Ontem, quando entrei no
Pathé, chovia muito. Aliás, já chovia demais quando saí do escritório. Mas não me
importei. Acendi um cigarro e esperei debaixo da marquise. Sempre chove demais, quando
chove.
Esperei mais de uma hora, mas consegui pegar um ônibus vazio. Eu e uma moça. A moça
sentou junto do motorista e começou a limpar a cara com um lenço. Sentei junto do
cobrador e pensei que devia fazer a mesma coisa. Mas não tinha lenço e não quis pedir
ao cobrador. Ele podia não ter ou não querer emprestar.
Ainda chovia e o ônibus andava devagar. Mas não tinha importância. Quando chegasse em
casa, apenas deitaria na minha cama e tomaria uma dose de conhaque. Mais nada. Nada mais
me esperava no meu quarto. Fechei os olhos e pensei na cama e no conhaque. Não tinha mais
em que pensar.
Quando o ônibus chegou na Savassi, mesmo de olhos fechados, percebi as luzes coloridas
dos letreiros. Abri os olhos e olhei a rua. A água corria nas calçadas e os pingos
batiam com força nos vidros das vitrines. Um homem gordo, segurando um jornal molhado na
cabeça, correu para o meio da rua e abriu os braços, gesticulando. O motorista riu e
apontou o homem ao cobrador. O cobrador riu também e o motorista abriu a porta. O homem
entrou, esbaforido, olhando para mim.
Antes que o motorista fechasse a porta, saltei do ônibus. Não morava na Savassi, nem
conhecia ninguém lá, mas não podia continuar naquele ônibus. E se aquele homem
saltasse no meu ponto e pedisse para tomar um conhaque na minha casa e dormir na minha
cama?
Quando saltei, ainda escutei o riso do cobrador. Mas não me importei. Ele não era como
eu. Não podia sair daquele ônibus e fazer o que quisesse. Mesmo andar na chuva, enquanto
todo mundo corria e se abrigava.
Atravessei a rua e parei na porta do Pathé. O
porteiro olhou-me e esfregou as mãos com força. Olhei a cara dele, olhei a chuva, olhei
as lanternas vermelhas dos ônibus e dos carros, e pedi uma entrada à bilheteira. Não
tinha pensado ir ao cinema. Mas lá dentro, pelo menos, aquele homem não poderia
encontrar-me e pedir para tomar um conhaque na minha casa e dormir na minha cama.
Só meia dúzia de pessoas se espalhavam pela sala. Mas, mesmo assim, sentei bem na
frente, longe delas. Não gosto que me olhem. Fechei os olhos e deixei as vozes dos atores
e a música envolver os meus ouvidos. De vez em quando, alguém tossia ou espirrava. Mas
era só. Todos estavam longe e o som logo sumia atrás de mim.
Não sei quanto tempo fiquei assim. Mas não me importei. Pelo menos, ninguém me olhava e
ninguém poderia pedir para tomar um conhaque na minha casa e dormir na minha cama.
Tranqüilo, ajeitei-me na cadeira e deixei o corpo relaxar. Mas alguém tossiu mais forte,
pigarreou e cuspiu no chão, e o ruído incomodou-me. Abri os olhos. Na tela, a imagem
passeava por uma rua alagada pela chuva. Olhei aquela água, escorrendo nas paredes e
encharcando no chão, e, de repente, a imagem fixou-se numa esquina e um vulto apareceu.
Andava curvado, os sapatos chapinhando e os pingos batendo na cabeça. Andou até o meio
da rua e parou. Num corte brusco, o rosto encheu a tela e ele me olhou, como se quisesse
entrar no meu olhar. Não gosto que me olhem, mas aquele olhar não me deu medo. O vulto
estava parado e só a chuva escorria pelo rosto. Levantei as mãos e passei-as no meu
rosto. Silenciosamente, a mesma chuva escorreu pelos meus dedos. Olhei-o outra vez e o
olhar já não olhava. Gritava que eu fizesse alguma coisa.
E eu fiz. Levantei-me e entrei na tela, querendo que ele me pedisse para tomar um conhaque
na minha casa e dormir na minha cama.
Cunha de Leiradella, nasceu em Portugal, nos contrafortes da
Serra do Gerês, quase fronteira com a Espanha. Residiu no Brasil
de 1958 a 2004. No Rio de Janeiro até 1980 e desde então em
Belo Horizonte, quando voltou para a terra natal.
Dentre os livros que escreveu destacam-se o romance
O Longo tempo deEduardo da Cunha Júnior - (Prêmio Fernando
Chináglia,
1981 - Ed. Nova Fronteira), Inúteis como os mortos, contos - (Prêmio
Cruz e Souza, 1985).Cinco dias de sagração - ( Romance, Ed. Record,
1993), entre outros.Escreveu também o roteiro do longa-metragem O circo
das qualidades humanas com direção dos cineastas Geraldo Veloso, Jorge Moreno,
Milton Alencar e Paulo Augusto Gomes. leiradella@sapo.pt
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