cunha-metd.gif (9337 bytes) Fui apresentado ao doutor Epaminondas às duas e meia. Em ponto, como ele mesmo disse, mas, de acordo com o alarm chrono do meu Casio, com um minuto e vinte e quatro segundos de atraso. O senhor Melquíades bateu duas pancadinhas na porta, uma voz abafada disse, entre, e o senhor Melquíades entrou. Quando o senhor Melquíades entrou e a mesma voz abafada disse, ótimo, Melquíades, duas e meia em ponto, o alarm do meu Casio disparou e o chrono provou que não eram duas e meia. Eram, exatamente, duas e trinta e um e vinte e quatro segundos. O que não tinha a menor importância, duas e meia ou duas e trinta e um e vinte e quatro segundos, para duas pancadinhas na porta e uma voz abafada que dizia, entre, não era nada. A única vantagem, que também não era vantagem nenhuma, foi eu saber que ou o relógio do doutor Epaminondas estava atrasado ou o meu estava adiantado. Coisa também sem nenhuma importância, pois o senhor Melquíades voltou logo e pediu que eu entrasse.
   O escritório do doutor Epaminondas era a edição, revista aumentada e comentada, do resto do casarão, badulaquice que a velha Madame Francine, cafetina metida a besta que ainda conheci num antigo rendez-vous da Rua Alice, chamava de boudoir e que a putaria mais nova chamava de caixão. Paredes forradas com seda e cobertas de molduras maiores do que os quadros, madeiras laqueadas a dourado, cortinas adamascadas e tapetes mais grossos do que pneu de caminhão. No fundo, de frente para a porta, uma secretária de pau-preto do tamanho de um jantar de ministros, cadeirão a condizer, sofás e poltronas de camurça, e, num dos cantos, um aparelho de som que devia ter custado mais do que a medalha-mor das Olimpíadas que o senhor Melquíades tinha ganho na corrida do altar. Em cima da mesa, um de cada lado, dois telefones. Um preto, acoplado a um interfone viva-voz, e um vermelho, com o botão específico das comunicações pessoais avisando os navegantes.
   Quando entrei, o doutor Epaminondas, em pé, sorrindo, como o presidente no enterro do líder da oposição, apontava um controle remoto para o aparelho de som. Sentou-se, apertou dois ou três botões e uma enxurrada de trovões reboou pela sala. O doutor Epaminondas disse, sentem-se, e, enquanto o senhor Melquíades fechava a porta, a digitação do controle amainou a trovoada. Sentei-me numa das poltronas, o senhor Melquíades sentou-se na outra, e o doutor Epaminondas apontou o olho vermelho do aparelho de som.
– O senhor gosta de Vivaldi?
– Adoro.
– Ainda bem, porque eu não sei trabalhar sem Vivaldi.
Fazer o quê? Dizer que não conhecia nenhum vivaldino e que gostava mais de mestre Pixinguinha e de Cartola? Se na primeira vez que fui a Teresópolis e a madame do fujão siamês botou na minha frente um prato de embeurrée d’escargots eu tivesse dito que não comia a merda daqueles caracóis melequentos, alguém duvida que eu pudesse trocar de carro todo o ano e ainda tivesse clientes na minha fila de espera? Como dizia meu velho pai, viver é engolir um sapo e cagar uma dúzia. O sorriso do doutor Epaminondas só não era maior do que o meu porque ele nem sonhava que eu preferia o Carinhoso de mestre Pixinguinha à maior das trovoadas desse tal vivaldino.
– Não foi fácil. Foi ou não foi, hem, Melquíades?
O senhor Melquíades ainda quis abanar a cabeça, concordando, mas não deu tempo. A concordância parou no r e virou a maior das cornetadas. O doutor Epaminondas continuou, como se os decibéis do tabaqueiro do senhor Melquíades fizessem parte do contexto.
– O Melquíades sabe, foi ele que tratou disso. Só em São Paulo foi possível gravar As Quatro Estações de forma que desse, exatamente, duas horas para cada estação. Como o senhor também gosta de Vivaldi, deve saber que...
   Abriu uma pasta e continuou, um olho nos meus olhos e outro nas anotações.
– O senhor deve saber que A Primavera dura 10 minutos e 20 segundos, ou seja, 620 segundos, O Verão dura 10 minutos e 54 segundos, ou seja, 654 segundos, O Outono dura 10 minutos e 42 segundos, ou seja, 642 segundos, e O Inverno dura 8 minutos e 51 segundos, ou seja, 531 segundos. Para obter os 28.800 segundos das oito horas, matematicamente, a operação seria facílima, bastaria multiplicar A Primavera por 11, 61290323, desprezando a sobra de 0,000002, multiplicar O Verão por 11, 00917432, desprezando a sobra de 0,000005, multiplicar O Outono por 11, 21495328, desprezando a sobra de 0,000005 e multiplicar O Inverno por 13,55932204, desprezando a sobra de 0,000003. O problema surgiu quando se foi consolidar o resultado. Como As Quatro Estações totalizam 40 minutos e 47 segundos, ou seja, 2.447 segundos, se dividirmos os 28.800 segundos das oito horas pelos 2.447 segundos da gravação original, obteremos um multiplicador médio de 11, 76951370, desprezada a sobra de 0,00002. Entretanto, somados os multiplicadores individuais obtemos o resultado de 47,39635287, que, dividido por 4, nos dá o multiplicador médio de 11,84908822, desprezada a sobra de 0,00000001. Ora, multiplicando os 2.447 segundos da gravação original por este multiplicador médio, obteremos, não os 28.800 segundos das oito horas, mas 28.994,71887 segundos, ou seja, 194 segundos e 71.887 milésimos a mais.
O doutor Epaminondas calou-se no seu melhor doutorado, talvez esperando que eu dissesse alguma coisa, pelo menos, sobre as sobras, já que os números, de tão exatos, falavam por si mesmos, mas não seria a mão que mamãe beijava que iria meter os dedos na cumbuca. Como dizia meu velho pai, quem mete mão em cumbuca fica com a cumbuca na mão. Como o silêncio catacúmbico se mantivesse, o próprio doutor Epaminondas resolveu o problema. Acendeu um cigarro, respirou fundo e puxou aquela tragada que os ecologistas pulmonares esconjuram e chamam caixão-à-cova, e o pessoal menos iniciado traduz por cova-funda.
– Meu caro senhor Eduardo, o senhor não faz a menor idéia do trabalho que eu tive para resolver este impasse. Mas consegui resolvê-lo, e de uma forma até bastante curiosa. Curiosa, eu digo, no sentido de aproximação histórica, se é que o senhor me compreende.
Balancei a cabeça na maior compreensão e o doutor Epaminondas, satisfeito, bisou a cova-funda.
– Colombo, forçado, um dia, a botar um ovo em pé, que é que faz? Faz, exatamente, o que nunca ninguém tinha feito. Bate a ponta do ovo na mesa e pronto, resolvido o problema. Ora, foi, justamente, pensando que, se Colombo fez o que nunca ninguém tinha feito, eu também podia fazer a mesma coisa. E fiz. Fiz mesmo. Aumentei o volume do largo do Inverno e pronto, resolvi o problema. A minha gravação ficou com as oito horas exatas, isto já lá vão mais de cinco anos, e, até hoje, não falha, de segunda a sexta-feira é A Primavera e O Inverno de manhã, e, à tarde, é O Verão e O Outono. Alterei a ordem apenas por uma questão de gosto pessoal, nada contra a ordem natural, espero que o senhor me compreenda.
Bisei o balanço da cabeça e o doutor Epaminondas, satisfeito com a minha compreensão, sorriu e apontou a fonte do barulho.
– Ó, agora é O Verão.
Trisei o balanço da cabeça e o doutor Epaminondas acompanhou, trisando também a cova-funda.
– Agora, acompanhados pelo mestre, senhores, vamos ao trabalho.
   Não gostei da companhia, mas fiz a minha parte, ajeitei-me na poltrona e levantei os abanos das orelhas. Com os trovões do vivaldino reboando pela sala, a voz do doutor Epaminondas parecia uma vela disputando uma corrida hertziana com o holofote-mor das Olimpíadas. E ele falou que falou, sem dar a menor bola às assoadelas do senhor Melquíades ou às dores do meu pescoço, esticado que nem pescoço de girafa catando folhas a mil metros do chão. Salvou-me, não o sentido da aproximação histórica, mas a continuidade ritmada das covas-fundas. O doutor Epaminondas, se falava que nem locutor do jóquei-clube em dia de sweepstake, também fumava que nem investidor da Souza Cruz. E eu, vupt, vupt, nada que nada atrás dele, aproveitando a valorização das ações e botando a mão no meu, e o senhor Melquíades fazendo o que as trompas permitiam, ora acendendo um cigarro, ora assoando o nariz. E assim o verão do vivaldino se aproximou do outono.
   O doutor Epaminondas era uma figura. Muito alto e muito magro, dois metros por setenta quilos ou talvez até mais alguns centímetros por menos alguns quilos, moreno e totalmente careca, barba passa-piolho e óculos bifocais, não aparentava os quarenta e cinco anos que disse ter. Sempre curvado e engelhado, parecia mais o tio do avô do que ele mesmo. E vestia-se como mandava o figurino do mais hifenizado manual do sistema de circulação fiduciária, terno de tropical inglês risco-de-giz, jaquetão seis botões, bem apertado na cintura, camisa de seda branca e gravata azul de crochê. Os sapatos não deu para avaliar, mas, a ver pelo resto, apostaria, no mínimo, dois marechais que brilhavam no cromo preto, bico fino. Se o senhor Melquíades parecia um cantor de tangos aposentado, o doutor Epaminondas só poderia ser o autor da bandonionada ou o regente da orquestra. Mas não era, era o presidente do grupo das empresas Mercúrio e um advogado que nunca tinha exercido a profissão, como fez questão de frisar com o orgulho digno de um orientador de teses de doutorado.
   Quando a neblina do outono engoliu o sol do verão, e eu soube que a estação tinha mudado porque o doutor Epaminondas calou-se, apontou o aparelho de som e disse, ó, agora é O Outono, o senhor Melquíades já tinha o nariz mais vermelho do que a bola da bandeira do Japão, e eu, embora não escutasse metade do discurso, mas lembrando o que me tinham dito na sucursal do Rio de Janeiro, também já sabia o que o doutor Epaminondas, falando, agora, em nome das empresas Mercúrio, como ele próprio fez questão de frisar, esperava do meu trabalho. Que, no mais breve tempo possível, pegasse o larápio no maior particular, sem lamiré ao mercado, independentemente, claro, do pagamento integral dos três meses do contrato. Para quem reesqueceu o traçado, bom será reler o primeiro enunciado da Lei siamesa de bem cavalgar qualquer hipótese: a pessoa jurídica da empresa tem muito mais medo do escândalo do que a pessoa física de qualquer dos componentes. O doutor Epaminondas calou-se, o senhor Melquíades assoou mais uma vez o tabaqueiro e eu percebi, aliviado, que já se avistavam as primeiras casas de Atenas. Como dos quarenta e dois quilômetros da maratona já só faltavam alguns metros, aproveitei a parada do Concorde do doutor Epaminondas e entreguei as minhas credenciais.
– Doutor Epaminondas, o que eu posso dizer ao senhor é que farei tudo que estiver ao meu alcance.
   O doutor Epaminondas fechou a pasta dos multiplicadores das estações do vivaldino, abriu outra, passou algumas folhas, fechou-a e guardou-a numa das gavetas.
– Ótimo. Ótimo. Eu sei que o senhor é um profissional muitíssimo bem qualificado.
   Meu velho pai tinha razão, se uma mão lava a outra, as duas tapam a cara e o sujeito fica sem-vergonha. As dores do meu pescoço não tinham dedos, mas deram para o gasto. Sem o menor resquício de vergonha espichei todas as vértebras e li o nome da pasta: COMISA. Era no que dava saber escolher. Entre duas possíveis fontes pagadoras, nem sempre a melhor é a que mais paga, a melhor é a que pode pagar sempre. Mesmo correndo o risco de fazer mais barulho com os ossos do que o senhor Melquíades fazia com o nariz, deixei as juntas estalar e levantei-me.
– Uma última coisa, doutor Epaminondas. Vou precisar de uma cobertura.
– Uma...
– Um disfarce, digamos assim, que me permita andar por aí sem levantar desconfianças.
– Alguma sugestão?
– Bom. Como a Luzinete, antes do almoço, me perguntou o que eu vinha fazer na Mercúrio e eu tive que dizer alguma coisa, disse que era vendedor. Portanto...
A garganta do doutor Epaminondas só não superou o nariz do senhor Melquíades por uma questão de latitude, mas até os pêlos dos tapetes ondularam, batidos pelo som otorrino do conjunto.
– Tá vendo, Melquíades? Tá vendo só? O nosso amigo não pode negar que é carioca, hem? Ainda nem começou e já, ó...
Fazer o quê? Acompanhar a gaitada do doutor Epaminondas e arrancar os últimos pêlos dos tapetes ou bancar o honestão e perder o que tinha ganho no restaurante? Sem a menor sombra de dúvida, acompanhar a gaitada e capinar os tapetes.
– Quê que é isso, doutor Epaminondas? Eu só pedi à Luzinete que me indicasse um restaurante.
– E ela indicou.
– Indicou.
– E foi almoçar com o senhor.
– Não. Isso não, eu é que fui almoçar com ela.
– Tá vendo, Melquíades? O que é que eu sempre falo dos cariocas, hem?
O senhor Melquíades já tinha a rede pronta quando a primeira colcheia serial apareceu e pegou-a ainda na rampa do tabaqueiro. Mas, mesmo assim, a cornetada parelhou com o trovão do vivaldino.
– Eu ia almoçar com ele, doutor Epaminondas, mas...
– Eu sei, Melquíades, a sua dieta...
O doutor Epaminondas pegou um cigarro, acendeu-o e puxou a mais elaborada cova-funda que o esqueleto e os pulmões lhe permitiram.
– Ótimo. Ótimo. E o que é que o senhor nos vem vender?
A neblina do vivaldino enchia a sala, misturada com o fumo dos cigarros, mas o doutor Epaminondas já nem notava mais a tristeza daquele outono poluído. Quem tinha perguntado aquele e o que é que o senhor nos vem vender? não era o colega do Colombo, que também tinha feito o que nunca ninguém fizera, era o presidente das empresas Mercúrio, que tinha dinheiro suficiente para mudar até o tamanho das quatro estações do vivaldino, e foi por esse lamiré que afinei o meu discurso.
– Idéias, por exemplo.
Na mosca. O faro do colega do Colombo voou no sentido da aproximação histórica e o presidente das empresas Mercúrio levantou os abanos das orelhas. Empresários são fissurados em idéias. Custam muito menos do que obras e a paternidade é sempre transferível, é boa, me dá, que o filho é meu, é ruim, toma, que o filho é seu. Era uma isca mais velha do que a maçã do Paraíso, mas a fome do Adão nunca diminuiu.
– A Mercúrio tem alguma empresa de exportações?
– Não.
– Quê que o senhor acha de se pensar em montar uma?
– E o senhor? Entende de exportações?
– O suficiente para engabelar os curiosos.
– Mesmo os nossos executivos?
   Jogar pingue-pongue em neblina é como catar certezas em propaganda do governo, cansa demais. Com o preparo físico desmantelado pelos trovões do vivaldino, mudei o jogo para xadrez e preparei o xeque-mate.
– Algum deles entende do riscado?
– Do risca...
– São especialistas?
– Não.
– Então, resolvido o problema.
Com o rei caído junto da rainha e os bispos encomendando a Deus a alma do ex-pecador, o doutor Epaminondas balançou a cabeça, engoliu a última cova-funda e esmagou o que restou do chupado souza cruz no cinzeiro. Satisfeito com o resultado da batalha, mas sem saber ainda como iria ganhar aquela guerra, não quis dançar no velório do vencido. Num gesto magnânimo e absolutamente solidário, esmaguei também o meu cigarro no mesmo cinzeiro onde agonizava o souza cruz. E foi o gesto certo na hora mais adequada. O cinzeiro do doutor Epaminondas também era grande e de vidro fumê cinzelado, exatamente igual ao que recepcionava as visitas na mesa da radiação da Luzinete. Não sei se o senhor Melquíades notou o meu olhar, mas deve ter notado, o tabaqueiro piou tão juriti, que até o doutor Epaminondas esqueceu o vivaldino e levantou-se.
– Ótimo. Ótimo. Amanhã, à mesma hora, teremos uma reunião com os nossos executivos. Melquíades, manda colocar uma mesa na tua sala que, por enquanto, o senhor Eduardo fica com você.
O senhor Melquíades concordou com uma cornetada capaz de matar qualquer juriti em qualquer mata, e eu subi no último degrau da magirus e abracei os pés de Deus. Aqueles cinzeiros enormes, de vidro fumê cinzelado, eram mais perigosos do que o fantasma do adolf doutor Francisco Campos, que tantas madrugadas assombrou as catacumbas da Central da Rua da Relação nos meus tempos de coroinha dos padres confessores. Não era nada, não era nada, eram, pelo menos, três alternativas, ou as secretárias da Mercúrio eram tidas em alta conta, ou a fábrica dos cinzeiros devia muito dinheiro à financeira, ou a radiação da Luzinete já tinha turbinado as fontes geradoras e também já tinha transformado os mais honestos negativos numa reação em cadeia da melhor qualidade.

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