O premiado escritor português Cunha de Leiradella, radicado
há muitos anos no Brasil, lança romance policialesco que encanta pelo estilo requintado
do texto.
|
UM
POLICIAL BARROCO.
UMA AVENTURA DE LINGUAGEM
Por André Serffrin |

LEIRADELLA: fugitivo da perseguição
salazarista, amigo de Camus
|

Paulo Symões
|
Leia um capítulo do romance
Para ler Apenas Questão de Método não é
necessário conhecer outros livros de Cunha de Leiradella. Mas para que se tenha melhor
idéia do escritor, para que se saiba por que ele é considerado por alguns críticos um
dos grandes ficcionistas brasileiros da atualidade, é preciso ler um pouco mais de sua
obra anterior. Quando se trata de autor de obra vasta, como Leiradella, um livro só não
basta para apontar as qualidades geralmente multívocas do criador. Apesar disso, este seu
novo romance dá, em certa medida, a sua voltagem.
Fortuna crítica
Leiradella é escritor que percorreu estrada longa e publicou sua obra entre Portugal e o
Brasil. Aqui é ainda pouco conhecido, apesar da vasta fortuna crítica que o acompanha.
Suas edições no Brasil geralmente vieram a reboque de algum prêmio importante. Nascido
em 1934 em Brunhais (Póvoa de Lanhoso), no Solar das Leiras, em Portugal, Leiradella
refere-se ao local de nascimento como os "contrafortes da Serra do Gerês, quase
fronteira com a Espanha", lugar que lhe inspira muita saudade e é referência
freqüente nos seus livros. Chegou ao Brasil em 1958. Um fugitivo da perseguição
salazarista que tinha estagiado em Paris no Teatro de Equipe, quando se aproximou de
Albert Camus. Aqui tornou-se amigo do crítico Adolfo Casais Monteiro.
Na companhia de Amir Haddad e Maria Helena Kuhner fundou o Tuca, passando a
envolver-se cada vez mais com o teatro, como autor e diretor. Morou no Rio de Janeiro até
1980, transferindo-se então para Belo Horizonte, onde reside atualmente. Suas peças
foram encenadas com sucesso no Brasil e em Portugal.
Em 1984 estreou na ficção com Sargaços, pequena novela
que revelava já um escritor de recursos incomuns. Com a publicação de O Longo
Tempo de Eduardo da Cunha Júnior (1987), que pode ser lido como um conto longo,
chamou a atenção da crítica e não parou mais de publicar.
Aí nasce o seu personagem por excelência, Eduardo da Cunha Júnior, que tem
muito de alter-ego nas suas múltiplas encarnações em livros como Guerrilha
Urbana (1989), Cinco Dias de Sagração (1993, talvez seu
romance mais autobiográfico) e A Solidão da Verdade (1996). Eduardo
agora domina as páginas do recém publicado Apenas Questão de Método,
Prêmio Caminho de Literatura Policial de 1999, um livro que se enquadra muito bem no
gênero, mas é como uma aventura de linguagem que deve ser lido e é nesse aspecto que
reside toda sua singularidade.
Contudo, no que diz respeito ao gênero - nada ortodoxo, diga-se de passagem
- vale uma aproximação com o Tabajara Ruas de A Região Submersa
(1978), com seu anti-herói caricato, detetive Cid Espigão, e uma generosa abertura para
sítios de insuspeitado lirismo. Mas a opção pelo uso da primeira pessoa, no caso de
Leiradella, dá outra perspectiva ao personagem, trabalhado com mais pirotecnia e sarcasmo
em detrimento da veia lírica, que, todavia, não se ausenta de todo na ficção do
criador de Eduardo da Cunha Júnior.
A comparação com Ruas dá margem a outras considerações. Em nossa
literatura, se o submundo do crime e da corrupção foi, em suas vias modernas,
devidamente radiografado em romances de Aguinaldo Silva, José Louzeiro ou Rubem Fonseca,
coube neste momento a Cunha de Leiradella explorar o tema de um modo menos cru, talvez
até pelo ar picaresco que assume, sem os traços de imprevista violência daqueles. E,
por outro lado, ele representa uma nova etapa desta construção cada vez mais vasta e
cheia de nuances em que veio se tornando a nossa sátira social ou política.
Nesse sentido, e para não ficar apenas no plano da sátira, Leiradella pode
ser inserido nos velhos moldes do romance de 1930, com os devidos avanços técnicos.
Avanços estes que fazem hoje de Gilvan Lemos, Josué Guimarães, Fausto Wolff, Tabajara
Ruas, João Silvério Trevisan, Assis Brasil, Ignácio de Loyola Brandão, Silvio Fiorani
(dos livros mais recentes, é claro), quase todos de uma mesma geração e na
multiplicidade de seus percursos, os herdeiros mais legítimos da ficção de Érico
Veríssimo ou de Jorge Amado, de Lucio Cardoso ou de José Geraldo Vieira. Deve-se
entender aqui como herdeiros aqueles que levaram adiante, sem epigonismo, pisando a
estrada real, muito das conquistas formais da geração anterior.
Laboratório ficcional
Nos caminhos imprevisíveis em que a ficção de
Leiradella costuma se desenvolver, resta dizer que, na obra do autor, Apenas
Questão de Método é um laboratório de linguagem que nos remete ao último
conto do livro Síndromes & Síndromes - e Conclusões
Inevitáveis (1997), e à novela "Fractal em duas línguas",
publicada no livro homônimo daquele mesmo ano.
Naquele conto, embora bem mais radical, havia um prenúncio da linguagem
requintada que domina e encanta este novo romance. O argumento, ou, por assim dizer, o
esqueleto desse "caso policial", está numa pequena novela que o autor publicou
em fins dos anos 80. Nenhuma novidade nisso, porque os cenários e personagens de Cunha de
Leiradella são constantemente caldeados ao sabor dos novos rumos, de livro para livro,
numa espécie de reestruturação de motivos, de um laboratório ficcional que se
auto-refere a todo instante, reconstruindo-se permanentemente.
Colhendo seus temas na condição humana, centrado neste ser emparedado entre
o amor e a morte, o escritor, com a aguda percepção do caminho percorrido, conquistou a
sua linguagem, o que significa dizer, o seu estilo. E esta conjunção de tema e
linguagem, como todos sabem, é o que basta em literatura.
APENAS QUESTÃO DE MÉTODO, de Cunha de Leiradella. Editorial Caminho, 182 páginas.
Lançamento na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro.
Leia um trecho do romance
- destaques
 |
André Seffrin é crítico e ensaísta
|
|
 |