Poemas de
Etti Blanchard

Tuti Maioli

 

uma verdade um veneno lento

      Não conseguirei fazer nada do que eu intento ? 
      Sim, eu conseguirei fazer TUDO
      Porque o mundo é MUDO
      E escuta meus atos
      E espreita meus fatos 

      Como um domingo
      Onde cai o pingo
      Da abençoada chuva
      Como numa mão cai a luva 

      E a certania da trovoada 

      Vejo minha face no espelho
      E sei que não existe outro parelho
      Ao menos no recheio
      Leão no ápice do céu 

      Um livro só de poemas
      Um sol que esclarece (clareia) o breu
      Escorpião no ascendente
      Touro no regente 

      E o que fica imanente
      E o que (vai) resta transcendente
      Uma semente
      Do ovo da serpente 

      O sono da manhã
      De uma chuva malsã
      De (companheiros) parceiros ilhados
      Nos quatro cantos e sob seus (os) telhados 

      Nas nove páginas
      E na sua memória
      Nas sete lágrimas
      E na sua História 
 

      J'ai pondu une chanson
      Pour toi, en ton nom
      Où il y avait un sermon
      Aux oiseaux et aux cochons  

      J'ai creé (crié) un poème
      Comme un orfèvre un diadème
      Comme un artiste
      Un bijou 

      Je vis dans des contrées
      "Ou le temps n'existe pas
      Je ne represente que moi-même"
      Et tous tes petits pas 

      Je pense à Rembrandt
      Comme lui avait Saskiat
      Comme Vincent (avait) Théo
      Comme Venus avait Mars 

      Alfred de Musset Aurore Dupin
      Moi isolé dans cette plage
      Je n'ai que le soleil, la mer
                                 les nuages

      Et la mémoire de ton semblant 

      Comme Romeo avait Juliette
      Comme la bossa-nova a João
      Comme Maurice Scève avait Pernette
      du Guillet et René avait Ginette 

      Moi j'ai le chaud le froid la pluie
      Et la saudade de ton regard 
 
 
      Je m'appelle Etienne aussi
      Como o rap que escutava a milhão
      Nas ruas de Sampa
      Com aquele brotão 
      Como o som do Daho

      Como um signe d'eau
      Como o significado da palavra amor 

      Como o sentido de malandragem
      vagabundagem, viagem
      como os seus sensos sagrados
      som do Nelson Coelho de Castro
      linhas do Machado 

      E eu aqui nessa Estrada só
      escrevendo de pé como Fernando
      Pessoa me banhando, me impregnando
      da língua, de línguas formando meu bando 

      respeito os artistas esse é o meu mando
      respeito pra todos do rap ao mambo
      da areia fina ao sujo lodo 

      vagando pelas areias da América do Sul
      do mundo inteiro a bagagem leve
      a língua breve e longa
      a tua ronda Montevidéu Marajó 

     o ouro transmutado
     teu ouro em pó
     jóias da coroa
     desejos de Jô 

      realizados todos
      "viverás do suor de teu rosto"
      se o suor for de prazer
      "trabalharás de sol a sol"
      se o sol quiseres ver 

      "ele sofreu pelos nossos pecados"
      então tá tudo liberado
      se tiver amor, se tiver respeito 

      "ele sofreu pelos nossos pecados"
      mas não pra eu ser humilhado
      não pra eu trabalhar como escravo
      viva Zumbi viva Che Guevara 

      "ele sofreu pelos nossos pecados"
      se eu quiser aceitá-lo
      como figura revolucionária
      cabeludo e hebreu 

      o pirmiero punk o primeiro hippie
      como o Mickey pra Minnie
      como Buda Maomé
      tudo o mais quando se tem fé 

      e estou aqui viajando a pé
      comendo massa vivendo ao léu
      sou feliz faço minhas leis vivo no céu
      estou em Saquarema estou na Ilha do Mel 

      estou em Diadema estou debaixo do céu
      estou debaixo do sol e vou ao norte
      vou ao sul vou a oeste e a leste
      vou à vida vou à morte 

      e enquanto eu viver que seja
                     sob minhas próprias leis
      pagão com fé em Deus
      e nada em minhas mãos
      a não ser a destreza que fabrica a Beleza 

      a não ser o Amor que fabrica o Amor
      a não ser o Prazer que fabrica o Bem-querer 

      Boa noite mundo
      "Chove lá fora"
      São dez da manhã 

      Atlântida, 16 de novembro de 2003
 Sob esse céu fabrico meu português 


 

      Como é bom escrever
      bendita caneta vermelha
      como aquela canção de Mona Gadelha
      "Johnny vai à guerra"
      eu vou à tua espera  

      sou planeta em busca de teu sol
      sou cometa em busca de teu chão
      sou gameta em busca de teu pão 

      que vida ABENÇOADA
      começo a pensar em poesia
      a andar dançando
      a falar cantando 

      e no mundo vou catando
     ouro no lixo
      e fazendo coroas jóias pra tua cabeça
      liberdade pra tua sentença 
 
     Tampas de caneta
     se espalham perdidas
     no mundo
     tu é tão vagabundo que não sei o que
     faço contigo procuro abrigo queres me
     arrombar ? C.D.: sim, quero deflorar tua rosa
     feita feita de terra, fogo, ar e mar porque
     onde tens tua morada, pode ser tua man-
     sarda, pode ser teu mundo, teu fundo ou
     simplesmente teu ANDAR, foram
     gametas, sexos, ecos de páginas vazias
     límpidas arrancadas de verdade, vagar,
     errância e ALTO MAR  

      solvitur ambulando in vino veritas, viajar
      necesse est vivere non necessere, quand
      le soleil se couche tout amour fait mouche,
      je suis un vagabond fait de mots, art, mer,
      errance, musique, corps, voix et matières et
      couleurs, can you really persuade me that I'm wrong,
      can you try to fake that I'M NOT SO STRONG ??? 

 

Quando pequeno, meus pais viviam dizendo: 'Viajar é a melhor coisa que
existe.' e 'There's no business like show business.'. Eu simplesmente cresci
para preencher as expectativas dessas frases. *
Tive a sorte, graças aos meus pais, de viajar internacionalmente, pela
primeira vez, com um ano de idade, para a França.
'Navigare necesse est, vivere non necessere.' 'Navegar é preciso, viver
não é preciso!' "
Etienne Blanchard, escritor, tem quatro livros publicados. Cantor, tem
três CDs lançados com composições próprias. Dois deles, homenagens às duas
etnias ciganas presentes no Brasil: Rom e Kalau. Ator, estudou no famoso
COURS FLORENT, em Paris/França. Atua no espetáculo Solvitur Ambulando
(Resolve-se Caminhando, em latim), que foi apresentado para a Alliance
Française, em 14 de julho (data nacional francesa). Participou de filmes na
França e em Porto Alegre.
* Cada frase tem uma expectativa! ettiblanchard@gmail.com.br

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