Então ele me disse muito sério eu sou o lobo, mas
eu não acreditei e fui logo chegando perto, chegando perto. E ele gritou não se
aproxime, é perigoso e eu disse quem sabe sou eu, tem muito lobo falso por aí, deixa
ver.
Mas eu sou o lobo sim, repetiu mostrando as garras.
Que nada, existe um monte de unhas postiças e rabos e orelhas, tudo de mentira. Quero ver
de perto, respondi, sempre caminhando na direção dele e insistindo por favor, deixa ver
se é de verdade, eu queria tanto encontrar um lobo -sabe como?- daquele que me comesse de
roupa e tudo, de repente, entende? Assim, sem eu esperar. E que tivesse uns olhos grandes
pra me enxergar de verdade, umas orelhas grandes pra me escutar de verdade e uma boca que
pudesse me engolir inteira e uma língua que me lambesse toda como se eu fosse assim um
pirulito e me derretesse como se eu fosse um sorvete até me deixar quentinha, molinha,
sem conseguir fazer nada, nem mesmo gritar pedindo socorro, só gemesse baixinho na hora
do susto. Um lobo assim vale a pena conhecer.
Que me esperasse atrás da moita e de mim fizesse gato e sapato, sem apelação.
Nem reclamar eu ia. Um lobo de braços grandes, pernas fortes, enorme, e que me colocasse
na palma da mão. E que me mordesse sem dó, que me comesse sem piedade. Ah, isso anda
tão difícil, nem sei se ainda acontece nos dias de hoje. O mundo mudou muito mesmo. Que
me comesse aos bocados, soltando grunhidos de prazer pra floresta toda escutar e
estremecer de inveja.
Fui falando assim, falando e me aproximando e notei que as orelhas dele tremiam, que o
rabo murchou de repente e que baixou o focinho quando parei na frente dele. E também
baixou as pálpebras, envergonhado, quando insisti em olhar ele nos olhos. Tentou
ainda um gesto pra me deter. Abriu a boca, mas não conseguiu articular nenhum som.
Deu foi um discreto passo pra trás, parecendo assustado.
Então resolvi mudar de tática. Estendi a mão e num gesto rápido arranquei-lhe as
patas, as orelhas e o rabo. Comi aquele cordeirinho ali mesmo, no meio da palha, a
poucos passos da casa da vovó.
branca@bhlink.com.br
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