
Um índio
Conto de
Duílio Gomes
Na planície, um índio e o sol. Há na
planície um silêncio carregado de um outro silêncio maior do que ele. Há também
alguns cactos. E um sol vermelho, poligonal, pregado no céu que cobre o silêncio, o
índio e os cactos.E o índio está parado, olhando o sol. Há no seu rosto uma
luminosidade tão intensa que ele mesmo não suportaria a própria visão, se se olhasse
de frente.
O índio olha o sol e espera um acontecimento qualquer. Mas não há acontecimentos nessa
planície onde o silêncio carrega em seu ventre um outro silêncio maior do que ele e há
cactos e ossadas de animais.
O índio tem um olhar duro, de índio, e está imóvel, olhando o sol. Aos seus pés
estão os cactos e as ossadas e há uma tristeza tão grande em tudo isso que o
pintor arranca, de repente, o quadro do cavalete e o rasga com violência. Há raiva e
frustração no rosto do pintor. Ele queria pintar um quadro que fosse, de fato, um índio
em uma planície e não uma imensa planície triste com um índio inexpressivo fincado no
meio. Porque a planície tomara todo o quadro e parecia que ele o pintara pensando apenas
em uma planície com um índio e não em um índio numa planície . O vermelho do sol
estava também muito carregado e o índio não parecia tão alto como na realidae deveria
ser.
O pintor pisa na tela rasgada e o ódio é tão grande em seu rosto que parece que ele vai
cair de repente com o coração estourado. O seu ódio é tão grande e os seus olhos
estão tão congestionados que ele não vê a sua mulher entrando na sala. Quando ela
coloca a mão em seu ombro ele se vira e a esbofeteia. A mulher cai e ele aproveita para
apertar o seu pescoço. Nesse momento o rapaz olha para a namorada, ao seu lado, e diz que
não aguenta mais ver um filme tão imbecil e sugere que saiam. Saem.
Na avenida há poucas pessoas; andam apressadas. Parece que vai chover. O rapaz coloca o
braço no ombro da moça e pede que ela ande mais depressa. Andam mais depressa, quase
correndo. Entram um um táxi e o rapaz fala com o chover que é para deixá-los na frente
do restaurante Bateia. É sempre um consolo poder jantar depois de um filme ruim,
principalmente quando se está numa terça-feria e existe no ar uma ameaça de chuva.
O rapaz beija a moça pensando numa outra terça-feira, à tarde, quando ele entrou em uma
loja e viu um homem ser assassinado.
Um passarinho de matéria-plástica balança a cabeça, preso no pára-brisa do táxi.
Quando chegam ao restaurante, já está chovendo forte. Saem correndo do carro e entram no
Bateia.Sentam-se na única mesa desocupada . Então o rapaz fala que nunca viu um filme
tão imbecil e a moça concorda. Depois ele pergunta o que ela vai querer. Ela olha o
cardápio e escolhe peixe. Ele escolhe pizza. Pedem cerveja. Quando o peixe a pizza
chegam, eles já beberam toda a cerveja e pedem mais uma. Então o rapaz fala que o filme
não seria tão ruim se o pintor fosse um pintor cubista e não matasse a mulher de uma
maneira tão inexplicável. Ao que a moça responde que ela preferia que ele fosse um
pintor bem medíocre. Mas que pintasse nus.
*** ***
***

Duílio Gomes - O contista mineiro Duílio Gomes tem vários relatos curtos de sua
autoria em "Tanto". Neste "Um índio", de sua safra dos anos 60, ele
exercita o humour à inglesa com duas histórias, uma dentro da outra.
Calasans Netto Este conto vem ilustrado por Calasans Netto, artista
plástico baiano que já expôs em vários países e ilustrou alguns livros de Jorge
Amado. Seu ateliê fica em sua cidade natal, Salvador, no bairro de Itapuã. A gravura que
ilustra "Um índio" pertence à coleção particular do escritor.
voltar
|