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divulgação/People+Arts
A ferida de amor em Borges
Cássia Lopes*
"Eu acho que os jovens são facilmente infelizes porque, é claro, as
paixões são mais fortes e, entre as paixões, está o desespero, não é?
"
Jorge Luis Borges
Basta arriscar um olhar sobre livros de Borges e veremos saltar, de seus
textos, palavras como espelho, tigre, labirinto, enciclopédia, Buenos Aires,
biblioteca, os livros, a cegueira, termos marcadores de seu ritmo no mundo,
de sua forma de fazer a literatura e sua
existência, já que vida e obra
transitam fora e dentro do papel, instaurando uma fronteira entre Borges e
o Outro. Mas rasgo, agora, os versos e as linhas de Borges para falar de um
outro tema, aquele que ameaçava as mãos borgianas: o amor. Se conside-
rarmos quem o lugar do leito r é trazer o outro para as cenas da
escritura,
aqui ousa-se falar do amor e, mais, falar do
amor em Borges: É o amor.
Tenho que ocultar-me ou que fugir. Esta frase
foi extraída do seu texto
O ameaçado, cujo título já se oferece como linha sobre a qual
teceremos a
leitura da temática do amor em Borges. Um medo de ser devorado, uma falta
de aptidão para as paixões e convulsões do corpo, a ruptura com a
pieguice
romântica, o temor de perder-se no fascínio de amar, a mudez concernente a
quem ama, foram estas forças que atravessaram a literatura de Borges?
Nitidamente, o escritor argentino, no texto citado, confidencia os seus frágeis
talismãs através dos quais tentava fugir do amor, e, mais, do poder do corpo.
As estantes da biblioteca, livros com capas grossas ilustrando seu desejo de
erudição, as suas valiosas amizades que emergiam da sua cegueira, os
verbetes de enciclopédias onde se insinuava o encontro com seus Minotauros;
enfim, o forte amor pela mãe. Formas de driblar ou esquecer a ameaça do
amor. Sim, o autor, quase num lamento, revela-nos suas angústias:
Infelizmente, pode-se estar apaixonado aos 80 anos. É tarde para os outros,
mas não para a gente. Ser romântico é um modo de sentir a vida. Nos
sentimos igualmente desprotegidos e indefesos ante o amor (1).
A noção do tema amoroso aliado ao sentimento de devoração percorre as
entrelinhas da poética borgiana. O amor mata e corrói, entretanto, enfrentar
as noites e a literatura sem o sentimento amoroso também configura o
desenho da morte: quem ama sente-se devorado, mas aquele que não ama
naufraga em si mesmo. Há, assim, a temática da fronteira no amor, uma zona
amorosa em que o desejo se insinua e dá-se no dito e não dito, na presença e
na ausência, nas rasuras do texto.
O amor me preocupa demais na vida real. Por isso não aparece em meus
contos: não quero pensar neles quando escrevo. Nós, argentinos, somos mais
bem-dotados para a amizade do que para o amor ou o parentesco (2).
Há uma preferência pela amizade, considerada como algo essencial, que se
sobrepõe ao amor. Aqui podemos pintar a imagem de um platonismo em
Borges. Ocorre a necessidade de transformar o amor fugidio em uma
amizade, recíproca e duradoura. Procura-se na Philia o princípio que dá
sustentação a todo relacionamento humano. Assim, a respeito deste tema,
Michel Foucault, em História da sexualidade: o uso dos prazeres, reavalia a
Érotica platônica, fazendo a genealogia do discurso que prioriza a amizade em
nome do amor, do prazer: Sócrates dá a lição, fugir de todos os contatos,
renunciar aos beijos que são de molde a entravar a alma, fazer mesmo de
maneira que o corpo dele não sofra a ferida. Em troca, toda relação deve
edificar-se sobre os elementos constitutivos da amizade (3).
Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa só no final de toda travessia
pelo sertão humano, depois que Diadorim morre, pronuncia no silêncio do
mundo a velha expressão: meu amor: Eu estendi as mãos para tocar naquele
corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus
olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos
eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com
tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da
cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo: _
Meu amor!... (4) O amor é também, em Rosa, uma ameaça, só pode ser
dito quando o corpo do amado não mais responde aos apelos da pele? Ou o
amor, em Rosa, supõe um transcendentalismo, aquele que coroa inutilmente o
homem com a visão da ascese e do sacrifício?
De que forma Borges dialoga com o sertão rosiano? Que há de Riobaldo em
Borges? Ainda que em contos como Ulrica (5), Borges talhe, na sua escritura,
o amor carnal e deixe seu personagem perder-se num quarto de hotel, o
erótico não se expõe; toda a cena é dita nas entrelinhas. O leitor deverá
imaginar, baseado na sua memória e nos seus desejos, as cenas para
reconstituir todo percurso do personagem. A malignidade das paixões, com
sua força transgressora de sexo, raça, trejeitos e poses, é muito recalcada
pela escrita borgiana. O escritor de Pierre Menard, Autor de D. Quixote
ainda respeita o cânone do amor convencional. O desregramento ou a
embriaguez não tocam a sua literatura. Ainda que deseje o outro, há um
medo de falar e trazer o outro para a arte literária.
Os grandes homens não morrem no túmulo, mas na primeira estátua
pública. Silviano Santiago profere esta afirmação em A ameaça do
Lobisomem (6), ensaio sobre o escritor argentino. Aqui, o autor chama a
atenção para toda a crítica que reverencia Borges, e, quando o glorifica,
mata-o. Como escritor exaltado por um século, o olhar crítico prostra-se,
ajoelha-se e mitifica o escritor da Biblioteca de Babel. Haverá, portanto,
apenas o leitor como um consumidor do texto, mas não um consumador, que
embaralha as cartas do jogo para apanhar aquilo que o próprio escritor
recalcava.
Assim, lendo Borges, ousamos dizer que há, nele, como em Guimarães Rosa,
a ameaça de falar do amor, fora do amor fabricado pelos mitos religiosos,
paradigmas da literatura ocidental. Tanto em Rosa como em Borges, ainda
persiste a reprodução do cânone do amor cristão.
Notas
1. Dos palabras de morir, entrevista de Alicia Barrios, revista Siete Días,
12.04.79
2. Stortini, Carlos. Dicionário de Borges. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. p.
19.
3. Michel Foucault. História da sexualidade: o uso dos prazeres. Rio de
Janeiro: Graal, 1984. p. 205.
4. João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas. Ficção Completa. Rio de
Janeiro: Nova Aguillar, 1995. p.380.
5. Jorge Luis Borges. El libro de Arena. In: Obras Completas. Barcelona:
Emecé, 1989.
6. Silviano Santiago. A ameaça do Lobisomem. In: Revista Brasileira de
Literatura Comparada. Santa Catarina: Florianópolis, 1998. p.31-44.
*Cássia Lopes é professora de Teoria da Literatura e Literatura
Dramática da Universidade Federal da Bahia