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À
MODA
DA CASA |
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um
conto de Carlos Alberto Castelo Branco
Maria me insultava com sua indumentária insana e instável, trouxa de roupas
misturadas, algumas manchadas, recolhidas, sem critério, do fundo do baú de
nossas lembranças.
Desvendei aos poucos seu código de panos, sapatos gastos e blusas de
renda,
organdi e tafetá,assustando-me, a princípio, com a imposição, sobre seus cabelos,
de um velho chapéu de tela, vermelho, com uma ridícula pena de avestruz que,
agora eu sei, acenava minha intransigência em matéria de pouca importância e
reduzido gasto : " Ah, é ?" , foi só o que ela disse, encerrando a discussão
e
debandando para o quarto vazio de filhos onde guarda suas mágoas e de onde só
saíu à tarde.
Leio muito, mas no jantar percebi a peça insólita, receando que
alguma penugem
me caísse na sopa. Minha primeira reação foi rir, pois todo mundo sabe que não se
usa chapéu dentro de casa, muito menos um chapéu antigo e, menos ainda, um
chapéu antigo e engraçado como aquele, mas Maria derreteu o meu sorriso com
um olhar.
Como sempre, acatei a mania de Maria e incorporei à visão que tenho
da vida
aquele adereço que ela usava de dia , escovava de noite e entronizava na penteadeira
na hora em que ia dormir seu sono de pedra, e ao qual veio se juntar uma blusa de
brocado, verde e roxa, repleta de vidrilhos, imagem de sua avó, superposta à
camiseta de malha desde o dia em que ela me perguntou qualquer coisa e eu disse que não,
não podia concordar com o que ela me pedia : "Ah, é?".
Neguei-me a sair com ela e me refugiava na rua, onde me alcançavam
levemente os comentários sobre o ar seguro com que Maria falava mal de mim, quando
alguém lhe perguntava que diabo de roupa é essa, criatura? A lucidez de Maria
era tão visível que, ao fim de sua exposição, me diziam, as pessoas concordavem
com ela, embora recriminassem veladamente as formas de sua reação, principalmente o
chapéu.
É horrível suspeitar-se do equilíbrio de um parceiro, supondo-lhe
uma mente
gelatinosa e coalhada, o que me induziu a tentar recuperar Maria, mais para ela do
que para mim, esforço inútil. Quando sugeri uma assistência profissional, evitando
dizer a palavra, Maria respondeu :
"Ah, é?". Pouco depois saía do quarto com um sapato de camurça, salto grosso,
alto, bico quadrado, coisa que deve ter feito muito sucesso algum dia, mas a
moda passa.
Maria me refletia como um homem bruto, insensível às delicadezas da
vida em
comum, mesquinho, intransigente, avaro, de amor flácido e escorregadio, conceitos
que me afastavam os amigos e atraíam chacotas, exigindo-me um esforço enorme para
recompor minha imagem de muito boa pessoa.
Cedi e rebusquei na memória as causas das desavenças, reconstruindo
os parcos diálogos e alterando minhas decisões anteriores. Reformei o banheiro,
substituindo
pastilhas por azulejos, trocando pia, bidê e vaso, e, não obstante as preocupações com
uma despesa tão desnecessária, vi, com satisfação, reverter ao pó o chapéu
vermelho com sua desconcertante pena de avestruz. A blusa de brocados voltou ao baú tão
logo os carregadores arrumaram na sala a última peça do jogo de sofás estampados que eu
abomino, mas cujo exagero de cores fica confinado à nossa casa. Os sapatos exdrúxulos
sumiram sem deixar rastro nodia em que Maria sugeriu irmos ao cinema e eu, atento,
concordei, largando o livro.
Hoje, vivemos bem, embora Maria só se vista de cinza e eu me sinta
reduzido à
expressão mais simples.
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Carlos Alberto Castelo
Branco : Nascido em Parnaíba,
Piauí (1942), mora no Rio. Livros publicados :
"A máquina de pensar bonito contra o medo que
o medo faz" . Editora Salamandra, Rio, 1986 ( Prêmio Instituto
Nacional do Livro, Ministério da Educação) ;
"O pai que virava bicho". Editora Lê, BH, 1986
( Prêmio Monteiro Lobato, da Academia Brasileira de Letras);
"Essas abomináveis criaturas de Deus"
Editora José Olympio, Rio, 1989 ( duas vezes finalista da Bienal
Nestlé de Literatura).
Tem contos publicados no Suplemento Literário Minas Gerais,
no Jornal do Escritor e no Jornal de Letras. E-mail : betocastelo@osite.com.br voltar |
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