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LETRAS
DE TOMÉ
Luiz Carlos (Caio) Junqueira Maciel |
À beira da piscina do sítio em que se refugia o narrador de A
verdade tem olhos verdes, de Luís Giffoni, há as conhecidas pedras de São Tomé.
São Tomé das Letras, cidade sul-mineira, célebre não só pelas pedras mas também pela
onda esotérica e mística, fica bem próxima da terra natal de Giffoni, Baependi, como
também é cenário vizinho dos livros anteriores desse romancista: A árvore dos ossos
e Adágio para o silêncio. Nessas obras, o autor escrevia sobre um país rural e
mítico, como também abordava a transição para um país pós-industrializado. Agora, no
último romance da trilogia, eis que o cenário se diversifica: São Paulo, Boston,
Caribe, Luxemburgo servem de pano de fundo para uma intriga sobre um mundo globalizado e
uma mente caótica. Mas, no nome do narrador, Tomé , sobrevive um aspecto primitivo,
mítico, diria mesmo, mineiro, a contrastar com o restante do pomposo nome: Augusto
d`Almeida di Reggio. Ora, Tomé evoca o nome do apóstolo que duvida da verdade da
ressurreição de Cristo. Aliás, no romance, tanto Tomé quanto seu pai, Bernardo,
nasceram no natalício de Cristo. Para ficarmos ainda nessa relação bíblica, o dono do
sítio, espaço da enunciação da narrativa, faz ao protagonista uma pergunta como a de
Pilatos para Cristo: "O que é a verdade"? A cidade de São Tomé das Letras é
um lugar montanhoso, repleto de lendas: ali, a mentira e a verdade andam de mãos dadas.
Assim também, nessa montanhosa narrativa, as letras desse Tomé, narrador, oscilam entre
verdade e mentira, enigmas filosóficos e sacadas financeiras, sexo e viagens, muita
bebida e muitas incursões pela literatura. A certa altura do relato, ao evocar
Babilônia, que significa etimologicamente "a terra do pai", o narrador
exclama:"Como se repousa numa doce lembrança, quando pedra não restou sobre
pedra?" A esse Tomé sem pedras, sobram as letras...
Narrativa babélica, A verdade tem olhos verdes propõe uma
encruzilhada de leituras: o leitor que apenas busca entretenimento, aqui encontrará uma
história de ação, com tiroteios, crimes espetaculares, cenas de sexo e golpes
financeiros. Por outro lado, o jogo entre mentira e verdade, ocultamento e desnudamento,
que atravessa a narrativa de ponta a ponta, desafia um receptor mais exigente a perseguir
pistas, a enveredar por teorias e associações, esbarrar em Platão, Cervantes, Borges,
Freud e Lacan. E deste rescaldo todo, sai assobiando a música Light my fire,
exatamente o trecho em que se diz "you know that I would be a liar", que
complementa a epígrafe shakespeareana a propósito do entrelaçamento entre verdade e
mentira. E eis que o narrador quer ser visto como o amigo da verdade, expressão esta que
poderia ser dita em grego, aletófilo, ambígua palavra que se associa também à
errância e que significa "escritor satírico". Se quiserem um rótulo
para Luís Giffoni, ei-lo: escritor satírico, mais do que psicológico ou filosófico. A
sátira é a cara e o estilo desse autor, que nos transforma em voyeurs e nos
deforma a realidade, à maneira da careta de um adolescente de Los Angeles, junto ao vidro
de um carro, bisbilhotando uma cena tórrida de sexo.
Narrativa que também esbarra em Borges e em Barthes, oferece uma
leitura crítica e ferina contra os bacanas: a cínica visão do mundo de quem está no
alto da pirâmide contemplando o destino das pessoas sem futuro, cujo epitáfio poderia
ser: "Eram uns merdas" As letras de Tomé hão de atrair os estudantes e
professores de Letras e Psicanálise. Por exemplo, em "Les fomations de
l`inconscient", Lacan observa que "O pai não é um objeto real, então o
que é? (...) O pai é uma metáfora. O que é uma metáfora? (...) É um significante que
vem no lugar de um outro significante." Isso tem a ver com a teoria dos
invólucros, presente na narrativa de Giffoni, a respeito de vivermos num tempo de
embalagens...Lacan falava que o nome do pai devia ser o nome do nome do nome. Essa idéia
remete ao labirinto da linguagem. Labirinto que envolve as relações familiares, leit-motif
da trilogia de Giffoni. Não houvesse a epígrafe de Shakespeare, o autor poderia lançar
mão desse trercho de Raduan Nassar, presente em Lavoura arcaica: "e não
seria nenhum disparate eu concluir que o amor na família não pode ter a grandeza que se
imagina". Mas voltando a Lacan, que estrutura o inconsciente como uma linguagem e
demonstra que o lugar do eu é o espaço do ocultamento, da mentira, da ficção,
salientamos que o romance A verdade tem olhos verdes evoca Rimbaud, que dizia que
"o eu é um outro". De citação a citação, ("Todo cuidado é
pouco com os devoradores de livros") a excitação culmina com Machado de Assis,
aliás saboreado pelos fictícios (?) escritores Sergei Fantinov e Francis Mendelsohn:
depois que esse bruxo colocou um cadáver fazendo um livro de memórias, tudo é possível
nas nossas letras...Não se pode cogitar na morte do romance brasileiro, pois, na
narrativa de Luís Giffoni, um escritor escreve "O cadáver pós-tudo", que
sofre uma impiedosa crítica do narrador, sugerindo uma alteração obscena do acento: o
cadáver pôs tudo. Neste romance, o autor pôs o que os tempos de hoje exigem, e o
resultado é desconcertante, surpreendente, como se estivéssemos num carrossel,
perseguido por um fotógrafo lambe-lambe...
Luiz Carlos (Caio) Junqueira Maciel é poeta, escritor e professor de
Literatura Brasileira em Belo Horizonte
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