filosófico. A submissão da mulher à sombra de um casamento convencional, unida à
condição física e emocional da personagem em relação ao seu envelhecimento,
representam duas vertentes de análise do conto.
Segundo Julio Cortázar, a qualidade do conto é visível quando
contém uma explosão de energia espiritual, baseado num tema que pode ser significativo
ou não, dependendo, portanto, do tratamento dado a esse tema, da técnica empregada para
desenvolvê-lo. Para ele, o que o contista deve explorar e o que se faz relevante no conto
é a profundidade de sensações; o tempo e o espaço, nesse caso, tem de estar
condensados, submetidos a uma alta pressão espiritual.
É isso que ocorre no conto em questão, o narrador (em 3ª pessoa)
parte de um episódio aparentemente sem importância para se aprofundar em forças que
vão além do inteligível, da racionalidade, deixando suas palavras materializarem todo o
estado de crise da Srª Jorge B. Xavier. Esta personagem irá buscar com o mais alto grau
de sensibilidade a sua própria identidade, perdida em um dado momento que nem ela mesma
consegue definir, como se, tudo que ela vivera até ali fosse em vão, sem sentido. Ela
"acorda" depois de muitos anos, com quase setenta e percebe que o tempo passou
no seu corpo, porém não em sua alma.
No início do conto já se evidencia a falta de identidade representada
pela ausência do nome da personagem, designada apenas sob o nome do marido, Srª Jorge B.
Xavier, um subterfúgio que irá caracterizar todo o estado de insegurança e, sobretudo,
sua condição secundária no casamento: "A Srª Jorge B. Xavier simplesmente não
saberia dizer como entrara." Nota-se aqui, não somente sua dependência como sua
desorientação, mesmo que aparentemente geográfica, mas que, na verdade, vai se estender
por todo o seu estado emocional.
O narrador irá simbolizar a incessante busca da personagem através de
repetições de palavras e da criação de imagens que acompanharão a narrativa,
demonstrando todo sofrimento desta em encontrar "uma porta de saída" (termo
usado constantemente no conto).
A imagem do Estádio do Maracanã vazio, imenso, com vários corredores
que levam a portas fechadas é utilizado para simbolizar o próprio espaço oco da
personagem dentro de sua realidade:
Andava interminavelmente pelos subterrâneos do
estádio do Maracanã ou pelo menos pareceram-lhe cavernas estreitas que davam para salas
fechadas e quando se abriam as salas só havia uma janela dando para o estádio (...)
Então a senhora seguiu por um corredor sombrio. Este a levou igualmente a outro mais
sombrio.
"Oco" é, ao mesmo tempo, palavra e imagem utilizada
freqüentemente, designando tanto o estado em que se encontrava o Maracanã quanto a
condição da personagem.
O narrador toma palavras ou expressões como "porta de
saída", "fora", "dentro" e "labirinto" para
representar a idéia de movimento. Estas vão se confrontando e consegue-se ter a nítida
impressão da procura da Srª Jorge B. Xavier. Observa-se, por exemplo, que
"labirinto" é a própria imagem da busca pelo nascer de novo que não cessa, a
busca pela "porta de saída".
Outras expressões que produzem o sentido de movimento ocorrem quando o
narrador faz menção ao tempo cronológico. As estações do ano dão ao conto uma
circularidade, tornando labiríntico, dessa forma, não apenas a estrutura da narrativa,
como também o próprio percurso da personagem. Além disso, as referências temporais
equivalem ao estado psicológico da Srª B.Xavier:
Estava vestida de lã muito grossa e sufocava suada
ao inesperado calor de um auge de verão, esse dia de verão que era um aleijão do
inverno.
Lembrou-se de que era mês de agosto e diziam que agosto dava azar.
Mas setembro viria um dia como porta de saída. E setembro era por algum motivo o mês de
maio: um mês mais leve e transparente.
Estas referências ao tempo são sempre deslocadas como a própria
personagem se sente e se define, "fruto fora da estação."
O uso corrente de uma linguagem circundante no conto "A procura de
uma dignidade" remete à condição estrutural deste e ainda à condição emocional
da Srª Jorge B. Xavier, que passa por etapas de descoberta mas volta ao conformismo no
final. Também as repetições de palavras realizam na construção do texto a imagem do
labirinto, enfatizando o caráter cíclico da narrativa.
A resignação da personagem diante da vida se confronta
interminavelmente com o instante em que encontrará a porta de saída: "As pernas lhe
doíam, doíam ao peso da velha cruz. Já se resignara de algum modo a nunca mais sair do
Maracanã e a morrer ali de coração exangue."
Outras passagens simplistas revelam não somente o seu conformismo como
a condição secundária que assume, como por exemplo, o fato do narrador sempre dizer
"que a vida dela era assim mesmo": "Ela quis explicar que sua vida
era assim mesmo, mas nem sequer sabia o que queria dizer com o "assim mesmo" nem
como "sua vida", nada respondeu."
Por inúmeras vezes a narrativa se torna hostil conforme o narrador vai
acompanhando o fluxo e o desespero do pensamento da Srª Jorge B. Xavier. Isto se torna
bastante visível ao passo que a indesejabilidade da velhice vai assumindo maior
relevância, opondo-se assim ao seu aparente conformismo, pois o fato da personagem se
repudiar diante de seu corpo velho, flácido, seco, retoma a idéia de incapacidade diante
da vida, deixando-a mergulhar na complexidade do vazio, do "oco".
De pé no banheiro era tão anônima quanto uma
galinha.
Numa fração de fugitivo segundo quase inconsciente vislumbrou que
todas as pessoas são anônimas. Porque ninguém é o outro e o outro não conhecia o
outro. E agora estava emaranhada naquele poço fundo e mortal, na revolução do corpo.
Corpo cujo fundo não se via e que era a escuridão das trevas malignas de seus instintos
vivos como lagartos e ratos. E tudo fora de época, fruto fora de estação? Por que as
outras velhas nunca lhe tinham avisado que até o fim isso podia acontecer? Nos homens
velhos bem vira olhares lúbricos. Mas nas velhas não. Fora de estação. E ela viva como
se ainda fosse alguém. Ela que não era ninguém.
A Srª Jorge B. Xavier não era ninguém.
Junta-se ao conformismo da personagem a questão do envelhecimento,
sendo este inserido no conto como o diagnóstico da repulsa, do nojento: "Por fora
viu no espelho ela era uma coisa seca como um figo seco. Mas por dentro não
era esturricada. Pelo contrário, parecia por dentro uma gengiva úmida, mole assim como
gengiva desdentada."
A problemática do envelhecimento da Srª Jorge B. Xavier se evidencia
em vários momentos da narrativa. O figo seco se assemelha ao corpo flácido. A imagem
tradicional da velhice associada à secura é retomada por Clarice: secura da pele e de
fluidos. A personagem se dá conta de como suas mudanças físicas causam estranheza a si
mesma e aos outros, tendo por vezes medo de parecer ridícula:
E agora era apenas a máscara de uma mulher de
setenta anos. Então sua cara levemente maquilada pareceu-lhe a de um palhaço.
Seus lábios levemente pintados ainda seriam beijáveis? Ou por
acaso era nojento beijar boca de velha?
Diferentemente, a jovialidade é representada como o úmido: a
"gengiva úmida". Por dentro, ela não se sentia esturricada como por fora.
Estas imagens estão também associadas de forma clara à sexualidade da Srª Jorge B.
Xavier.
No conto, esta sexualidade é, além de, um momento de descoberta da
identidade feminina da personagem, também um refúgio para todo estado de confusão
mental em que se encontrava. Brincar com jogos de sedução é uma forma dela se permitir
entrar num mundo de sonho. Embora a Srª Jorge B. Xavier reconheça neste mundo de sonho
uma ilusão passageira, é lá que irá encontrar um descanso para o estado de profundo
desespero em que se vê mergulhada.
Isso se dá no instante em que toma como modelo de sensualidade a
figura de Roberto Carlos, a quem ela chama carinhosamente de "Robertinho
Carlinhos".
Mas tudo que lhe acontecera ainda era preferível a
sentir "aquilo". E aquilo veio com seus longos corredores sem saída.
"Aquilo", agora sem nenhum pudor, era a fome dolorosa de suas entranhas, fome de
ser possuída pelo inalcançável ídolo de televisão. Não perdia um só programa dele.
Então, já que não pudera se impedir de pensar nele, o jeito era deixar-se e relembrar o
rosto de menina-moça de Roberto Carlos, meu amor.
Veja que, quando o narrador usa a expressão "aquilo" aponta
a sexualidade de forma castrada, é preferível dizer "aquilo" ao invés de
sexo, pois a Srª Jorge B. Xavier sempre fora mulher de boa educação, então o permitido
era pensar, talvez, "naquilo". E pensar "naquilo" com o ídolo de
televisão era agora o seu desejo concebido. Querer Roberto Carlos é fugir da realidade
de se ter quase setenta anos e não poder desfrutar de um desejo sexual.
A sexualidade da personagem é tão calada e casta quanto sua
identidade. Ao mesmo tempo em que não sabe quem é, também não conhece seu corpo, por
isso descobrir esta sexualidade é se descobrir.
No momento em que se deixa iludir com a sedução, tem-se a impressão
de que ela está além de todo o profundo desespero emocional vivido em função de seu
estado secundário diante da vida.
A figura de Roberto Carlos representa, desse modo, a sublimação, a
necessidade de fuga, embora ela soubesse que não adiantava fugir, pois no mundo real
precisaria viver castradamente, sendo apenas a Srª Jorge B. Xavier.
Então quis ter sentimentos bonitos e românticos em
relação à delicadeza dele, o que apenas a levava a um corredor escuro de sensualidade.
E a danação era a lascívia. Era fome baixa: ela queria comer a boca de Roberto Carlos.
Não era romântica, ela era grosseira em matéria de amor.
Na passagem acima, o "corredor escuro" simboliza a descoberta
da sexualidade da personagem, contudo, ela percebe que confessar o desejo sexual era o
mesmo que deixar de ser o que fora em toda sua vida: sensata, preservada e, sobretudo,
pura. O sexo, nesse instante, associa-se à vulgaridade, ao sujo e ao impuro. A libido se
torna sua punição.
O dever de abstenção da personagem em relação a sua sexualidade se
confronta freqüentemente com a descoberta do desejo. A Srª Jorge B. Xavier está sempre
sufocada pelos seus sentimentos, o gozo em se encontrar se submete à pureza de sua
forçada castidade: "De novo se emaranhou no desejo que era retorcido e
estrangulado."
Não há dúvida de que estava cansada, exausta de tanto viver
secretamente, escondendo- se atrás de uma imagem que ela mesma não saberia dizer de quem
era; o corpo já havia se submetido à condição de velho, ressequido, mas sua alma ainda
poderia dar bons frutos. Ainda possuía muitos sentimentos, porém não havia mais tempo
para ela. A Srª Jorge B. Xavier já se resignara a viver naquelas condições, não tinha
mais força para fazer brotar uma nova mulher, na verdade, a Srª Jorge B. Xavier já se
conformara até mesmo com sua morte. Para ela, não possuir identidade própria é o mesmo
que não ser ninguém; a morte, nesse caso, é indiferente. Existir já não faz mais
sentido, ela estava acostumada a viver secretamente.
O estado de submissão desta personagem de Clarice Lispector é tão
intenso que até mesmo quando o narrador descreve sua resignação diante do inevitável,
no caso da morte, deixa transparecer que nem esta será diferente. Ela também morrerá
secretamente, palavra esta que globaliza em toda a narrativa a condição expressiva de
submissão que faz com que a personagem se deixe mergulhar num estado de crise.
Então a senhora pensou o seguinte: na minha vida nunca
houve um clímax como nas histórias que se lêem. O clímax era Roberto Carlos.
Meditativa, concluiu que iria morrer como secretamente vivera. Mas também sabia que toda
morte é secreta.
Do fundo de sua futura morte imaginou ver no espelho a figura cobiçada de Roberto Carlos,
com aqueles macios cabelos encaracolados que ele tinha. Ali estava, presa ao desejo fora
de estação assim como o dia de verão em pleno inverno. Presa nos emaranhado dos
corredores do Maracanã. Presa ao segredo mortal das velhas. Só que ela não estava
habituada a ter quase setenta anos, faltava-lhe a prática e não tinha a menor
experiência.
Mesmo estando à beira dos seus setenta anos, a personagem não tinha
experiência alguma, ela que não vivera até ali, apenas havia sobrevivido. A Srª Jorge
B. Xavier estava presa à condição de não ser ninguém.
Na passagem acima, o narrador praticamente encerra o conto, retomando
todo o movimento circular da estrutura da narrativa, bem como o estado de busca da
personagem, trazendo consigo a sexualidade, o conformismo, a velhice e a falta de
identidade.
Com efeito, a ênfase dada à palavra "presa" é a
representação aguda da condição da personagem e também da estrutura narrativa. Estar
presa significa fazer parte de um ciclo e não ter como sair dele. Assim sendo,
consolida-se a falta de caminhos ou "portas de saída" para esta personagem.
A Srª Jorge B. Xavier irá, portanto, conformar-se com a única
"porta de saída" possível para sua falta de existência, a morte: "Foi
então que a Srª Jorge B. Xavier bruscamente dobrou-se sobre a pia como se fosse vomitar
as vísceras e interrompeu a sua vida com uma mudez estraçalhante: tem! que! haver! uma!
porta! de saíííííída!."
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