Tanto
| O poeta Eustáquio Gorgone de
Oliveira reflete sobre o significado do cipó na
obra do português Chico
Cascateiro que, no início do séc. XX, foi responsável
pela construção de uma originalíssima
obra paisagística, quase artesanal, em algumas
cidades do
sul de Minas Gerais. Artesão naturalista, construiu coretos, bancos, cascatas e fontes, que hoje constituem um valioso patrimônio artístico de Minas Gerais. |
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as pedras e as árvores se conjugam no trabalho de Francisco da Silva Reis. Como um indez de argamassa, sua obras nos evocam antigos bosques e matas que, em outras épocas, circundavam a incipiente vegetação urbana, semeada em pequenas manchas pelas montanhas. Dentre as plantas nativas que serviram de inspiração a este artista português, inúmeras espécies de cipós marcam signi- ficativa presença nos esteios, baldrames e ripas que compõem seus quiosques e miradouros. Trepadeiras de difluida beleza, os cipós foram registrados por naturalistas e viajantes (Thomas Ewbanck, Ferdinand Denis, Jean B. Debret) em gravuras de sóbrio realismo. Na vida cotidiana dos indígenas e mestiços, seus emaranhados liames servem na elaboração de utensílios e peças de artesanato. As redes, cestas, amarras e enfeites confeccionados com cipó acompanham o homem do berço à mortalha. Sinuoso e resistente, este vegetal pode ser visto, na obra de Chico Cascateiro, cintado aos troncos e pedras. Vem incrustado na argamassa que lhe serve de suporte ou exibe seu lenho cortado na extremidade (cipó-cruz). De maneira natural, sem o artifício maneiroso, o cipó contorna as terças e vigas. Não revela falsos nós ou cordomes impróprios. Percorre, sim, com naturalidade, os orifícios e frestras, deixando que aligadura entre os bambus e esteios se faça pelo encaixe ou por cravos dispostos nos gomos da madeira. Acompanhando o movimento dos cipós, lagartas e centopéias procuram refúgio no topo das coberturas. O cipoal sugere a lactação das pedras e troncos e não apenas adorno. Grutas, escadas e pilastras são nutridas por estes veios com novos arranjos, criando os limites dos parques públicos e ambientes particulares. Entre as oportunidades que os homens tiveram de criar parques e praças nas cidades do Sul de Minas, o conjunto arquitetônico legado por Chico Cascateiro revela-se como a expressão mais adequada de entendimento com a natureza. Neste contexto, os relegados cipós ainda nos abraçam com a mesma força que a sociedade moderna, através das demolições, procurou arrancá-la de nós. *Eustáquio Gorgone de Oliveira nasceu em 1949 em Caxambu,MG, é poeta, autor de DELIRIUM-TREMENS e GIRASSOL FIXO. |