O MEU CURRÍCULO
conto de
Cunha de
Leiradella |

Ilustração de Sandra Moreira
|
Ontem,
eu tomei uma decisão importantíssima. A mais importante de toda a minha vida, realmente.
Trabalho há vinte anos numa das maiores companhias de seguros de Belo
Horizonte e sempre me orgulhei do meu emprego. Comecei como auxiliar de serviços gerais,
mas, com muito esforço e com muita força de vontade, subi todos os degraus. Hoje, sou o
vice-contador. Acima de mim só tem o contador-chefe e o diretor
administrativo-financeiro. Por isso, sou invejado por todos os colegas. Mas não me
importo. Vinte anos de trabalho, subindo sempre, são a medida exata do meu valor e da
minha capacidade.
Eu sou o tipo de profissional que sabe, exatamente, quanto vale. Por isso, a
inveja dos meus colegas não me atinge. Antes pelo contrário, me instiga e me dá
satisfação. Quanto mais eles me invejam, mais eu trabalho e mais seguro me sinto. E mais
eles são obrigados a reconhecer o meu valor.
Ontem, como sempre, li o jornal no ônibus. Moro no bairro Dom Cabral e o
tempo da viagem é a medida exata para chegar bem informado ao escritório. Gosto de andar
sempre bem informado. Às vezes, por falta de uma pequena informação perde-se a maior
das oportunidades. Por isso, faço questão de ler todas as notícias. Mesmo aquelas que
nada têm a ver com a minha profissão.
Normalmente, termino a leitura cinco minutos antes de saltar. Mas, ontem, a
Avenida Amazonas estava completamente engarrafada e, quando o ônibus conseguiu cruzar a
Avenida do Contorno, só me faltava ler, mesmo, era o caderno dos anúncios. Nunca leio
anúncios, assim como, também, nunca vejo televisão. Quando preciso comprar alguma coisa
faço, pessoalmente, a minha pesquisa de preços. Para mim, e até que me provem o
contrário, a propaganda só serve para enganar os incautos. Ou os tolos. Mas, ontem, não
tive escolha. Aquele trânsito me obrigou a fazer uma coisa que nunca tinha feito. Ler o
caderno dos anúncios.
E levei um choque. Realmente, um grande choque. Parte da primeira página
parecia ter sido escrita para mim. Como já disse, nunca leio anúncios. Mas aquele era
diferente. Não era nem anúncio. Era uma verdadeira intimação. Não é comum, em Belo
Horizonte, dizer-se às pessoas VOCÊ, QUE É UM CHEFE. Normalmente, diz-se
o contrário. Como dizem os meus colegas invejosos, embora a inveja deles não me atinja.
E não me atinge porque eu sei que sou um chefe. Tenho plena consciência do meu valor.
Por isso, sempre que tentam denegrir a minha imagem, a minha resposta é o desprezo. Mas,
mesmo assim, aquele anúncio me chocou. Eu sou um chefe e sei que sou um chefe.
Entretanto, faz muita diferença eu saber que sou um chefe e ler isso, escrito num jornal.
Por isso, li aquele anúncio. E li-o com a mesma atenção com que leio os
artigos de fundo ou as opiniões das personalidades importantes. Uma seguradora
estrangeira, já operando no Rio de Janeiro e em São Paulo, procurava um profissional
capaz e seguramente habilitado para ocupar o cargo de gerente-administrativo da filial a
ser instalada em Belo Horizonte. Pedia fossem enviados currículo e foto recente, URGENTE,
para a portaria do jornal. O salário seria, não só compatível com o cargo, mas,
também, e acima de tudo, compatível com a capacidade do candidato.
Fiquei impressionado, e digo impressionado para não dizer outra coisa, por
dois motivos importantíssimos. Primeiro, pelo fato de quebrar, ainda que
involuntariamente, um hábito de mais de vinte anos. Segundo, com o teor do próprio
anúncio. Que, valha a verdade, me pareceu até premonitório. VOCÊ, QUE É UM
CHEFE. Eu sou, realmente, um chefe. Não só de direito, dada a minha capacidade,
mas também de fato, dado que chefio diversos auxiliares. Chefio quatro, incluindo o
supervisor de patrimônio. E, no mês que vem, chefiarei mais dois. A telefonista da
manhã e a da tarde.
Reli o anúncio, recortei-o com cuidado, e guardei-o na carteira. Sempre fui
muito meticuloso e exigente. Mesmo comigo. Se um documento, por exemplo, tiver que ser
arquivado na pasta A e a pasta A só puder ser consultada com a permissão do diretor, se
ele não for trabalhar naquele dia, o documento não será arquivado naquele dia. Creio
que este exemplo é suficiente para demonstrar os parâmetros do meu comportamento
profissional e pessoal. Exatamente porque as normas existem é que devem ser cumpridas.
Por isso, talvez, grande parte da emoção que senti naquele momento fosse proveniente do
fato de saber que, apesar de ter chegado onde cheguei, aquele anúncio podia, ainda,
modificar toda a minha vida.
E iniciei, então, a segunda etapa do processo. Analisar metódica e
profundamente, como é do meu feitio e sempre fiz em todas as opções da minha vida, o
resultado pretendido. Que eu era um chefe, ninguém podia duvidar. Os meus auxiliares eram
a prova mais cabal da abrangência do meu cargo. E o fato de, a curtíssimo prazo, chefiar
ainda mais dois, só reconfirmaria a veracidade da minha afirmação. Portanto, por este
lado, nada a temer. Se eles queriam um chefe, eu era um chefe. E um chefe que sabia
chefiar. Se não soubesse, se houvesse alguma dúvida quanto à minha capacidade, o
diretor administrativo-financeiro não me teria chamado anteontem e não me teria dito,
Senhor Eduardo, a partir do mês que vem o senhor vai chefiar mais dois auxiliares. A
telefonista da manhã e a da tarde.
Tirei o anúncio da carteira e li-o mais uma vez. VOCÊ, QUE É UM
CHEFE. Não havia nenhuma dúvida. Estava escrito. VOCÊ, QUE É UM CHEFE.
Emocionado, fechei os olhos e olhei, por um instante, para dentro de mim mesmo. Se eu já
era um chefe num escritório como o nosso, que chefe não seria num escritório que não
tinha vergonha de dizer que os chefes eram chefes? Esta pergunta simples foi a resposta. O
argumento decisivo. Apesar de nunca ter feito uma coisa igual em toda a minha vida,
responderia àquele anúncio. E não iria desapontá-los. Se precisavam de um chefe, eu
precisava só de um lugar onde pudesse comprovar, ainda mais, a minha capacidade de
chefiar.
Finalmente, com mais de meia hora de atraso, e por que não dizer, muito
emocionado, entrei no escritório. Sentei-me e, com todo o cuidado, tirei o anúncio da
carteira e li-o mais uma vez. Inteiramente capacitado do teor e completamente decidido a
responder, pensei na melhor forma de concretizar a nova etapa do processo. Estruturar o
meu currículo. Analisei, cuidadosamente, todos os meus conhecimentos e verifiquei, não
sem uma certa dose de orgulho, diga-se em prol da verdade, que a minha experiência
ultrapassava, e muito, todos os parâmetros de um currículo. Diante desta conclusão
objetiva, a solução também foi objetiva. Se quisesse, de fato, demonstrar quem eu era,
teria que enviar, ao invés de um simples currículo, uma carta curricular. E, nela,
colocar tudo que sabia e estava capacitado a fazer, e, também, a desenvolver, caso me
fosse solicitado. Mas, tudo isto, exposto de uma forma direta, concisa, absolutamente
incisiva e sem rodeios. A pessoa que me lesse tinha que me sentir logo na primeira frase.
Como eu tinha sentido aquele VOCÊ, QUE É UM CHEFE. Na verdade, eu tinha
que dizer na minha carta, e nos termos mais convincentes e mais exatos, o que, em vinte
anos de carreira, e uma carreira brilhante e sempre ascendente, diga-se também em prol da
verdade, eu tinha conseguido estudar e aprender.
Em vinte anos, quando a gente quer e se esforça, tudo se consegue. E eu,
graças a Deus, sempre quis muito e sempre me esforcei. Embora, nos dias de hoje, a
televisão tenha, praticamente, acabado com a vontade de estudar e de refletir, eu sempre
achei que o saber não ocupa, nem tempo, nem espaço. Antes pelo contrário, nos faz
ultrapassar essas barreiras. Por isso, quando vi que o anúncio era de uma companhia
estrangeira, logo me lembrei que os estrangeiros, principalmente os americanos e os
suíços, dão o máximo valor aos profissionais que se fazem por si mesmos. Lincoln e
Guilherme Tell sempre foram os meus paradigmas mais perfeitos. Claro que as
circunstâncias e os tempos são outros. Mas, guardadas as devidas diferenças, o que
tinha sido a minha vida senão uma escada íngreme e da qual eu subira todos os degraus?
Não começara como auxiliar de serviços gerais e não era, agora, o vice-contador?
Consciente da responsabilidade, escrevi durante toda a manhã. Pela primeira
vez na minha vida roubava algumas horas de trabalho à minha empresa. Mas a grandeza da
causa justificava, plenamente, a apropriação indébita daquelas horas, e a minha
consciência de nada me acusou. Primeiro, delineei um rascunho com as idéias gerais.
Depois, dei-lhe um formato mais adequado e iniciei a revisão do texto final. Comecei
assim: EU SOU UM CHEFE. E, confesso, até sorri ao ler este começo. Foi um
ato de verdadeira inspiração, reconheço. Se eles afirmavam VOCÊ, QUE É UM CHEFE,
eu não podia deixar de confirmar EU SOU UM CHEFE. Terminada a revisão,
mudei a fita da máquina, limpei os tipos, e comecei a datilografar. Em sete folhas
ofício, sem timbre, condensei os meus vinte anos de trabalho, de estudo e de experiência
profissional e pessoal. Quando assinei, e assinei propositalmente a tinta preta, para dar
mais seriedade ao conteúdo, tive certeza de ter feito, realmente, um bom trabalho.
Dificilmente apareceria outro candidato que pudesse dizer, como eu dizia, EU SOU UM
CHEFE.
A minha vida sempre foi uma vida dedicada ao estudo e ao trabalho. Tirando
seis meses de um casamento de nefastíssima memória, e digo nefastíssima, porque a minha
esposa, enquanto eu me esforçava para consolidar a minha ascensão iniciante, ao invés
de me incentivar e esperar o resultado, achou que eu a tinha enganado e foi embora. Mas
não a culpo. Infelizmente, nem todos podem ser perseverantes. Apenas, se ela tivesse
tido, já não digo a minha perseverança, mas só um pouco de paciência, hoje, ao invés
de ser uma mulher adúltera, seria a esposa feliz de um vice-contador. Tirando esta queda,
se é que se pode chamar queda a um simples e involuntário acidente de percurso, a única
coisa que fiz na vida foi subir. E subi mais e muito mais rapidamente do que a maioria das
pessoas. Em cento e cinqüenta milhões de brasileiros, quantos podem dizer que são,
hoje, vice-contadores?
No intervalo do almoço tirei a foto, não como eu queria, é verdade, mas o
prazo não me permitiu tirar uma mais perfeita, e fui entregar a carta no jornal. Por
precaução, tomei um táxi e mandei seguir para a Savassi. Dei algumas voltas e olhei
algumas vitrines, se algum dos meus colegas me visse na Savassi jamais iria imaginar que
eu estava respondendo àquele anúncio, e, passada meia hora, tomei outro táxi e saltei
na Avenida Afonso Pena. Sempre verificando se alguém me seguia, entrei na Rua Goiás e
corri para a portaria do jornal.
Pode até parecer, e certamente é uma bobagem, mas quando voltei ao
escritório, já me sentia um estranho ali dentro. Por mais que me concentrasse e olhasse
os meus auxiliares, por mais que pensasse que, no mês seguinte, iria chefiar ainda mais
dois, não conseguia trabalhar. Os meus sentidos se recusavam e, a única coisa que
conseguia enxergar na minha frente, era uma sala só minha, toda acarpetada, com cortinas
e ar condicionado, meia dúzia de telefones e uma secretária na ante-sala, e eu dirigindo
tudo aquilo como um chefe de verdade.
Pouco antes de encerrar o expediente a telefonista me chamou. Tinha um senhor
na recepção me procurando. Não imaginava quem fosse, mas não tinha importância. Não
demoraria muito e ninguém mais me chamaria.
- Senhor Eduardo da Cunha Júnior?}
- Sim.
O homem levantou-se e entregou-me um envelope.
- Mandaram entregar.
Nem perguntei quem. Já era um estranho ali dentro e tudo que pudesse
acontecer não me diria mais respeito. Voltei para a minha mesa, sentei e olhei os
colegas, ainda debruçados sobre papéis e mais papéis. Coitados. Aquela ia ser sempre a
vida deles. Nenhum deles era um chefe. Num gesto maquinal, sem prestar mais atenção,
abri o envelope. Tirei o conteúdo e deixei-o escorregar por entre os dedos, sem o menor
interesse. Era o último envelope que abriria naquela mesa.
Eram sete folhas. Papel ofício, sem timbre, todas em branco. Só na última,
a tinta preta, a minha assinatura era legível.
Cunha de Leiradella
nasceu em Portugal, nos contrafortes
da Serra do Gerês, quase fronteira com a Espanha. Reside no Brasil desde
1958. Dentre os livros que escreveu destacam-se o romance O Longo
tempo deEduardo da Cunha Júnior - (Prêmio Fernando
Chináglia,
1981 - Ed. Nova Fronteira), Inúteis como os mortos, contos - (Prêmio
Cruz e Souza, 1985).Cinco dias de sagração - ( Romance, Ed. Record,
1993), entre outros.Escreveu também o roteiro do longa-metragem O circo
das qualidades humanas com direção dos cineastas Geraldo Veloso, Jorge
Moreno, Milton Alencar e Paulo Augusto Gomes. Cunha de Leiradella reside
em Belo Horizonte desde 1980.
destaques
|