RETRATOS PARA
O MESMO DIA

Carlos Alberto Castelo Branco

( para Carlos Alberto de Almeida Dias)

 
Julio Saens
Ilustração de Julio Saens

É como eu lhe digo: no começo vão comentar que você não chega nem aos meus pés, mas irão se acostumando, só depende de você. Procure conhecer bem o equipamento, veja como a luz impressiona o papel, meça o tempo de exposição, pressione o disparador com segurança. Mantenha o letreiro acesso, à noite. Mude, de vez em quando, as fotos expostas na vitrine. Nunca tire retrato de vagabundas. Fotógrafo entra na casa das pessoas. Não é bom, nem mesmo, ser visto na sinuca, muito, ou em rodas de cachaça.
   Antes de fotografar anjinhos, aprenda a se comportar em batizados, aniversários e casamentos. Recuse, com jeito, qualquer bebida que lhe oferecerem. Se insistirem, diga, com modéstia : "Obrigado. Depois que terminar meu trabalho, talvez".
Importante: evite acerto para fotografar gente que namora há pouco tempo. Importante: nunca entre em campanha política. Importante: nunca fique muito tempo, só você e ela, com uma moça solteira, dentro do estúdio, nem com viúva, nem com desquitada, nem com mulher casada.
   Case e ensine sua mulher a lidar com o material de revelação e a atender aos clientes, no balcão. Não jogue fora os negativos, que devem ficar na mesma gaveta onde ficam os envelopes com as cópias prometidas. Alguns minutos de procura organizada darão a todos a certeza de que você tem trabalho e competência.
   Um dia, então, você será chamado para fotografar um anjinho e será recebido, na sala, pelo pai da criança morta, e ele lhe dirá: "Por favor, por aqui".
   No cômodo contíguo, o anjinho estará vestido de branco, num pequeno caixão azul, mãos algemadas num rosário de cor neutra. Cumprimente a mãe: "Meus sentimentos, senhora". Você notará que ela tem no rosto alguma coisa da Virgem Maria, ao alisar os cabelos da criança. O pai balançará a cabeça, anuindo, e perguntará : "Como o senhor acha que fica melhor?"
   Não se impressione com a suavidade que enche a sala. No começo, fiquei chocado ao suspeitar o orgulho contido nos pais de anjinhos; mas, com o tempo, vi que eles sentem, nessas mortes prematuras, uma participação direta de Deus, sua presença que dói e consola ao mesmo tempo, extinguindo os sobressaltos de uma vida levada inteira para a eternidade.
   A criança parece que dorme. Os irmãos fazem barulho, impacientes com o espaço ocupado por uma criatura tão fugaz. Repreensão do pai: "Quietos! Vocês não têm um pingo de sentimento?" Aproveite o ar sério que ele faz e
acione o disparador, pegando todo o grupo, inclusive as crianças, que ficarão imóveis enquanto a voz do pai soar em suas mentes. Peça que o pai levante um pouco o caixão; enquadre o rosto e o corpinho do anjo.
Tranque-se no laboratório e trabalhe firme e celeremente, enquanto todos estiverem no cemitério. Use um fixador de qualidade, pois as cópias devem durar para sempre. O pai andará com uma na carteira, a mãe terá várias cópias sobre os móveis. Faça uma dúzia no tamanho 12 x 20. Essas irão para o correio, com dedicatória: "Uma recordação de nosso anjinho, que hoje repousa na morada do Senhor".
   O pai terá sempre uma cópia na carteira, como eu disse, e mostrará às pessoas, que dirão : "Tão serena. Parece que dorme". Ele terá, também um sorriso bobo, ao dizer : "Parece que dorme". A cada ano, mostrará a fotografia e dirá : "Se viva fosse, estaria fazendo tantos anos". E completará: "Uma moça". Os irmãos aprenderão a viver aquela presença crescentemente mais forte, e sorrirão, complacentes, quando o pai disser: "Se viva fosse, estaria fazendo tantos anos". Eles sentirão uma ponta de inveja daquela vida curta que se estende pelo infinito, sem defeito, como a foto que se multiplica em porta-documentos, molduras e porta-retratos. Você, a essa altura, estará firmado na profissão. Toda vez que o pai mostrar a foto do anjinho e alguém elogiar, ele dirá : "Verdade, parece que dorme. Quem bateu a foto foi fulano, rua tal, número tal".

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