Óleo sobre tela de Maximino - 50x60cm - s/data
Amarelo é o trator
Conto de Duílio Gomes
Ela vinha todos os dias. Sentava-se perto da cama,
ficava conversando. Ele começou
a gostar dela desde o segundo dia, quando ela trouxe chocolates. Primeiro
ele pensou que
o que ela sentia por ele era pena porque ele era um menino aleijado
e não podia sair da
cama, as duas pernas paralíticas. Mas depois viu que não
era pena, ela gostava mesmo:
não o beijara , num dia de chuva?
Um dia que ela não veio ele pensou morrer. Ficou
três dias sem aparecer mas veio uma
carta - estou gripada e de cama, por isso não fui. Fico deitada
na mesma posição que você
fica : de lado. Meu amorzinho. Cristina.
Leu a carta mil vezes. Pela janela aberta via o fundo do quintal e
o trator amarelo do pai,
um enferrujado trator cheio de musgo e flores pequeninas brotando de
suas engrenagens
paradas há mais de dez anos.
A carta ficou definitivamente incorporada à paisagem. Se olhava
para uma, lembrava-se
da outra. No bolso do pijama o papel molhava-se de suor.
Cristina voltou depois dos três dias de ausência. Estava
pálida e muito bonita e mostrou-lhe,
pela janela, o trator; brotara, sobre o seu assento comido de traças,
um girassol. E ria,
mostrando o girassol.
De noite, sem poder dormir, apalpava a carta no bolso. No futuro Cristina
se casaria com
um homem rico e ele seria apenas um solteirão aleijado tomando
o mingau da senilidade.
Não gostava de pensar naquilo. O futuro não existia -
eles seriam eternamente crianças.
Sentia que ela crescia enquanto ele definhava como um carretel se desenrolando.
Ela trazia
revistas, ensinava-lhe o mundo lá fora - existiam carros coloridos
e bailes. Ele nunca tinha
ido a um baile, não é? Pois ela fôra, no sábado
passado. Dançara com um rapaz louro,
americano. ( Nesse dia ele conheceu o que era ciúme. Não
fez perguntas sobre o baile,
não interessava). E ela rindo, falando sobre o baile.
Não conseguiu dormir, pensando nela dançando com
moços louros - o seu pesadelo
foram milhões de pernas com música.
Ela falava aquilo só para vê-lo sofrer. Contou:
que sonhara com Ney. Quem era Ney ?
Um colega de sala que tinha um Volks.
Não queria mais vê-la. De madrugada sempre ficava
pensando nela saindo de Volks e
indo a bailes. O ciúme tinha cor, era vermelho. E doía.
Depois que ela saía de sua casa,
para onde ia? Pensou em exigir satisfações. Mas não
tinham compromissos um com o outro.
Ela era apenas a visita, a menina que tinha pena dele e que o visitava
levando revistas e
chocolates. Temia pedir para namorá-la e cair no ridículo.
Os chocolates, esquecidos na
gaveta, cobriam-se de pó.
Pensou em dizer à empregada que não a deixasse
mais entrar - que morrera, que ficara
morfético.
Do trator já não mais saíam girassóis.
Vira, numa madrugada, uma cobra se desaninhando
de sob as suas rodas dentadas. As noites eram sempre o ovo vazio da
angústia - sem poder
dormir, espantava os pernilongos com tapas furiosos. E fungando : lágrimas.
Então aconteceu que ela veio, num domingo, acompanhada
de um rapaz. Era o namorado.
Falou pra ele : este é que é o Mauro, que eu visito sempre.
Os dois sentados de mãos dadas
sorriam para a sua palidez e o seu suor, o perfume dela como formiguinhas
passeando no ar.
De madrugada, novamente sozinho com a sua angústia,
ficou pensando numa conversa que
haviam tido há uns dois anos atrás : os homens da Atlântida
usavam colares?
Sapos gordos e brilhantes coaxavam no espaço
compreendido entre o trator e o seu quarto.
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