Tanto
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1.
Deixa o poema germinar.
Depois será esquecido.
Instrumento sem uso, terá repouso.
Procura no arco-íris a cor serva,
aquela que há muito te acompanha.
Dê nome às tuas joias
antes que pertençam a outro.
Ao amor vindo à tona, inconsútil,
deixa-lhe marcas de azul-tártaro.
E, enquanto houver incenso na palavras,
confirma o abraço que não existe.
2.
Quando o amor circula nas bocas,
ele se move de vermelho a vermelho.
Qual cidade é assim por dentro?
A primavera viaja sobre carris
e aonde vamos ela também leva
no toucado suas flores.
Como forrados de abelhas
trazem o mel das liturgias.
Fossem todos os dias luminosos,
a quem distribuir as sombras?
5.
Se me fosse dada uma rua
para cunhar qualquer sonho,
um parceiro para dançar,
e mais a luz, o sol e as estrelas,
estaria apenas imóvel
como as águas represadas.
No tempo que me resta,
vento e chuva permanecem
externos à concha bivalve.
O vazio que me forra
não reproduz outra estirpe.
7.
Aos quarenta anos, quantas noites
poderia revisitar Vênus?
Não mais que a quantidade de arroz
numa medida.
A esta idade, quantas tardes encontrarei
com pássaros imigrados.
Talvez cinco ou só o que hoje tenho
de pães amanhecidos.
19.
Pode alguém desvencilhar-se
do cotidiano?
Temos aldravas iguais nas portas,
ruas siamesas em todas as cidades
e o céu condensando em magazines.
Dos abraços só recebemos cópias.
Nenhum mercado da cidade
alberfa jitiranabóias.
Mesmo em dias de bodas
a rotina persiste seu molde.
33.
A rotina nos afere.
Pássaro, roseiral, gafanhoto,
fotolito, castiçal e guarda-louça
projetam a mesmo sombra.
Ali, inserido,
nosso corpo deve se resguardar
do contorno que não lhe cabe,
e se aquietar.
Hábil é quem prolonga o cotidiano,
vê o dia e não o toca.
Este a rotina o protege.
51.
Ainda brilham no mesmo ponto
as estrelas que Copérnico
trouxe para os livros.
Só os desejos se desapegam de nós
e jamais podem ser cartografados.
Na lousa não encontramos o giz
que, após a palavra, se desfez.
57.
Que teus poemas sejam
sementes de mamonas:
densos, ovais, tóxicos.
Que tenham largo proveito,
alastrem em terreno baldio
e sejam também veneno.
O óleo que deles emana
possa servir aos vizinhos
em suas lamparinas.