julio saens

poemas de

Bruno Cattoni

o creme do éter
(radiografia de uma cor)
 


AMARELO
A graça dos fonemas
A inflexão das sílabas
A semiótica das letras
Produzem sensações
como a brisa na tez.
O sentido AMARELO
Foge à consciência
e ao fenômeno puro.
Abstraio da cor
Idealizo sem corpo
Nada é nem está
AMARELO
Nem vejo nem sinto
AMARELO
Imagino sem imagem
Como se o Nada
Pudesse imaginar
Inerente ao instante.
Não há análise nem síntese
Ou pensamento.
AMARELO
Antes do homem
Paralelo ao ser
Não referido
À existência de tudo.
AMARELO
Antiempírico
Antipsicológico
Antiepistemológico
AMARELO
Transparadigma
Transsintagma
Trassigno
Transido
Ítimodeflorado
da eternidade vã.
AMARELO
É  só ver o desespero de outra forma
A anemia como num enigma profundo
O sorriso que ainda não achou graça
Mas já se fez prenúncio contra o humor amargo
A icterícia que é rima de carícia
O desmaio: dar o sangue às emoções
A bile turbulenta: viva a reação contra os males.
AMARELO
Mentalize-o ouro, chama, sol
Gema, fruto maduro, flora do ipê
Peito de pássaros tropicais
Armazém de matéria do canto
Densidade dp sujeito, verbo
E não o abandono do objeto.
Adjetivo de valor secundário
O AMARELO da rosa
E não a rosa amarela
O AMARELO do branco
E não o branco marelado.
O AMARELO
travou em Dante
A potência de Satanás
A inquisição que era treva
Viu AMARELOS o judeu e a puta,
Os orfãos, os leprosos e os escravos
Porque desejava ardentemente a luz.
(Dentro da púrpura do açafrãp
Estava o AMARELO!)
Vamos aos símbolos: a fidelidade
Dos amntes - AMARELO
A paciência dos namorados.
Glória, nobreza, abundância
Na Casa Imperial da China
Desejo de purificação budista
Os costumes cor-de-açafrão
Nas estrofes do Bhajagovidam
AMARELO
do oriente
A mais nobre cor do prisma
E na grécia de Afrodite
Os lascivos véus dourados
A Chysós mítica de Píndaro
A própria noção visual
E o topázio que a terra abraça
Quiseram-no fonte da sabedoria
AMARELO
Deixem de ter inveja
Não se desesperem do amor
Ponham por terra as acepções do enxofre
Seu estofo não é de dor, mas de metáforas.



Poema sobre o vazio

Escrevi um milhão de poemas no tempo-espaço de uma vida
Sobram seis versos.
Afiei um milhão de facas nas pedras que se me impuseram
Sobra a estrada
Matei milhares de animais para matar minha fome
sobra um dedo de nada
Soletrei tantos alfabetos que nem mais me comunico
Sobra a palavra amor.
Expulso do tempo, ando com um estrépito de asas no crânio
Não sei qual delas é par da alma, nem quando
Erguer-se-á, pela janela dos olhos, no vento que não enxergo.

 

Bruno Cattoni nasceu em 1958, é jornalista e editor
de textos da central Globo de Jornalismo. Autor de
Figuras, Civilização Brasileira - 1983. Conspirações e inconfidências de um Caçador de Meninas Gerais, Masso Ono, São Paulo, 1992. AH!,CC&P, RJ , 1998. Kalusha, 7 letras, Rio de Janeiro, 2002 e
OSSO, na cabeceira das avalanches, 7 letras, 2005.

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