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        Kafka: Verdade crua de ofuscante clareza

                        Bohumila Araújo*

                        Franz Kafka, símbolo da literatura moderna, um dos autores mais estudados e
                        mais comentados do século XX, em vida teve seus livros publicados em
                        pequenas tiragens de 800 a l.000 exemplares, praticamente sem despertar
                        qualquer interesse dos leitores. Ainda na década de 20, nos últimos anos que
                        antecederam o seu precoce desaparecimento em 4 de junho de 1924 (um
                        mês antes do seu 41º aniversário), a obra de Kafka era conhecida somente
                        em reduzidos círculos de literatos em Praga e em Berlim.
                        Um fato bem ilustrativo é lembrado por Otto Maria Carpeaux, brasileiro
                        naturalizado de origem austríaca, que, em Vinte e Cinco Anos de Literatura
                        lembra seu encontro com Kafka, sendo assim provavelmente o único cidadão
                        do Brasil a conhecer pessoalmente o “autor do absurdo”. Durante uma
                        reunião literária em Berlim de 1920, Carpeaux foi apresentado ao “rapaz
                        magro, pálido e taciturno” que despertou o seu interesse com seu olhar
                        misterioso e perscrutador. Ao indagar de quem se tratava, recebeu a seguinte
                        resposta: “É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem
                        nenhuma importância!...”
                        Durante a sua vida, Kafka publicou em forma de livro somente os seguintes
                        escritos: em 1913, dois pequenos volumes - Betrachtung (Meditações) e Der
                        Heizer (O Foguista); em 1915, foi a vez da jóia literária Die Verwandlung (A
                        Metamorfose); 1916, Das Urteil (A Sentença); em 1919, um ano depois do
                        término da 1a Guerra Mundial, foram editados dois livros, In der Strafkolonie
                        (Na Colônia Penal) e Der Landarzt (O Médico Rural); finalmente, em 1924,
                        o livro que Kafka escreveu inspirado pela própria doença que causava ao
                        autor dores cruéis (tuberculose dos pulmões e da laringe), que o impediam de
                        se alimentar, Ein Hungerkunstler (Um Artista da Fome).
                        Internado a partir de abril de 1924 no pequeno Sanatório de Kierling, perto
                        de Viena, acompanhado de fiel esposa e companheira, Dora Diamant, e do
                        jovem estudante de Medicina, Robert Klopstock, que interrompeu os estudos
                        para cuidar do seu ídolo, Kafka ainda viveu alguns momentos de felicidade,
                        cercado de natureza, amor e dedicação. Porém, o seu estado de saúde se
                        deteriorava em ritmo acelerado. Quando Max Brod fez sua última visita ao
                        Sanatório, em 11 de maio, Kafka já estava literalmente morrendo de fome e
                        de sede, mas, mesmo assim, trabalhava febrilmente nas provas tipográficas da
                        primeira impressão de Um artista da Fome.
                        Foi nesta ocasião que Kafka lembrou ao velho amigo uma curta determinação
                        testamentária, feita em 1923, em que o nomeara como seu executor,
                        instruindo-o a destruir todos os seus escritos, considerados pelo autor
                        somente como fragmentos insignificantes das obras pretendidas. Porém, o
                        testamenteiro, ele próprio também escritor e poeta, grande admirador de tudo
                        que Kafka produziu, não cumpriu a vontade do autor agonizante. Juntou os
                        escritos, selecionou as páginas frequentemente reescritas inúmeras vezes,
                        arrumou os capítulos, geralmente concebidos como episódios independentes,
                        e montou os textos publicados postumamente: 1925 - Der Prozess (O
                        Processo); 1926 -Das Schloss (O Castelo); 1927 - Amerika (América);
                        1931 - Beim Bau der chinesischen Mauer (Durante a Construção da Muralha
                        da China); 1936 - Beischreibung eines Kampfes (Descrição de uma Luta) e
                        em 1937 - Tagebücher (Diários). Em 1954, o jornalista Willy Haas, em
                        cooperação com Max Brod, preparou para a primeira edição as famosas
                        Briefe an Milena (Cartas a Milena). Milena Jesenská foi tradutora e intelectual
                        tcheca, grande paixão da vida de Franz Kafka, sendo que a correspondência
                        do seu acervo representa uma rica fonte para pesquisas e estudos, permitindo
                        penetrar no complexo universo do seu conterrâneo praguense.
                        Registramos com satisfação que nestes dias, exatamente 80 anos após a sua
                        primeira versão alemã, chega às livrarias nova edição brasileira da Companhia
                        das Letras de Um Médico Rural, na excelente tradução de Modesto Carone.
                        Os temas que permeiam os contos reunidos neste livro, traduzem a
                        preocupação do autor com a integração do indivíduo na sociedade, angústia e
                        medo perante o processo desumanizador. Na parábola “Ante a Lei”, o autor
                        consegue um extraordinário efeito tragicômico, pontuando uma situação-limite
                        do absurdo: o porteiro que deveria ter dado informação e ajudado no
                        caminho à justiça, tornou-se um obstáculo intransponível para um camponês
                        que desperdiçou a vida inteira numa vã e infrutífera espera perante o portão
                        aberto, sem coragem de entrar.
                        Franz Kafka conhecia bem a impotência e o desespero daqueles que andam à
                        procura da justiça e da lei - ele, que durante anos trabalhou na Seguradora de
                        Acidentes de Trabalho e diariamente via passar por suas mãos dezenas de
                        petições que escondiam atrás de frases secas e formais verdadeiros dramas
                        humanos. Talvez esta seja a razão porque os escritos de Kafka, apesar de se
                        tratar de uma leitura difícil e hermética, cheia de simbolismos, continuam
                        fascinando cada vez mais leitores, inspirando novas obras de arte (filmes,
                        desenhos, adaptações teatrais) e atraindo a atenção dos críticos literários e
                        dos pesquisadores.
                        Para Kafka é típico também o sentimento de culpa, uma culpa sem motivo,
                        sem razão, uma culpa completamente absurda. Essa culpa visionária tomou
                        uma forma drástica e concreta antes e durante a Segunda Guerra Mundial,
                        quando o simples fato de ser judeu passou a ser uma culpa para a qual se
                        aplicavam os castigos mais terríveis e inimagináveis. Era uma culpa que não
                        podia ser evitada, nem escondida, destruindo milhares de inocentes.
                        Correligionários de Kafka, parentes e amigos, entre eles suas três irmãs
                        Gabriela (Elli), Valeria (Valli) e Ottilie (Ottla), com todas suas famílias,
                        morreram nos campos de concentração nazistas.
                        A morte no campo de concentração de Ravensbrück, em 17.5.1944, foi
                        também o destino de Milena Jesenská, que, apesar de não ser judia, foi presa
                        durante a ocupação alemã da Tchecoslováquia por causa das “atividades
                        subversivas”, sobretudo por ter escondido os judeus e tê-los ajudado a fugir
                        para o exterior. É da autoria de Milena Jesenská, outro mito a ser ainda
                        estudado e avaliado no seu significado humanista, o trecho do necrológio,
                        publicado no dia 5 de junho de 1924, no jornal tcheco Národní Listy, com o
                        qual se encerra esta pequena reflexão: “......Kafka escreveu as obras mais
                        significativas da moderna literatura; a verdade crua nelas presente faz com que
                        pareçam naturalistas, mesmo quando falam em símbolos. Elas refletem a ironia
                        e a visão profética de um homem condenado a ver o mundo com tão
                        ofuscante clareza que o considerou insuportável, e partiu para a morte.”
         

               * Bohumila Araújo, tcheca de origem e praguense, como Kafka, é
                            pedagoga e ensaísta; responsável pelo Setor Internacional da
                            pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da
            Universidade Federal da Bahia.

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