Houve e há em torno de Manoel de Barros
a glamorização do homem primitivo que seria aquele que estaria
perto da natureza para compreendê-la como a manifestação
do espaço uno neste idílio do homem e natureza.
E não custa lembrar aqui mais uma vez o que
disse o nosso José Lins do Rego "No começo a Casa foi construída
contra a floresta e assim o homem refugia-se mais do que morava. Daí
tudo ser como se obra do medo. (....) Mas não era propriamente civilização
aquilo que se fazia contra a paisagem, que era a nossa originalidade. Não
era civilização entupir baías, cobrir morros, pentear
árvores. A civilização que era nossa força
estava justamente no que desprezávamos. Os modernos artistas querem
salvar a nossa paisagem. O homem para bem viver, não pode se conduzido
contra a paisagem. Ele não deve ser nunca um assassino de paisagens.
Para ser mais humano tem que se confundir com a natureza para amá-la
como amante e fecundá-la como gênio procriador"; e é
neste sentido que a glamorização em torno de Manuel de Barros
se dá como um hiato entre homem primitivo e o homem culto.
I - A poética e a abstração
A poética de Manoel de Barros depende e absorve uma
coisa que muitos esquecem ou fazem força para esquecer que é
a abstração, pois é notório que existe um hiato
entre o homem comum e o homem primitivo e qualquer teste psicanalítico
o prova por mais que existam cínicos para contradize-la . E no poder
de abstração que o homem se faz individuo deixando de ser
apenas um homem de censo comum como Robert Musil vê .
Manoel de Barros bebe ou bebeu da poética de A.
RIMBAUD de UM SAISON EN ENFER e mais precisamente do poema “Alquimia do
Verbo” que cito em versão integral: A moi. L'histoire d'une
de mes folies. Depuis longtemps je me vantais de posséder tous les
paysages possibles, et trouvais dérisoires les célébrités
de la peinture et de la poésie moderne.
J'aimais les peintures idiotes, dessus des portes, décors,
toiles de saltimbanques, enseignes, enluminures populaires; la littérature
démodée, latin d'église, livres érotiques sans
orthographe, romans de nos aïeules, contes de fées, petits
livres de l'enfance, opéras vieux, refrains niais, rhythmes naïfs.
Je rêvais croisades, voyages de découvertes dont
on n'a pas de relations, républiques sans histoires, guerres de
religion étouffées, révolutions de meurs, déplacements
de races et de continents: je croyais à tous les enchantements.
J'inventai la couleur des voyelles! - A noir, E blanc, I rouge,
Ô bleu,
U vert. - Je réglai la forme et le mouvement de chaque consonne,
et, avec des rhythmes instinctifs, je me flattai d'inventer un verbe poétique
accessible, un jour ou l'autre, à tous les sens. Je réservais
la traduction.
Ce fut d'abord une étude. J'écrivais des silences,
des nuits, je notais l'inexprimable, je fixais des vertiges.
Manoel de Barros um
primitivo?
II - Manuel de Barros, Murilo Mendes e Jorge de Lima.
Manoel de Barros
não foi o único alquimista a tentar fabricar este diamante
e nem foi o único em sua geração houve outros dois
igualmente parentes e surreais: Murilo Mendes e Jorge de Lima.
Sobre Jorge
de Lima escreveu Murilo Mendes: "Invenção de Orfeu" é
o máximo documento literário da natureza barroca do Brasil.
Esta obra genial não nasceu na planificação da brasilidade;
por isso mesmo, na sua força caótica e dispersa, é
uma poderosa imagem deste país afro-europeu que carreia uma antiga
cultura para enriquecer suas nascentes bárbaras. 0 texto de "Invenção
de Orfeu- é extremamente complexo e erudito. Apresenta diversas
técnicas e faturas: poesias metrificadas e rimadas, outras em metro
livre e verso branco, sonetos, canções, baladas, poemas épicos,
líricos, poesias de carne e de sangue, poesias de infância,
episódios surrealistas, esboços de dramas e de farsas.(...)”
ou seja, a sua maneira também Jorge de Lima está tentando
“alquimizar” a poesia.
A questão
A. RIMBAUD está mais clara em Murilo Mendes e principalmente na
prosa toda ela rimbaudina porque este todo tempo tenta “alquimizar”
a poesia, mas como alquímico que vê que sua experiência
não foi bem sucedida este passa para o próximo poema com
diversas técnicas e faturas para conseguir sua Alquimia do Verbo.
Manoel de Barros tem antecedentes
bem claros que seu primitivismo é apenas um artifício de
alquimia que mesmo este inserido no espaço do campo é um
ser da urbe que dialoga com a urbe e não com o idílio.
Segundo Valdo Trindade em seu ensaio “Manoel de Barros, a face irônica
e um motivo romântico” coloca que “Assim como Sócrates, o
filósofo ateniense da Grécia antiga, o poeta admite que a
ignorância é o estado primeiro da criação e
do conhecer. " Melhor ser as coisas do que entendê-las", afirmou;
e "a ignorância que constrói a poesia não é
um estado mental – é um ato de sensibilidade. Criar começa
no desconhecer", dando características subjetivas a proposições
objetivas, proclamando uma relação com os sentidos (tato,
visão etc.) no conhecer das coisas, para só então
submetê-las ao crivo das idéias (a idéia do tato, do
paladar e assim sucessivamente). De tal modo pensavam os surrealistas ao
encarar a realidade, justificando que esta realidade se impregna no inconsciente;
ou seja, Manoel de Barros no seu aparente primitivismo com a dicção
do “homem do campo” está na verdade dialogando com o “eu urbano
e coletivo”, pois somente este “eu urbano” é que pode abstrair
coisas como esta pois está mais perto axiomaticamente de compreender
por exemplo XIII:
Ali me anonimei de árvore.
Me arrastei por beiradas de muros cariados desde
Puerto Suarez, Chiquitos, Oruros e Santa Cruz de
La Sierra, na Bolívia.
Depois em Barranco, Tango Maria (onde conheci o poeta
Cesar Vallejo), Orellana e Mocomonco - no Peru.
Achava que a partir de ser inseto o homem poderia
entender melhor a metafísica.
Eu precisava de ficar pregado nas coisas vegetalmente e
achar o que não procurava.
Naqueles relentos de pedra e lagartos, gostava de
conversar com idiotas de estrada e maluquinhos de
mosca.
Caminhei sobre grotas e lajes de urubus.
Vi outonos mantidos por cigarras.
Vi lamas fascinando borboletas.
E aquelas permanências nos relentos faziam-me
alcançar os deslimites do Ser.
Meu verbo adquiriu espessura de gosma.
Fui adotado em lodo .
Já se viam vestígios de mim nos lagartos.
Todas as minhas palavras já estavam consagradas de
pedras.
Dobravam-se lírios para os meus tropos.
Penso que essa viagem me socorreu a pássaros.
Não era mais a denúncia das palavras que me importava
mas a parte selvagem delas, os seus refolhos, as
suas entraduras.
Foi então que comecei a lecionar andorinhas.
Manoel de Barros em suma é um falso
primitivo pois bebeu do cerne da fonte da poesia erudita e como este mesmo
colocou “Descobri que todos os caminhos levam a ignorância./Não
fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de gado. /Os bois me recriam.”,
e sua poética utiliza-se da abstração como principal
subsidio assim como o entediado e urbano e fugitivo A. RIMBAUD de
UM SAISON EN ENFER.
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